terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O CAVALO MÁGICO

No primeiro sábado do mês tive o prazer de assistir ao espetáculo “O Cavalo Mágico”, em cartaz no Teatro Ziembinski, sábados e domingos às 17h, até o fim de dezembro.
A peça baseia-se em um conto da tradição sufista — corrente mística que busca relação com divindades através de cânticos, danças e festas — brilhantemente ritmada pelos atores Paulo Verlings, Elisabeth Monteiro e Gustavo Barros. Estes, muito bem preparados, tornam a ousada tarefa de se fazer Teatro (infantil), a partir de um texto literário, uma animada brincadeira.
Com a ajuda do cenário metamórfico, feito com câmaras-de-ar de automotores, de Daniele Geammal, o espetáculo ganha vida, revelando o universo imagético da história do príncipe Tambal que recebe de presente de seu pai um cavalo mágico, feito por um artesão do reino. A direção musical de Charles Kahn é encantadora e nos ajuda a mergulhar num Oriente além do oriente lúdico. O figurino funcional de Marcello Costa deixa os atores libertos às transições rápidas entre um personagem e outro. A luz de Tiago Montovani soma simplicidade e precisão a esse elenco de beleza artística, trabalho sério e dedicação que é “O Cavalo Mágico”.
É claro que, para harmonizar todas essas Artes do fazer teatral, é necessário um diretor que entenda muito o que está sendo feito e não tenha medo de experimentar no jogo cênico novas fórmulas e romper velhos limites da dramatização. O diretor Flávio Souza encontra a nota equilibrada da peça com sua direção cuidadosa e a liberdade dos atores em cena. Tudo isso faz de “O Cavalo Mágico” uma ótima oportunidade para quem deseja assistir a um Teatro Infantil de altíssima qualidade.

O Teatro Ziembiski fica na Av. Heitor Beltrão, Largo da Segunda-Feira – Tijuca e o telefone é: 2254-5399.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

As aventuras de Tito Berius

Faltavam dez minutos para as onze horas da noite quando Tito saiu da aula de canto em Botafogo. A ressaca do dia anterior, ainda lhe causava aquele estado de semiconsciência; próprio de quem, depois de vários copos, bebe mesmo é no gargalo. Mas nada disso perturbava Tito. Poderia-se dizer que sua têmpera era inabalável, e de fato, por trás daquela couraça boemia e cafajeste, estava um verdadeiro leão de aventuras insaciáveis. Apesar de nenhuma perturbação aparente, Tito estava aflito. Não como os desesperados, noviços da imensidão noturna, simplesmente havia algo que ele ainda não resolvera até então, e decidiu que seria feito naquele dia.
Onze horas! Anunciava seu swatch 007 com bipe elegante que, além disso, denunciava tecnologia e sofisticação. Sim, Tito era um homem de posses; mais do que isso, sabia-se valer disso. Combinava sua riqueza à situação que vivia. Contudo, alguma coisa lhe anuviava o pensamento e precisava tomar uma decisão instantânea. Pela primeira vez, ao longo do dia, perguntou a si mesmo se era quinta ou sexta-feira. — Não importava! — Acabou se decidindo, afinal estava no Rio de Janeiro; onde todo dia é dia. Acostumado ao pensamento rápido, dirigiu-se até o rio sul foi até uma livraria e comprou alguns livros de poesia. Passando em frente a um espelho, enquanto se olhava bonito, aquilo que o consumia, de repente clareava em resposta em seu pensamento. Seu reflexo sorria no espaço vazio, enquanto o Tito já deixava o shopping center, pois um plano já estava todo arquitetado na cabeça.
Meia-noite, certo de que não iria mais para casa naquele dia, Tito entrou alegremente em uma farmácia. E ao deixá-la, em seu bolso, contava dezenove preservativos!
Vou ligar para uma putinha. — Era tudo que se dizia baixinho, sem mencionar
palavra, só com um sorriso. Lembrou-se de uma dessas diversas noites em que se divertia, que uma bela prostituta, dera-lhe seu telefone celular caso ele quisesse repetir o que tão maravilhosamente havia feito num desses encontros amorosos. Procurou o papel amassado em sua carteira e lá estava, escrito em letras de forma: um nome, Keith, e oito dígitos. Tito não pode conter o riso lendo esse nome e lembrando o quanto o nome Keith fica bem em uma dessas meninas. Pensou dessa forma, que todas as profissionais do sexo deveriam adotar esse mesmo codinome, pois convenhamos, Keith é muito putinha!
Por alguma razão que não sei explicar. Tito foi até uma banca e comprou um cartão telefônico, sem querer usar o seu celular. Cada um com suas loucuras! Mas se algum de nós pudéssemos aconselhá-lo diríamos ser quase impossível encontrar um orelhão funcionando direito na cidade que já foi maravilhosa, apesar dos esforços periódicos da Telemar para colocá-los operantes. Já na primeira tentativa, dito e feito; a mensagem em luz verde dizendo: AGUARDE... As reticências querem dizer (Tito não o sabia), ETERNAMENTE! Nessa hora, e já passava de uma; Tito pensou em desistir e ir para casa. Porém o espírito aventureiro não o permitia, insistiu. Foi para o outro lado da rua, onde duas cabines eram melhores chances do que uma. Segunda tentativa. Uma voz do outro lado diz alô e eis o dialogo que se segue:
Keith?
É ela, quem está falando? — um pouco impaciente.
É o Tito — pequeno tempo para ser reconhecido e acrescentando logo em seguida. — da mangueira, se lembra aquele dia? Fomos para o Copacabana Palace, eu filmei você enquanto fazia xixi na hidro.
Cara, e aí maluco, beleza?
Então, e hoje, qual vai ser? — Tito partiu para agressão, pois via os créditos do cartão telefônico indo embora. E de repente, numa resposta inesperada, impensada em qualquer tempo por qualquer ser humano, nem mesmo nos anais da literatura universal, Keith solta uma pérola como jamais foi feita:
Estou de férias no trabalho! Casei com um holandês e vamos passar o carnaval em Portugal. Desculpa, mas só volto a trabalhar em março que é quando o meu marido viaja sozinho e eu voto pra Atlântica. — Tétrico e sem respirar, Tito não sabia o que dizer após essa enxurrada. E tudo que conseguiu foi ver os créditos do cartão acabando, enquanto Keith do outro lado dizia “alô, Tito, você ainda está aí?”.
Após colocar o fone de volta no gancho, Tito ainda não se recuperara, mesmo ele, em seu raciocínio rápido foi pego muito de surpresa. Até que seus olhos cruzaram com um pequeno papel colado na lateral interna do telefone público, dizendo: A CHUPADA MAIS GOSTOSA DO RIO DE JANEIRO, STHEPHANY, BOQUINHA DE ANJO, 9999 – 9999.
Tito, subitamente, votava-se para si mesmo como gostava de fazer e sempre lhe acontecia nessas ocasiões, e disse:
— Será?

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

ENSAIO PARA UM NOVO MUNDO

REFLEXÕES SOBRE A MINHA TERRA EM DOIS POEMAS:


Canção do exílio no Brasil

Minha terra tinha palmeiras
Que o fogo devastou.
O sabiá que aqui cantava
Por causa do homem, chorou.

As aves que agora gorjeiam são urubus de prontidão,
Pois as outras que aqui estavam já passaram a extinção.

E muitos de nós, miseráveis, um a um, caímos no chão.
— Carniça disputada pelas almas penadas e as não penadas.

Do céu foram-se as estrelas,
Cobertas pela poluição.
Os bosques, hoje são fazendas
E a vida, desilusão.

Minha terra tinha viço,
Tinha isso, tinha aquilo.
O que sobrou foi lixo.
A terra de Gonçalves Dias há muito não existe mais:
O sabiá, as palmeiras, tudo isso se exauriu.
Mas como é difícil abandonar esse Brasil.

E nos morros ainda cantam
Que ser feliz é andar na favela onde nascem... Ilusões.


Quadrilha de morte

Fernandinho matou VP que matou Uê
que matou Dendê que matou Elias que matou Tim
que não matou ninguém
Fernandinho foi para cadeia e controla o Brasil de lá
VP foi para o lixo onde era o seu lugar
Uê foi jogado no mato
Dendê virou azeite
Elias teve o fim que merecia e Tim
Que não tinha nada a ver com toda essa história triste
Morreu de descaso como nós, verdadeiramente brasileiros,
Morreremos

MANIFESTO DO AMOR E SUBLIMAÇÃO DO HOMEM
OMA ET UE

OMA ET UE pode ser qualquer coisa, mas acima de tudo significa amor absoluto e incondicional ao próximo.

É estar apaixonado pela vida e pela presença simples da natureza e do cotidiano. OMA ET UE não é dogmático, não necessita de crença, e sim, bom senso. O conteúdo não existe mais, esquecemos o que é trocar. É preciso sempre mais e nunca é o bastante. O conceito da nossa busca é propor apenas o uso de um sentimento mais amplo, companheiro, acolhedor, sem fronteiras nem preconceitos.
Dizer “eu te amo” não está mais dando certo. Vamos tentar ao contrário? Surge assim OMA ET UE, resgatando ou tentando dar um novo olhar por cima dos muros do sentimento. Descobrindo um caminho que pode ser nada, mas certamente será uma tentativa nova e que, por mais que não dê certo, otimismo e carinho nunca fizeram mal a ninguém. Muitos já fizeram isso! Simplesmente chegou a nossa vez de tentar. Só estamos colocando do nosso jeito. OMA ET UE pode ser apenas um gesto, um sorriso, uma lágrima olho no olho, ou qualquer amor que seja de verdade entre duas pessoas que se cruzam no meio da multidão.
É como em uma passagem de luz de coração a coração.
O mais importante é pensar sempre no simples: beije, abrace, diga uma palavra de carinho ou afeto, console... OMA ET UE.

O resto não pode ser silêncio.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Missa do Galo

MISSA DO GALO Simone Isnard

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu 48, ela um pouco mais. Era uma tarde de novembro. Havendo-a conhecido semanas antes no sítio de sua irmã, no Recreio dos Bandeirantes, forçou passagem para que eu a recebesse em minha própria casa; isso feito, tendo ela ido embora, fiquei muitos anos sem entender a que veio.
Ligara-me na véspera às 11 da noite. Irritada, que tinha telefonado várias vezes antes. Trabalhando num hotel, eu chegava mesmo tarde. Ah, queria me convidar para ir ao bingo. Saco!
Dias antes insistira em me visitar, ir a minha casa para um café. Mas eu tenho a faxineira... Não tinha importância. Que ia assim mesmo.
Carmem veio. E chegou com fúria espanhola. Café? - Tomaria mais tarde... Sabia que queria livrar-me dela. Fez como um gesto de autoridade, a dizer que tomaria o café quando bem entendesse. Nervosa, suava na testa, olhava fixo para mim.
Discorreu sobre a sua vida e mais longamente ainda a da irmã, terapeuta de família, como se eu tivesse o máximo interesse. Perguntou sobre minhas irmãs: – Vocês se ajudam, assim entre vocês...? Levando-a até a varanda, debrucei-me na grade e silenciei olhando a vista. De caso pensado. Visões externas ventilam as idéias, quem sabe o pensamento se espraia, se dispersa. E ela ia embora de vez.
Não foi. Retornava ao mesmo assunto, queria era falar do homem: o Teseu, aquele que me levara ao sítio. Eu desconversava. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros. Para isso viera. Aí virei bicho e resolvi: - Agora mesmo é que não vou dizer nada!
Os retratos sobre a arca da sala, a faxineira zanzando e batendo porta. Que mais ela queria saber? Por que não ia logo embora?
E falava e falava do Teseu sem parar. Só parou para o café. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família. Que era bom pai, bom cunhado. Que as mulheres corriam atrás dele, telefonavam. Que ele tinha energia demais... Que era construtivo com a família. Que quem ama cuida! E avisou: se eu ficasse com ele seria só a parte de baixo... Ah, xarope de mulher.
Lá no sítio, na varanda do casarão mineiro, ele me dera um beijo, onde estavam todos?, um beijo até longo, que raio de sumiço foi esse de todos ao mesmo tempo. Me lembro que cuidei pra que não estivessem olhando. As portas azuis fechadas. Será que estavam espreitando pelas frestas, escutando? Ih, neura, gente doida. Todos colados em nós e de repente somem.
Os retratos com as filhas, abraçadas a ele, sobre as prateleiras. Bonitos dentes, falei. Ah, comentário interessante.
O almoço com a galera à mesa, ele numa cabeceira, a ex na outra, o circo da família armado. De repente ele diz:
- O meu empregado falou pra ela (apontando pra mim) que em Minas se mata cobra à bala! Virgem, eu pensei. Tiroteio na mesa! Fugir pra onde, debaixo da mesa? Abaixa a cabeça que alguém vai morrer aqui e agora. Olha a bala perdida....
Levantando-se na outra cabeceira, Hera ergueu-se na forma de um dinossauro cuspindo fogo pela boca, olhos tentaculares:
- E o empregado, hein, tinha apanhado a Carmem no horário na rodoviária? Tudo certim?
Eu quase sentia a respiração de Carmem, colada em mim.
O parabéns cantado com bolo, soprando velinha, labaréu de fogo saindo pelas narinas de Hera. Horror. E depois um: Pra Beatriz tudo ou nada! Tudo! Ra-tim-bum! Cruzei os braços sem querer. Devo ter arregalado muito os olhos, impossível disfarçar o meu espanto.
Depois do café a zanzação na varanda, a minha saída-de-praia tinha sumido, nunca mais encontrei, será que pegaram foi pra fazer macumba contra mim? E a agendinha de capa de plástico azul jogada sobre a mesa. Alguém tirou da minha bolsa. Por que mexeram na minha bolsa? Quem mexeu aqui?! Falta de respeito!
Peguei um gancho em uma conversa sobre terapia de família e lasquei divertida:
- Com certeza ele (o Teseu) precisa de psiquiatra de plantão 24 horas por dia!
Recadinho esperto... Uma gaiola partiu em busca de um pássaro, é de Kafka isso, não?
Ah pra quê! A dinossauro-terapeuta desandou a cuspir fogo pra todo lado. Levantou as patas para o alto, soltou um rugido e deu uma rabanada que tirou a mesa do lugar, cadeiras até viraram. Quem manda aqui sou eu! Tá pensando o quê?
Recompôs-se, disfarçou a raiva: convidou geral pra ir até a horta ver a plantação de hortaliças. No rastro do rabo flamejante que varria o chão derramadas a raiva, a morte, a gosma fermentada.
Ele, o Teseu machucador que me levou lá, nem sabia que dinossauros herbívoros existem.
Pois continua sem saber. Não viu nada, não percebeu nada. Não sacou o teatro, nem ouviu além do que quis ouvir.
Quando me queixei, não quis saber. Quando falei que ia embora, não se tocou.
Foi por acaso que vi o seu Escort vermelho parado na rua em frente ao Planetário na manhã de natal. Lembrei-me de que me contara que quando as filhas eram pequenas vestiu-se uma vez de Papai Noel. Chegava da farra, cheio de bebida. Foi logo reconhecido, claro, era o paizão. O pavão. O galo da missa do galo.
Pássaros, galos, pavões, galináceos demandam liberdade para voar.
Durante a missa de Natal, a figura de um dinossauro alado com chifres de plástico azul interpôs-se entre mim e o padre; rodopiava pela nave, sainha vermelha rodada, o rabo, enorme, chocalho de cascavel na ponta, na cabeça um gorro de Papai Noel. Subia e descia, exibindo com galhardia o rabão obsceno. Na esteira, uma poeira de Netuno, névoa de estrelas, me turvava a vista. Eu caí numa espécie de sonho magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos.
Dinossauro... Minotauro... centauro... missa do galo... missa do falo...
O animal encolhia, ganhava pernas e penas, metamorfoseava-se em outros, agora um pavão, agora uma galinha, agora era uma cobra de belo desenho geométrico, boca aberta. Como uma faísca coruscante, avançou para a imagem toda branca de Nossa Senhora e tentava morder-lhe os pés, no colo o bebê aconchegado, sugestivo desenho de útero em forma de pêra. Era agora uma corda faiscante moribunda desaparecendo em estertores ondulantes.
Silêncio. Garças brancas partiram da base da imagem, as patas compridas setas atiradas em todas as direções, dardos inflamados contra o inimigo.
A conversa ia morrendo. Chegamos a ficar por algum tempo – não posso dizer quanto – inteiramente caladas. Quando Carmem foi embora naquele fim de tarde, tinha um ar de triunfo perverso, de quem cumprira o dever, doesse a quem doesse. Farfalhou as saias, bateu o salto dos sapatos no calcanhar: missão ibérica cumprida. Ordem no galinheiro, el toro estava domado.
Passados 12 anos, completado outro ciclo de Júpiter, eu ainda não compreendera totalmente os fatos. Era o aniversário de 60 anos da Beatriz, iam celebrar num restaurante. Eu disse a Teseu machucador que enviasse a Carmem um alô de minha parte. Até me deleitei com a provocação. Ah como queria estar lá para ler-lhe a face, os pensamentos. Tive que contentar-me apenas com um: - Dei o seu recado.
- E aí?
- E aí nada!...

Homenagem de Simone a Drummond

Entre


Entre

o já foi e o não será,

o já passou e o deus dará,

viaja em Carlos Drummond

o amor:

o ganho não previsto, o script não revisto,

insight de erro em acerto inventado.

O prêmio subterâneo e coruscante

responde ao desejo do expectante.

Anytime is time.
The very time of death
is a time to be born. *

Amor começa tarde.

No meio ali

entre o já foi e o não será.


Simone Isnard


* Versos de Drummond: “Qualquer tempo é tempo. / A hora mesma da morte / é hora de nascer”.

sábado, 20 de outubro de 2007

TROPA DE ELITE, TODOS NÓS



Nizia Vilaça em seu ensaio Estética da cueldade e do luxo na comunicação contemporânea, se pergunta se a crueldade e a violência pode estar nas mídias pela estetização da violência. Pensando o recente debate sobre o longa metragem Tropa de Elite, do diretor José Padilha, e as reações acaloradas despertadas em vários segmentos da sociedade, passando pelos debates acadêmicos, salas de aula, cartas de leitores em jornais, até blogs e espaços privados, chama atenção o clima de agressividade e disputa suscitado pelas interpretações sobre o filme (ou pelo filme?). Embates violentos, assumindo posicionamentos autoritários, mesmo quando o que supostamente se diz pretender é discutir o caráter fascista da obra. Será que não estaremos vivendo uma cultura bandida como sublinha Otávio Frias Filho, onde tudo que a sociedade diz abominar é glamourizado no plano da representação simbólica. Então talvez, como propõe Patrícia Mello nos relatos de Acqua toffana, “no Brasil um crime só merece atenção se for uma obra de arte. Queremos os canibais, os perversos, os hiperviolentos, os científicos, queremos os melhores”. Não será, como aponta Luiz Eduardo Soares, no artigo Uma interpretação do Brasil para contextualizar a violência, que a ira individualista vem substituindo a violência heróica das obras clássicas, estas sim representativas de uma reação profunda ao desrespeito da honra pública, através de uma crueldade que se generaliza como elaboração artístico midiática e que encontram seu solo na destruição de valores que não sejam o do capital?

Somando-se a estas análises, devemos lembrar também que a abundância do caráter realista, cercado por imagens e simulacros, observado nas recentes produções do cinema nacional, é o retrato desta sociedade hiperindividualista, onde as representações ocuparam o espaço do real. Reduzidos “a um espaço público profundamente conturbado pelos aparelhos tecno-telemáticos e pela nova estrutura do acontecimento e da espectralidade que produzem”, como sugere Derrida, talvez jamais soubemos tão pouco a diferença entre o real e o ficcional.

Trilhando este mesmo raciocínio, não poderiam estar deslocados para o espaço das representações simbólicas também o erotismo, a libido e as pulsões em geral? Não seriam então estas as razões do frisson coletivo gerado em torno do personagem e narrador de Tropa de Elite, o Capitão Nascimento, um hiperviolento sedutor, que vem promovendo a fetichização da instituição do BOPE? Exemplos recentes desta operação simbólica são as lingeries e mini fardinhas do BOPE vendidas em sex shops desta nossa cidade, típico fenômeno de merchandising espontâneo. Pensando também os comentários de Benjamim acerca do livro Fleus do Mal de Baudelaire, que compreendendo as razões do tédio dominante na vida moderna, estabelece uma cumplicidade com o leitor (espectador?) hipócrita diante da derrocada dos grandes valores e das grandes esperanças que ainda acalentavam os românticos. Também Bataille associa a violência ao erotismo, denominando de "reino de heterogêneo" aqueles instantes explosivos, de pavor e fascínio, em que desmoronam as categorias que garantem ao sujeito o relacionamento familiar consigo mesmo e com o mundo, segundo as análises de Peixoto Jr em Descentramento e transgresões: a experiência de Bataille, cujo pensamento vale destacar:

Independentemente de Sade, a excitação sexual do criminoso não escapou aos observadores. Ninguém contudo, antes dele, tinha alcançado o mecanismo geral que associa os reflexos, como a ereção e a ejaculação, à transgressão da lei. (Bataille, 1987)

Voltando ao filme Tropa de Elite, podemos destacar a estetização de uma violência que possui uma fortíssima carga erótica em cenas que misturam embates entre bandidos e policiais, ao som pulsante de um baile funk com enquadramentos de mulheres dançando suadas e altamente sensuais, junto a bandidos que exibem falicamente suas metralhadoras. É o desejo de voyer do cineasta e do público de participar desta experiência dionisíaca, a qual eles não têm acesso, e que é bruscamente interrompida pela polícia e, logo depois, pelo BOPE, chefiados pelo moralista e perverso Capitão Nascimento. Não é a toa que Birman afirma ser a individualidade perversa caracterizada pelo moralismo, que não obstante seus atos escabrosos, submete-se à moral vigente, freqüentemente de maneira servil, como tão bem podemos observar neste personagem na sua relação com seus superiores na hierarquia policial. O personagem Capitão Nascimento exibe esta virilidade perversa estetizada pelas posturas corporais, suas falas debochadas e autoritárias nas sessões de treinamento-tortura a que são submetidos os aspirantes à instituição, e que podemos encontrar ecoando em vozes da cidade, como: “Você é um fanfarrão 02, um fanfarrão”; “Nunca serão, nunca serão”.

O personagem, assim como o espectador, é também um viciado nas altas cargas de adrenalina que sua atividade proporciona, chegando a viver uma espécie de crise de abstinência, quando vive um impasse frente a condição imposta pela esposa exigindo seu desligamento da instituição, exibindo típicas manifestações de dependência química, encenadas com suores, tremores, explosões verbais violentas, e não apenas um suposto dilema existencial, como sugere o próprio personagem. Sim, o policial e o espectador se parecem também com os mauricinhos drogados, viciados em violência e perversidade. Uma sociedade doente que dificilmente encontrará sua cura estetizando seus desejos de perversidade erótica e voyerismo nas suas representações simbólicas, mas ao contrário, apenas desencadeará mais violência nos discursos assimilados e incorporados pelos espectadores, agora autorizados a reproduzi-los sob a máscara da moralidade e da ordem públicas.




A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO

EXERCÍCIO DE ESCRITA BASEADO NO CONTO DE MACHADO DE ASSIS:
“ MISSA DO GALO”
POR: RITA ALENCAR
ESPECIALIZAÇÃO / PUC-RIO /SET. 2007
PROFª DANIELA VERSIANI

“A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO”

Da única noite que tive só para mim, guardo sobre a dobradura do cetim e as rendas do lenço branco as aventuras do jovem D’Artagnan de Dumas e ao qual recorro sempre que estou me perdendo de mim mesma, sempre que estou a fingir demais ser aquilo que não quero ser.
Nesta noite, como naquela, tenho as veias a pulsar, uma inquietação no peito e os olhos querendo ver mais do que as luzes têm para mostrar... Naquela noite eu me vi pela primeira vez, assim como o lago de Narciso que descobre no fundo dos olhos do mancebo a sua própria beleza refletida e se encanta, também eu me apaixonei pelo que vi refletido naqueles olhos de D’Artagnan, olhos que iluminaram as trevas de minha solidão e que me ensinaram o caminho de volta ao sal da vida. Hoje, nesta noite, como em tantas outras, revivo minhas memórias na delicada missão de reinventar-me para não morrer.

Em nome da segurança dos bens, casei-me com o Távora, não que seja mau esposo, não de modo algum, não como um Menezes, isto não mesmo! Távora é direito, cumpridor de seus deveres e acertos, mas falta-lhe um não sei quê de sonho, de imaginação... Outro dia tivemos uma conversação:
_ Távora meu bem, não achas que deveríamos fazer uma viagem, não para longe, Paquetá talvez...
_ Concinha, já te alertei da importância de pouparmos para os dias vindouros, nunca se sabe!...
_ Mas Távora tu só trabalhas, como consegues?
_ É fácil, é só não ficar de caraminholas na cabeça, ora pois!
_ Francamente Távora, tu és demais correto, não pensas que o tempo passa, que a juventude passa e que logo estaremos velhos para aproveitar as aventuras da vida?
_ Qual o quê Concinha, se Deus quiser logo estaremos bem velhinhos, aí sim descansaremos aonde tu quiseres, em Paquetá ou em Paris, mas ricos, Concinha , ricos.

Távora mal acorda e já mete-se nos colarinhos engomados à assoviar cânticos indecifráveis pela copa, enquanto estou a socorrer mamãe de seus freqüentes ataques de tosse matinal.
_ Mamãe, a senhora precisa ver o Dr. Montezuma, ele saberá curá-la, mas precisa querer...
_ Minha filha, não tenho mais jeito não, estou quase a partir, o Veiga mesmo disse-me esta noite, anda até a preparar-se para a minha chegada!
_ Mamãe, deixe de tolices, não gosto que fale assim!
_ Mas minha filha, é o teu pai, não deves duvidar dele, olha que isso é pecado...
_ Nem mais uma palavra, a senhora irá comigo hoje mesmo ao Dr. Montezuma!

O consultório do Dr. Montezuma está instalado num sobrado da Rua do Ouvidor, de forma que mamãe e eu, decidimos sair logo de manhã cedinho a fim de não nos atrasarmos para a consulta. Antes de sair lembrei-me do meu doce D’Artagnan , não sei bem porquê, acho que foi ao pousar dos olhos sobre o canapé...Tolice!
_São coisas que só devo relembrar na quietude da noite, nunca assim a luz do dia, ainda mais que logo me vêm esses calores fora de hora...
_Vamos minha filha que as horas tardam!

Dr. Montezuma era o único ser no mundo capaz de encontrar um caminho seguro para convencer mamãe de alguma coisa, até mesmo para tomar seu elixir de gosto intragável. Sendo assim dei-me por satisfeita e convidei mamãe para uma xícara de chá na Confeitaria Colombo.
_O quê estás a olhar Conceição? Pareces uma estátua de tão pálida...
_ Não é nada minha mãe, logo passa...
Naquela manhã um turbilhão de sensações explorou-me todo o corpo, calores explodiram pelos poros da pele, incontroláveis, loucos os olhos buscaram, embaçados pela turva lágrima antiga, os olhos daquele que me descobriu, que me deflorou a alma e os sentidos...
_Como vai Dona Conceição, há quanto tempo não é mesmo? Dona Inácia como vai a senhora?
_Não muito bem meu jovem, mas... nós nos conhecemos, hein?
_Mamãe como pode ter se esquecido do Sr. Nogueira, hóspede nosso há alguns anos atrás, cinco anos Sr. Nogueira?...
_Sim senhora ,cinco anos, soube que casou-se de novo...
_Não quer sentar-se conosco Sr. Nogueira?
_Sim, por favor, sente-se, conte-nos as novidades de Mangaratiba.
_Muito obrigado, sentarei-me por alguns instantes pois estou a trabalho, não posso alongar-me muito, mas gostaria de visitá-las se for conveniente é claro.
_Bem, o Távora não há de importar-se com sua visita, visto que é um velho amigo da família, não é Conceição? Não é Conceição?
_Desculpe Sr. Nogueira, acho que não me sinto muito bem hoje , pode ser o calor...
_A Srª quer que as ajude no caminho de volta?

Neste ponto já não conseguia ouvir mais nada, um torpor tomou conta da minha mente e assim, mais que de repente acho que desmaiei nos braços do meu doce D’Artagnan. Quando acordei achava-me recostada em minha cama tendo ao meu lado aquele que muitas noites esteve ali apenas em minha imaginação.
_Graças a Deus Dona Conceição, que susto tomamos eu e sua mãe, a coitada foi ao quarto recolher-se de tão agoniada...
_Desculpe Sr. Nogueira, não tinha a intenção de...
_Dona Conceição, não sabe como me preocupei com a senhora, não se desculpe por favor, era o mínimo que poderia fazer, afinal pude retribuir-lhe um pouco por tudo que a senhora fez por mim...
_Mas eu não fiz nada...
_Fez sim senhora, naquela noite...
_Sr. Nogueira!
_Desculpe-me se estou sendo indelicado...
_Não, não, continue por favor!
_ Dona Conceição desde aquela noite da Missa do Galo que eu acordo no varar da madrugada e ponho-me a lembrar de nossas conversas, lembro-me, por exemplo, até de nossos silêncios...
_Sr. Nogueira, fale baixo, mamãe pode ouvir!
_Sim claro, mas como estava a dizer, jamais puder deixar de lembrar como a senhora estava encantadora naquela noite, seria capaz mesmo de enfrentar o Sr. Menezes por sua causa.
_Mas Sr. Nogueira , o senhor não entende, eu estou casada ...
_Dona Conceição, com todo respeito que eu tenho pela senhora e pela memória do falecido Sr. Menezes, hoje eu sou homem feito e sei muito bem o quê aconteceu naquela noite da Missa do Galo!
_Minha Nossa Senhora , o quê eu faço agora?!!
_Nada, apenas ouça-me com muita atenção, sei que a senhora não ama o Sr. Távora pois leio isto nos seus olhos, não negue por favor...
_Sr. Nogueira... Como negar??

Olhando-me no fundo dos olhos mergulhou sem amarras metendo-se por entre as nuvens de minha inútil resistência levando-me a lugares jamais suspeitados , jamais ultrapassados...
Minha alma flutuava num bailado suave e alegre, ciranda e valsa, céu de luzes e azul profundo dos mares, indo e vindo como as ondas em noite de luar, luar de lua cheia, vento morno de verão a varrer os medos e os nunca-mais...

_Dona Conceição a senhora quer ser a minha mulher?
_Sr. Nogueira eu...eu nunca deixei de ser, desde aquela noite!

Nesta noite preparo-me para fugir, não há outro jeito, mamãe há de me perdoar, mas mando buscá-la depois, pobre Távora... Há de encontrar uma boa moça disposta a envelhecer antes do tempo ao seu lado! Tenho que ser breve senão faltarão-me as forças...Nada levarei que não possa caber numa valise de mão, nada levarei que não permita-me levantar vôo como ave que tarda no ninho, apenas dois regalos estarão comigo: um volume editado pelo Jornal do Comércio dos “Três Mosqueteiros” de Dumas e um par de chinelinhas pretas de alcova.

*********************

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sobre a matéria Que país é esse ou como ficar deprimida com números e livros da professora Giovanna Dealtry

Precisamos parar de achar que assunto sério é assunto chato.
Entendo que o brasileiro passa por tantas dificuldades que fica mesmo fora de propósito, em um momento de relaxamento e diversão, falarmos de assuntos de natureza político-social-econômica. Mas precisamos nos lembrar, principalmente aqueles que pensam o país que, na vida, questões como política, sociedade e economia estarão sempre presentes e nos influenciando de maneira direta.
Aproveitando o incitamento da estimulante matéria da Giovanna, minhas palavras são um aumento na provocação, ou melhor, no desafio, para que todos dêem, no mínimo algumas linhas de seu parecer sobre o assunto abordado por ela. E, por que não, ousarmos mais longe? Os espaços estão abertos, há muitos lugares para colocarmos nossas opiniões. Convoco vocês, amigos acadêmicos, para dar voz às suas palavras.
A responsabilidade é nossa e mesmo se não for, devemos chamá-la para si. Somos privilegiados por podermos pensar nesse país; devemos aos que não podem ou não conseguem o auxílio e ou as mudanças. O tempo de espera das “políticas públicas” (palavra sem sentido) já passou. A política é nossa, a mudança começa conosco. Na sala de aula, no aprendizado constante, na luta do dia-a-dia que cada um tem para estabelecer suas próprias metas. Mas não podemos ser egoístas. Temos o ideário de tantos que já estudamos e conhecemos, experiências frutíferas de nossas vidas. Precisamos doar isso ao mundo. Não nos calemos quando o assunto necessita reflexão e o outro nos assusta com piadas para deixar-nos mudos.
Posso, nesse momento, estar sendo até utópico no meu discurso, mas que seja. Analise o que eu digo, refute minha ideologia, não me importo. Mostre-me outro caminho, junte-se comigo em prol do bem comum, mas faça. Não podemos ser mais apenas os senhores do nosso castelo. Eu me cansei, não quero ser senhor de nada. Desejo estar no meio do furacão e ver as ciências e as artes dançando um tango argentino.
O resto só não pode ser silêncio.

... Só para ficar registrado, não sei quantos livros eu já li esse ano, mas foram mais de dois, com certeza, e neste momento estou lendo Obras Completas de Luciano.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

MISSA DO GALO

“Costumes velhos. Às dez horas da noite
toda gente estava nos quartos;
às dez e meia a casa dormia.”


Machado de Assis


É mais uma noite de sábado. Me enfado. Tudo deve transcorrer como de costume, não sei. Porém ouvi dizer que lá fora muitos estarão juntos na igreja, logo depois da meia noite, na tal missa do galo. Ah! Havia me esquecido, é Natal. Mas é que hoje aqui tudo faz parecer mais um sábado como outro qualquer. Vejo no relógio da sala que já são oito horas. Um trepidar me assusta, ferindo o silêncio da noite. Me estremeço toda. É claro, o escrivão já está na sua hora. Vestiu-se no quarto exalando cheiros e vontades, beijou a esposa na testa e partiu marchando pelo assoalho, pisando seus passos resolutos e ritmados pelos corredores. Esse som que machuca a monótona harmonia da noite. Na sala da frente está o jovem primo. Despediu-se dele hoje mais apressado que de costume, talvez. O silêncio segue seus passos até a rua, ocupando novamente seu espaço. E eu também de novo me enfado. Sinto o jovem pesando sobre a poltrona, ele e seus Três Mosqueteiros de Dumas. A sogra do escrivão veio desejar boa noite e lhe pergunta o que fará com tanto tempo à espera da missa do galo. Procuro o relógio, já são dez horas! O jovem lê.
Agora é a mulher de roupão que vem interromper a leitura! O que será que ela quer? Então o jovem e a mulher ensaiam um estranho bailado de coreografias verdadeiramente insuspeitas para mim. Rascunham uma história que não estava prevista para hoje. Movimentos de avanços e recuos pela sala, pelos móveis, pela noite. Sinto uma zonzeira, me atordôo. A dança que não se completa, as línguas que não se falam. As palavras escritas em letras mínimas, o tamanho possível para a caligrafia da mulher... a miopia do jovem... a história que não pôde ser escrita, cheia de rasuras, papel amassado, jogado num canto do tempo. Será que um dia alguém escreverá? Talvez, em intermináveis escritas e rasuras e reescritas, no sempre das reticências... não sei. Durmo um longa noite sem palavras. Acordo às vezes com uma irremediável insônia afásica.
Mas há noites em que eu gostaria de demolir as paredes que ergueram-se dentro de mim a minha revelia. Sei que são elas que me sustentam, me estruturam, me organizam, me fazem ser o que sou. Mas por vezes me sinto tão dividida, esquadrinhada, esquartejada, sei lá. Tão inutilmente dividida. Mas e se um dia, mesmo que por um breve instante, desconstruisse minhas entranhas e levantasse véus levemente invisíveis, ou talvez divisórias falsamente espelhadas? Talvez o milagre, o encontro possível, por um breve momento, aconteceria. Então a revelação, epifania de alegria, consumiria o espaço, as almas em alforria.
A velha viraria menina, correndo serelepe para o quartinho das escravas. Se amontoava no chão frio junto a seus corpos quentes e escuros, com elas rindo e cantarolando, agora não mais à socapa, até que a grande escuridão enfim se achegasse. A mulher se assustaria admirada, extática como o próprio Jesus Cristo na cruz. É seu reflexo por trás do jovem o que ela agora enfim pode ver. Encantada e surpresa com tamanha beleza, seu corpo e rosto a emoldurarem-se na parede, se avizinhando à Cleópatra e às outras tantas mulheres, todas em festa, escandalosamente santas. E o jovem? Ah! O jovem... desceria do cavalo magro de D’Artagnan e, num vendaval de certezas e coragem, tomaria a mulher arrebatada nos braços, divina comunhão, tanta verdade. Também o jovem vizinho e sua sombra que pairavam pesadas, não mais espreitavam portas, ameaçando nossas vontades. Tramava agora um ardil e pulava a janela da mulher, em toda noite de Teatro. E, por fim, o escrivão, era tomado de uma inveja tão santa frente aquela visão de felicidade. Queria ele para si o que via, o paraíso muito antes da mordida, o encontro muito além do pecado. Tomava seu cavalo também, corria a galope para o Teatro e de lá nunca mais voltava. Jogava fora todas as chaves, deixava a porta da rua destrancada, aberta para todo o sempre... Salve! Amém. E livres, não mais acorrentadas, as escravas corriam pela noite da cidade e da corte adentro. Iriam ver, aprender e entender, em que dava afinal a tal Missa do Galo.
Mas para isso tudo eu precisava da mão de Deus, para me animar e me dotar de vontade, pois sou apenas essa casa, assobradada, abandonada e assombrada, pelas lembranças de tudo que vi, aqui onde fico, na Rua do Senado.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

OFICINA DE PRODUÇÃO DE TEXTOS LITERÁRIOS E ENSAÍSTICOS
PROFª MARTHA ALKIMIN
PUC- ESPECIALIZAÇÃO -2007
DE: Rita Alencar


DA RENÚNCIA À PAIXÃO

A escrita do poeta não nasce (apenas) da paixão pela literatura, a escrita do poeta antes precisa ser represada, decantada, purificada pelos imponderáveis que a vida o impõe. Muitas vezes o poeta, renunciando ao seu sacerdócio da escrita, nega-se poeta, exilando-se de si mesmo, de sua vocação mais genuína, de sua arte poética.

E nesta negação de si mesmo, nega o verbo vital, nega a seiva de seus caules, inventa caminhos para desvirtuar os leitos de seus rios de metáforas na ilusão arrasadora de que será possível estancá-los sobre doses cavalares de realidade. Seus afazeres inadiáveis socorrem o momento pré-onírico, chamando ao peso da hora a necessidade inadiável do compromisso.

Antes disseram os grandes Poetas, que uma vida teria que se passar para que tal verso viesse à luz, mas é premente a percepção, o olhar, a experiência dos sentidos, a evocação das entidades líricas.

Muitas das vezes o poeta, ao descobrir-se poeta, sofre a dor de sua sensibilidade, sabendo-se vencido por seu determinismo. Como amalgamar verso e chão?? Como compactar ficção e empreendedorismo?? Como viver de poesia afinal? Não há resposta, não há solução, há apenas “...este incontido/ impulso de asas/ sobre meus pés.”( Alencar e Silva . In- “Lunamarga”)

Existem aqueles que abandonam o sonho, porém, esgueiram-se em desculpas consigo mesmos, adiando o momento de prestar contas com o supremo tribunal de suas consciências literárias, buscando recompensas e potes de ouro em searas que só os devastam de insatisfações, mas é o inexorável, é o quê o cotidiano os impinge! E vão dormir sem poder olhar-se profundamente ao espelho, sob pena de se transformarem em estátuas de si mesmos.

Poeta sem sua Arte empobrece, murcha e seca, adormece o gérmem da poesia, petrifica o pensamento, congela a emoção danifica a posteridade ao não revelar seus cânticos e odes, seus hinos de louvor à vida, deixando o mundo à mercê do duro e frio aço pragmático da matéria.

Poeta que é Poeta renasce como Fênix, a ave mitológica que revive de suas próprias cinzas; mais bela e robusta. Assim tornará o Poeta, pronto a travar embates com o verbo em palcos iluminados, ao som de generosos aplausos e vivas!

“Quando meu nome sobre as estrelas for
Para sempre lembrado, por onde se estender
O Romano Império, o povo há de me ler,
E se a visão deste bardo estiver com a verdade,
Meu nome e minha fama viverão na eternidade.” (Ovídio. In-“ Metamorfoses”)
OFICINA DE PRODUÇÃO TEXTOS LITERÁRIOS E ENSAÍSTICOS
Prof.ª: Martha Alkimin


A LITERATURA DE AUTO-AJUDA E O BOOM BIOGRÁFICO

Livros. Falaremos aqui de dois fenômenos editoriais de vendas nas últimas décadas: a literatura de auto-ajuda e o boom biográfico. Entretanto, queremos questionar a premissa de que estamos realmente tratando de livros. Não na qualidade de objetos empíricos e dotados de concretude física, que certamente o são, mas da espécie de matéria espiritual que representam. Passaremos, então, a uma reflexão e uma investigação sobre as formas que se dão estes dois fenômenos sociológicos de consumo no âmbito da cultura de massa.

Fazendo uma apropriação de alguns conceitos da teoria sociológica dos sistemas de Niklas Luhmann que encontram ressonância significativa nos estudos de literatura, como propõe Heidrun Olinto, tentaremos pensar estes dois fenômenos fazendo uma articulação entre os sistemas simbólicos suscitados por estas literaturas e os demais atores sociais acionados neste sistema social em que a literatura circula.

A proposta inicial consiste em inventariar alguns títulos de livros mais recentes e outros conceitos-chaves com que estas literaturas trabalham, numa tentativa de relacionar os campos semânticos em que estes circulam com outros atores sociais empíricos por onde transitam ou são consumidas estas mercadorias, livros a priori. É visível que estamos trabalhando com a categoria do leitor-receptor-consumidor transformado em co-produtor de sentido de uma nova unidade fundante: o texto-contexto.

Uma primeira percepção é a da recorrência de títulos que ora remetem ao universo da ciência, da farmacologia ora ao da magia, do curandeirismo. Temos “Gotas de sabedoria”, “Pílulas de Felicidade”, “Diário de um Mago”, “O Alquimista”. Na estilística há uma recorrência a regras, métodos, leis, que sugerem outras aproximações, desta vez com fórmulas medicinais, receitas de poções, bulas de remédios e leis da física ou da química. Já no segmento das biografias, podemos refletir sobre o caráter evangelizante da literatura. Passando pelas histórias de vidas célebres, há também a história da vida da prostituta Bruna Surfistinha e as inúmeras histórias que contam a vida de santos ou homens “santos” (lamas, gurus, mestres espirituais, etc.). Alguns destes são de alguma forma incensados pela mídia a uma categoria sacralizada. O discurso é muitas vezes o catequético, como sugerem os títulos “Peça e Será Atendido”, “Você e Mais Capaz do Que Pensa” e “O poder do agora”, só para citar a última lista dos dez mais vendidos pelo jornal Folha de São Paulo. Na forma com que uma voz superior se dirige ao leitor, ouvimos o Deus-mercado falando com seu discípulo-consumidor. Em vários destes discursos a mesma doutrina de que o indivíduo pode resolver tudo por si mesmo, com diversas roupagens: “pensamento positivo”, “lei da atração”, “lenda pessoal”. A diversificação e a distinção enfática ds temáticas, servem apenas para organizar e classificar os consumidores, padronizando-os, segundo Adorno em seu ainda atualíssimo ensaio “Indústria Cultural”. Produtos de massa dirigidos a nichos de mercado que aparentemente conferem uma percepção de identidade diferenciada a cada segmento. Há os pseudo-filosóficos, os pseudo-místicos, os pseudo-esportistas, sendo que efetivamente a grande parte destes leitores-consumidores não possuem contato algum com nenhuma destas tradições, quer seja através de seus textos, comunidades ou práticas, mas simplesmente através da facilitação da mídia, que dilui e homogeiniza esses discursos. Efeito curioso é a produção de uma estranha sensação de pertencimento a uma coletividade virtual, esta comunidade de indivíduos unidos virtualmente pela leitura de best sellers, anônimos, se irmanando por esta estranha construção de uma identidade negativa _ leitores-de-auto-ajuda-e-de-biografias-de-celebridades anônimos.

Os templos de consumo vão das tradicionais livrarias, mas sobretudo e, curiosamente, em prateleiras-santuários dispostas em forma de altar, às mega-drogarias, mega-supermercados e lojas de conveniência AM/PM. Estes são os locais de distribuição desta espécie de livros. Talvez possamos refletir melhor sobre em que matéria espiritual se transformaram estes objetos empíricos, se pensarmos largamente na forma com que são consumidos. Curioso pensar que hoje, dificilmente podemos encontrar templos ou espaços sagrados abertos na madrugada, ao contrário do que observávamos em um passado não tão distante, quando o acesso ao curandeiro, ao feiticeiro, ao sacerdote, não conhecia horário comercial. Na madrugada contemporânea, quando os fantasmas dos loucos e dos insones tornam a assombrar, podemos ver este homem caminhando solitário, aprisionado em sua doutrina hiperindividualista. Seu slogan é o make yourself e seu destino, os self-services. Na próxima loja de conveniência ou mega-farmácia AM/PM, o homem pensa encontrar o bálsamo para sua alma.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ave Maria colhendo flores

Olá, meninas. Faz tempo não publico nada. Mas fiz um poema e gostaria de compartilhá-lo com vocês. Beijos, e espero que gostem.

Ave Maria colhendo flores

Certo dia, tive uma visão como quem desperta, finalmente para a vida.
Vi Maria colhendo flores na casa do vizinho.

O sol brilhava.
Mas cuidava para não murchar Maria.
E assim que chegava perto dela,
Refratava-se na sua pele branca e fria.

Toda a Natureza estava de acordo com aquela moça:
As nuvens se abriam quando chegavam perto dela,
As flores davam risinhos graciosos ao ver Maria passar,
A terra se tornava fofa com sua passagem
E seus pés quase não tocavam o chão.

Com seu toque tudo se iluminava;
À noite, quando apontava o céu,
Era certo de se ter estrelas.
Posto que, cada lugar em que seu dedinho mirava,
Um pontinho de luz aparecia.

Perto do mar, acalmava a ressaca
E fazia parar as tempestades.

E tudo isso fazia sem falar palavra.
Seus gestos e outros sentidos tinham tanta força
Que Deus sabia que, se Maria falasse,
Nós, pobres mortais, não agüentaríamos.

E foi assim, nesse dia,
Pouco antes de morrer, que Maria olhou para mim.
Ela amadureceu meu corpo de menino
Tornando-o forte e viril com seu olhar.
Mas deixou minha alma intacta,
Pois sabia que, para a criança,
O sonho nunca deve morrer.

Veio em minha direção sem desviar de mim em nada.
Sorriu e disse:
Oi poeta!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

ESPELHO DE ALICE

ESPELHO DE ALICE


Um dia tive um sonho
Cavalo solto, crinas ao vento
Luz de luar, lua de sangrar
A guiar-me trôpegos os pés
Bosques meus, tendas minhas

Escudo de Perseu oblíquo
Noite travestida de sol
Bocas em notas noturnas
Espelho invertido de Alice

Quem vem me buscar?
Seqüestrei-me do sonho
Crime inafiançável, hediondo
Forasteiro de além-Pátria

Busquei-me entre espelhos
Sem me encontrar em nenhum,
Estilhaços de mente-cuore
Cinzas de amor destratado

E já me tardo na dor
Vazio de bocas e vozes
Bar aberto - copos vazios
Peitos outrora plenos e meus
Hoje negro e frio acepipe.

sábado, 18 de agosto de 2007

Por um credo literário possível

Creio em um narrador não onisciente, nem tão poderoso assim. Padeço de uma fé comovente nas sagradas escrituras. Por isso rezo toda noite escura da alma pelo encontro com esse narrador que crê na literatura como desvelamento de si mesmo. Um narrador que se perturbe com sua própria criação e acolha a surpresa na sua escritura, dialogue com ela e vivencie na carne de suas palavras o mistério do encontro com sua sombra desconhecida. Que a palavra urdida nesse doloroso ofício-sacrifício seja salvadora, transformadora... revelação. E que ao final de sua criação seu criador se perceba cria de sua própria criatura.

Creio nessa narração que se constrói no momento exato da escrita, pré-lógica, corajosa, contingente. Não que ela prescinda da construção ou se entregue a um automatismo romântico mediúnico, mas que se confronte com sua própria face. Que não seja pecado negar a si mesma mais que três vezes. E que ela deságüe em oceanos desconhecidos, praias desertas, recantos paradisíacos ou, quem sabe, continentes inexplorados. Sim, que a literatura seja a herdeira dessa nossa vocação lusa de navegadores a dedicar suas histórias pessoais a descoberta de terras além mar. Que essa viagem se dobre para dentro e para fora, simultaneamente, ao encontro de símbolos, tradições, culturas, misturas, identidades híbridas e em processo, tudo isso que temos em nós mesmos.

Creio na comunhão com esse narrador, que se depara consigo mesmo, que é leitor de si, durante o processo da escrita. Esse, que não teme contradições, incoerências e desconstruções ao longo de sua narrativa e perpassando seu discurso. Que grata surpresa seria forjar do barro uma personagem e, mais adiante, poder acolher algum ensinamento seu. E o encontro com sua multiplicidade de faces, diante da morte desse seu velho conhecido sujeito, possa alimentar sua boca que fala a língua da alteridade. Que esta fala cresça então mais forte e robusta, para que o outro possa ser sentido como mesmo, carne de sua própria carne.

Creio na escritura como salvação, ritualística e purgadora de todos os demônios do eu.

PERIGOSO MORIBUNDO

ao meu amigo Jorge Albuquerque

Meu amigo, meu amigo, meu amigo, meu amigo...
Já não sei se somos tu e eu loucos
ou se prisioneiros em um campo nazista.
Ou serei eu então criminisa e bandida,
pestilenta, leprosa, perigosa... banida.

Meu crime é, isso sim, essa vil sanidade
de não irromper qual um desvairado,
drogado, pirado, contraventor, infrator,
me insurgir contra a lei que regula a tua morte
naquele lugar que sequer tem um nome
e ao qual eles chamam
economica-mente:
C-T-I.

A sigla repele o afago em teu rosto.
O gesto algemado, assassino perigoso.
A sigla esfria o calor em minhas mãos.
O corpo gelado na câmara de gás.
A sigla proíbe a presença humana.
O corretivo do louco, a camisa de força.
A sigla aprisiona o horário de visita.
O ir e vir do criminoso, impedido.


Queria saber de um disfarce, um ardil,
para ir até ti e quieta,
ali.
Iria buscar a ponta do fio
que mantém você indefeso e preso
às máquinas da tortura infernal,
máquinas da solidão radical.
Que sina impingida aos homens
homens chamados moribundos,
palavra, tabu, feito um crime.
Seguiria a percorrer este fio a cada palmo
em argumentações necessariamente racionalíssimas.
E com os doutores da vida e da morte
desembaraçar-te-ia das teias que te enredam
nos discursos poderosos da ciência e da saúde
que ordenam e coordenam
a tua morte e também
a tua vida.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Prazer, Camila... (um exercício de adaptação)

Oi pessoal!Na falta de tempo pra procurar contos conhecidos que tenham adaptações interessantes, coloco aqui um continho meu que mais tarde virou um curta-metragem. o link para assistir o curta é http://www.youtube.com/watch?v=3yxvmIhtxPI e o conto vocês conferem abaixo. Quero ler as críticas e comentário depois, hein!Bjs!


PRAZER, CAMILA...

Capítulos 3 e 5. Exercícios da página 73 a 78. Cortar cabelo, marcar dentista, desmarcar aula de espanhol… Matemática Financeira – Capítulo 3: Aplicações…Não terminei os relatórios da primeira quinzena! Amanhã é dia 17! Estudo até uma hora no máximo, durmo até as seis, não, cinco e meia. Chego as sete no trabalho e tenho duas horas e meia pra terminar os relatórios. Acho que dá. Página 58. Aplicações dos…Duas, três, quatro, cinco e meia. Quatro horas e meia de sono. Vou ficar cheia de olheira! Tudo bem, tudo bem. Mais duas semanas as provas acabaram e férias da faculdade… Isso se eu não ficar de prova final em Estatísitica. Preciso tirar oito. Oito! Página 58, página 58! Concentra, Camila, concentra. Não consegui estudar uma linha ainda, meu Deus! Vou deixar o cabelo pra semana que vem. Não posso perder tempo com cabelo essa semana…. Mas tá tão depontado… Peço pra Lia cortar as pontinhas pra mim. Bom que eu não gasto dinheiro… Tem as prestações do celular e o vestido pro casamento da Ana e o maldito biquini bordado. Mas o João gostou… Grande coisa o João. Agora são seis meses pagando o biquini e nem tempo de ir a praia tem. Tempo, tempo. Eu tenho é que estudar…Que sono… Que merda estudar a noite. Que merda trabalhar. Ser promovida sem ganhar aumento. E trabalhando mais! Só comigo acontece essas coisas. Pára de reclamar, Camila. Estuda. Daqui a pouco é uma da manhã. Vamos lá. São só cinco páginas e uns exercícios bobos. Depois tomo um leite quente e durmo. Até as cinco e meia. Página 58. Aplicações dos Cálculos de Matriz no estudo das variações do Câmbio. Venci a primeira linha! Venci a primeira linha! Primeiro caso…Tem alguém batendo na porta… Não acredito. Alguém batendo na porta.
- Que é?
“Desisto.”
- Cacau, posso entrar?
“Faço cola das fórmulas …”
- Já entrou, né, pai
“…e seja o que Deus quiser.”
- Queria te apresentar uma pessoa.
“Se eu conseguir chegar mais cedo…”
- Hmmm.
- É a Rosana.
“Só faltava essa, vai começar a me apresentar as piranhas agora…”
- Rô, essa é a Cacau.
“Mas seu eu chegar mais cedo….”
- Sua irmã.
“…minha irmã!?”
- Oi.
- Ela tem a sua idade, não é legal?
“Legal?”
- E tem um filhinho de cinco aninhos! Seu sobrinho!
“Filhinho, cinco aninhos, sobrinho, meu? Minha idade? Minha irmã? 20, 19, 18, 17, 16. Dezesseis. Grávida com dezesseis. Minha irmã! Minha irmã!? Como assim? De onde saiu essa maluca? É todo mundo louco nessa casa! O que que eu tô fazendo aqui?”
- Cacau?
“Respira…Respira. Levantando a cabeça, devagar…”
- Tá surda, menina?
- Não, pai.
“Não se parece com ele… Isso é bom ou ruim?”
- Prazer. Meu nome é Camila.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Carlos, um não-qualquer

No meio do caminho tu estavas, Drummond.
Então, encontrei-me.
A Quadrilha começou a fazer sentido.
Descobri que não era João, nem Maria;
Parecia-me com J. Pinto Fernandes,
Mas também não era ele.

Peguei com as mãos todo o sentimento do mundo
Colocando-o em minhas costas e,
Passeando pelas ruas do Rio de Janeiro,
Como um mineiro perdido,
Orando em meio à multidão dessa cidade,
Chorei e sorri muitas vezes em tua companhia.

Não, nunca fui mineiro, mas pareço-me assim por tua causa,
Meu amigo.
Ajudaste, a mim e a muitos, com tuas palavras e teu espírito circunspecto.
Até sexo aprendi no teu jeito de fazer poesia.
Aprender sexo com um sexagenário! — Foste meu avô poeta que nunca tive.

Numa manhã de setembro, do dia 19,
Ela me beijou o membro,
Era o meu aniversário.

Também já fui gauche.
Porém, confiante do coração,
Ensinaste-me a ser vivo e como isso dói,
E como a poesia é sofrida e como vicia essa cachaça.

Nunca fui à Itabira, mas é como se tivesse nascido lá.
Talvez... um dia nos encontraremos naquelas ruas.
Porque, aqui no Rio, não raro vou até Copacabana:
Para pedir conselho ou dar-te um beijo
No silêncio das altas horas marítimas.

domingo, 22 de julho de 2007

CARLITOS

Varre o vento violento
Varandas vazias de silêncio
Na tarde sacrificada ao momento.
Partes correndo aos meus olhos
Tão incrédulos
Quanto adolescentes
(como assim?)
Abandonas o teu rebanho ao luar?
Devastados e trôpegos e ébrios
Entreolham-se todos
"E agora José?"
Mas agorinha mesmo eu lia com ele...

Como te perdoar se me deixas órfão
Eu que como tu
"Tenho apenas duas mãos"
E tão vivo o desejo de saber-te?
E me deixo dormir ao amanhecer
"Na noite mais noite que a noite"
Terei que decifrar-me sozinho?
Estou preso a ti neste cantar
Infindável, presos a vida e a este
"Tempo de homens partidos."
Vestidos de luto
Guarda-roupas
Folhas secas e musgos
Grito surdo.

A voz, a flor, o sonho
Teus e meus
Irrompem no desassossego quieto
Imóvel, esfíngico,torto e belo
Sob o sol outonal e último
Sob minha pena sedenta
Breve a pelejar com palavras,
Razões e equívocos.
Tolo que sou não percebo
Quão pobre estou a
Debater-me entre versos
Na dolorosa e necessária
"Procura da poesia"...
Não aquela a que louros
Busquem-me o orgulho,
Não, não o lógico,
Não o indizível
Mas, se de minha pena
Brotasse um, apenas um,
Um botão apenas de poesia
Meus olhos, então, mar seriam
E nele pousaria,entre oferendas
De nuvens e valsas,
Minhas mãos
Limpas
Nuas.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Memória de Miss Panasonic

A memória de Miss Panasonic

- Meu pai me deu dois conselhos sobre a vida sexual. O primeiro era dar uma mijada profilática depois de ter relação. O outro conselho foi: - Nunca escreva a uma mulher.

Este segundo conselho viera de um colega de trabalho quando o pai morava na Colômbia. Tempos de juventude. Deve ter sido de muita valia para ambos, pai e filho. Colombianos sabem das coisas... Colombianas serão perigosas? Mulheres são perigosas! E ingleses na Colômbia podem até parecer incautos, mas nem por isso menos perigosos.

Nem recado na secretária eletrônica ele deixava. Que preferia não deixar...

Não registrar recado na memória de uma secretária eletrônica era dose. E o que tinha Miss Panasonic a ver com aquilo? Ah, essa não podia passar em branco.

Foi o start para ela pensar na revanche. Começou como uma raivinha miúda, uma doce raivinha. (Uma vingancinha podia cair bem.)

Primeiro foi lá com a máquina de retrato da amiga. Fez que ele mesmo fotografasse a orquídea gigante, mandou-lhe a foto pelo computador, linda foto, hein? Depois comprou uma máquina, era aniversário, gastou os dólares dobrados com cuidado dentro da frasqueira que quase não usava mais. Só podia tirar 4 fotos por vez: a máquina não tinha cartão de memória. O carregador de pilhas ficava pra comprar na próxima.

Durante a semana preparava o carregador. Na bolsa azul, junto com os produtos de maquiagem, punha a máquina no fundo. Pensar nos 4 retratos que ia tirar a deixava excitada.

Começou tímida, com cuidados e aflições. Escondia a máquina logo (e se ele visse?) Aos poucos foi perdendo o medo. Saboreava a hora em que ele estaria no computador, no telefone, no banheiro - para fotografar. Do chão ao teto, de 4 em 4, fotografou tudo dentro da casa: cozinha, banheiro, de dia, de noite, sala, pôr-do-sol, externas, internas (uma que tinha gostado foi a da lua, no teto do banheiro à noite). Depois sempre escondia a câmera.

A hora melhor era quando ele tomava banho, aí tinha um tempo previsto de demora. Ia pro escritório e fotografava t.u.d.o: retratos das filhas, o computador, a cadeira, até o telefone. Curtiu muito quando fotografou aquele retratinho dele em bebê, uns 2 anos, sentado na areia de Copacabana, cabelo encaracolado, pachorrento. Depois revelou a foto, pôs ela em sua mesa de cabeceira, num mini-porta-retrato antiguinho para retratos ovais. Parecia encomendado! Que gracinha. (Escondia o retrato quando ele vinha em sua casa.)

Fotografou a cama de todos os ângulos, enquanto ele fazia a laranjada de manhã. Que glória! A cama desfeita, a cama feita, de lado, de cima, do outro lado. Roupas pelo chão, sapatos jogados.

Naquela noite tinham bebido demais. Ela acordou para ir ao banheiro, quando voltou rolou, o sono não veio. Pegou a máquina e tirou 4 retratos dele dormindo.

Quando pôs as fotos na tela do computador em casa foi que viu que ele estava nu. Barriga pra cima, em pelo, sobre a cama, de pernas cruzadas. Verdade, foi sem querer.

Guardou as fotos no Picasa, não na pasta Casa, onde estavam as dezenas das outras, mas na pasta Escondidos.

É na pasta Escondidos que ficou a memória da raiva, registrada e classificada.

Revelada em foto, reciclada na vida.




Simone Isnard

quarta-feira, 27 de junho de 2007

SALVAR-SE NARRANDO

Karen Cordeiro

Queremos aqui sondar a economia dos afetos que se apreende das relações entre o eu narrador que conduz a história e os “outros” personagens do conto Feliz Aniversário, de Clarice Lispector. O quanto este eu narrador conhece das razões e sentimentos dos personagens apresentados? Em que lugar (social, espacial e existencial) ele se coloca dentro do conto? Quais são as saídas existenciais que ele irá apresentar para eles? E em que medida ele se emociona e vivencia a história? Sempre trabalharemos com a idéia de um sujeito narrador que não se confunde com o eu autor, mas é antes e também mais um personagem. Seguiremos também com a suposição da existência de um inconsciente do texto, que poderá ser pecebido na desconstrução dos seus discursos.

Desde o início do conto podemos perceber que o eu narrador já se encontra espacialmente na cena da narrativa_“o marido não veio”_ de certa forma se incluindo na festa, se afirmando como mais um personagem. Ele não nega sua inscrição dentro da composição existencial e social que é apresentada como família. Mas percebemos também que somente até certo momento no conto ele é onisciente, conhecendo as razões e sentimentos de quase todos os personagens que se inscrevem dentro destes laços de família, como veremos adiante. Porém, em determinado momento, justamente através dos personagens que lhe parecem de algum modo enigmáticos e insondáveis, aqueles que não estão aparentemente atados pelos laços de família, o narrador viverá uma revelação, terá um momento de epifania.

Sobre as razões dos personagens, este eu narrador onisciente parece conhecer todas, não reservando muito espaço para movimentos e escolhas existenciais. A maioria não recebe sequer um nome, apenas suas posições referenciais dentro da estrutura familiar através de seus laços de parentesco. São sempre seres “em relação a outros”, jamais eles mesmos. Sobre um dos seis filhos da aniversariante se dirá que mora em Olaria, que mandara a mulher. Quase sem possibilidade de nomeação, ele é “o marido” da nora que mora em Olaria e que “não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos”. Sem nome, sem presença física, ele é apresentado como um covarde, que submete seus filhos e esposa, todavia sem romper com a estrutura familiar (“mas mandara a mulher para que nem todos os laços fossem cortados”). Não merece nenhum afeto por parte do eu narrador, que observa as reações de sua esposa: “mostrar que não precisava de nenhum deles”, “com cara fechada”, “emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posiçaõ de ultrajada”. A nora de Olaria e os filhos do casal surgem com o interdito de não mostrar suas identidades, vistas e sentidas como inadequações. Ela tem um “drapeado que disfarça a barriga sem cinta”, não podendo exibir talvez uma liberdade corporal. As duas meninas, “já de peito nascendo”, não podem vivenciar sua sexulidade, sendo infantilizadas por babados. E o filho menino deve assumir uma postura madura demais para sua tenra idade, sentindo o peso de vestes adultas, acovardado com essa missão imposta pelo pai autoritário que não veio.

Outros membros da família vão sendo apresentados pelo eu narrador sempre da mesma forma: quase sempre sem nomes, incomodados, angustiados, oprimidos, não podendo vivenciar suas identidades e com falas que não parecem autênticas. Ficamos curiosos durante grande parte da narrativa por que motivo a estes personagens não é dada a autonomia para recusar a participação neste teatro que é a festa de aniversário da “velha”, da “mãe”, que também só pode ser nomeada pela vizinha. Observamos que todos estão mobilizados em seus papéis dentro desta encenação de família por uma série de adereços, ornamentos e objetos que, envolvendo este corpo social, aparecem como metáforas dos laços opressores de família: “vestido drapeado”, “babados”, “gravata”, “presilha em torno do pescoço”.

O espaço físico também parece dotado de certa substância viva, numa espécie de delírio alucinatório do eu narrador, onde observamos paredes se apertarem, “cadeiras unidas em fila” aprisionando alguns personagem dentro da encenação, “balões sugados pelo teto”, negando espaço ao escape, “encostara as cadeiras na parede”. Todo o espaço físico cerca a mobilidade existencial dos personagens, que não conseguem desatar-se destes laços familiares demasiadamente apertados. O espaço cênico não apresenta assim nenhuma possibilidade de liberdade a seus atores.

Interessante perceber como a dona da casa prepara este espaço da festa como o cenário de um velório. Cabe a esta filha mais velha, enquanto mulher, a preparação deste ritual religioso. Tudo é preparado de forma laboriosa, pois depois do “expediente”, de “todo seu trabalho”, jaz solitário e silencioso o corpo do defunto, que “desde às duas horas estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia”, já apresentando sinais de rigidez cadavérica, “tesa na sala silenciosa”, a espera dos convidados para esta feliz festa de aniversário-velório. A filha não se esquece de borrifar “com um pouco de água de colônia” a velha, para disfarçar o cheiro da decomposição do seu corpo, “seu cheiro de guardado”. Enquanto isso a defunta-aniversariante, na sua “angústia muda” de se ver velada viva, observa o “vôo de uma mosca em torno do bolo”, seu corpo “branco, imaculado” deitado sobre a mesa-caixão.

O ritual de velório-morte é, contudo, subitamente, transmutado numa espécie de sacramento eucarístico. A velha assassina seu próprio corpo, “deu a talhada com punho de assassina”, o corpo desse Cristo cruxificado pela sua própria família, libertando finalmente seu espírito. A libertação é imediatamente sentida pela nora de Ipanema, que segreda “escandalizada” ou agradavelmente surpeendida”, “um pouco horrorizada”, dizendo: “Que força!” E cada facada no corpo-bolo é a afirmação da vida. Seu corpo “caía em ruínas” e era comido por todos “a cada pazinha”. Mas a aniversariante devorava “seu último bocado”, livre e viva. Eis o mistério da comunhão. O eu narrador comunga agora de todos os sentimentos e pensamentos da velha. Revela, então, que ela desprezava sua família, “oh, o desprezo pela vida que falhava, Como?! Como tendo sido tão forte”. Ela cospe no chão, num gesto de desprezo aos fracos e de elogio a vida, ao amor e a alegria.

Entretanto o eu narrador, em vários momentos, parece desconhecer os sentimentos, as razões e sentimentos da aniversariante. Ela aparece como enigma, ausente, “ninguém poderia adivinhar o que ela pensava”, “a aniversariante era apenas o que parecia ser”, pois “parecia oca” e seus “músculos do rosto não a representam mais”. Neste momento observamos o tabu da velhice, quando os personagens se revelam amedrontados com a possibilidade da morte corporificada na idade avançada da aniversariante.

Mas é exatamente neste momento em que o eu narrador se vê igualmente angustiado pela presença da morte, que ele pede ajuda: E Cordélia? E não a acha, à princípio, porque ela efetivamente não se inscreve neste espaço existencial. Cordélia está “ausente”, “sorrindo”, “suportando sozinha o seu segredo”. Está livre Cordélia, num universo paralelo e “desperta esbaforida”, apenas tangenciando este espaço-prisão por um breve “relance”. Cordélia pertence ao mundo dos vivos. É a “infeliz nora que sem remédio, amava talvez pela última vez”. E neste instante vem a revelação epifânica, “porque a verdade era um relance”, quando a velha com “seu punho mudo e severo sobre a mesa dizia”: “É preciso que se saiba que a vida é curta. Que a vida é curta. Que a vida é curta.”

Enfim, a velha se transfigurara num oráculo para o eu narrador e para Cordélia. “Seu mistério era a morte”. Decifra-me ou te devoro. E Cordélia sobrevivera. Decifrara na “velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante”, abandonando seu marido para viver seu amor, rompendo com violência este laço familiar, “enfim, agarrar a sua verdadeira chance de viver”.

ANGÉLICA - cresceu como peixe, vingou feito gente

Simone Isnard
Angélica Ramos Filha (n. em Jaboatão, PE, em 1956 - falecida em Niterói, RJ, em 2030)

Foi na Baía da Traição, litoral da Paraíba, que cresceu Angélica. A reserva indígena ficava na beira do rio, e meio km abaixo ia dar no mar. Do rio, tanto quanto da terra, vinha o alimento. Por isso na feira ninguém enganava Angélica. Dizer que estava fresco o peixe que não estava, Angélica sabia: tinha crescido como peixe.

Na reserva dos índios podia morar branco, mulato e até preto – desde que casasse com índio. A avó índia, a quem chamava “mãe”, a criou. Tinha pulso firme sobre todas as crianças. Sobre os filhos adultos, oito, que criou sozinha, é que não tinha mais força. Todos brigaram com ela um dia. E saíram pelo mundo a fazer besteira. De alguns não ouviu mais falar. Outros voltaram, arrependidos, para pedir o colo certo, saborear a comida, o conselho de pouca palavra. Um porto seguro na vida.
Besteira de filho homem era desgraça de duas caras: uma era a bebida; a outra bacurinho. Só de filho dos filhos homens criou meia dúzia. As moças embarrigavam e deixavam o embrulho na porta de manhã cedo, pra ela criar, que os criava bem.
Um que um dia voltou foi a mãe de Angélica. Com 14 anos fugiu da reserva pra ganhar o mundo. Ganhou ao invés Angélica, que depositou nos braços da mãe. Partiu em seguida pra outra. Que deu em outro bebê, o Manuel, bem escurinho esse, menos de quatro anos depois. Sumiu no mundo e ninguém mais deitou os olhos sobre ela. A avó soube no coração que só veria a filha lá no fim dos tempos. Deixou pra lá.
Já Angélica, quando tinha 20 anos, correu atrás de saber. Tinha informação de que a mãe tinha ido pra Natal e trabalhado lá, cuidou de apurar. Queria tanto notícias dela. Com o tempo aceitou que morrera.

ANGÉLICA RAMOS FILHA – este é o nome no registro de nascimento. Nascida em Jaboatão, cercanias de Recife, em 25 de outubro de 1956. Já Manuel, o irmão mais novo, cresceu sem registro, que a avó fez depois.
Aos 14 anos Angélica saiu da reserva e foi trabalhar numa casa de família no litoral. O horror da exploração doméstica e a marca de nascer mulher e pobre foram lições de classe que aprendeu na Paraíba.
O Rio de Janeiro cresceu no sonho, que realizou em 1975, quando desembarcou em Copacabana. Era semi-analfabeta, mas a oferta de trabalho no Sul e a rede de domésticas e de porteiros garantia o emprego certo.
Enorme o orgulho que sentiu quando tirou a carteira profissional, assinada não no primeiro emprego, como cozinheira, mas no segundo, quando passou a babá. A patroa acabara de ganhar o segundo bebê. Viu que havia escola noturna na Praça do Lido, pediu folga depois de 19 horas para freqüentar o primeiro grau noturno. Foi à noite também que aprendeu corte e costura no Sesc de Copacabana.
Nos anos 80 Angélica divertiu-se muito nos bailes e forrós que aconteciam no subúrbio e também em Copacabana (na Princesa Isabel tinha a boate Jaboatão, que fazia a festa dos porteiros e domésticas). Havia o turismo religioso também, e Angélica foi a Aparecida em excursão algumas vezes. Na bagagem de volta trouxe imagens de gesso de Nossa Senhora, que presenteou com alegria.
Primeiro alugou um quarto para morar nos fins de semana. O sonho da casa própria realizou quando pôde comprar em São Gonçalo dois terrenos perto do valão (não podia adivinhar que o valão enchia quando a chuva não dava vazão à água). Construiu a primeira para si. A segunda, mais tarde, seria para o irmão Manuel. Os ralos eram estrategicamente tapados quando chovia, para não inundar a casa. Mas inundou, claro, muitas vezes.
Quando conheceu o Jurandir, não sabia quão mulherengo ele era e quem eram as amigas com quem trocava confidências de intimidades. Jurandir, que colecionava canários, que fazia churrasco nos fins de semana, que biritava sempre um pouco além, dormiu com todas as suas amigas. Foi tudo tão rápido que ela mesma não se deu conta. Foram-se o Jurandir e todas as amigas.
Perdeu também dois filhos, o primeiro no parto por imperícia médica do INSS de São Gonçalo. O segundo, depois de uma reconciliação temporária, por causa da sífilis, adquirida de Jurandir, que infetou o bebê.
Perdeu tudo Angélica. Sobraram-lhe as duas casas próprias. Mais o emprego de doméstica - e a fibra, feita na vida.
Nunca mais a abandonou a idéia de adotar uma criança. Tinha até tentado aquela menina, foi mal na hora. Sem marido sabia que ia dar problema.
Não é que de repente essa Helena queria dar-lhe o bebê? Logo agora que tinha em casa os dois sobrinhos adolescentes, filhos do irmão Manuel, morando com ela a ocupá-la e preocupá-la? O juiz dissera que a mãe teria de dar o bebê de papel passado. Helena acedeu, queria se livrar da criança a todo custo. Que nunca mais teria direitos sobre a criança. Que poderia não vê-la nunca mais. Nada importava. Estava passando fome, e por um tipo de distúrbio alimentar qualquer durante a gravidez alimentava-se de pão e banana. Regados a xícaras de café. Angélica dava-lhe dinheiro e comida e esteve presente na hora do parto. Os papéis da adoção estavam todos em ordem.

MANUELA RAMOS nasceu em São Gonçalo no dia 10 de janeiro de 1999. No registro de nascimento consta que Angélica Ramos Filha é a mãe e que o pai chama-se Manuel Ramos.
Angélica a criou com o esforço do seu trabalho de doméstica no Rio e com a ajuda da comunidade das Testemunhas de Jeová de São Gonçalo, a que pertencia. Cresceu saudável e forte. Angélica nunca impediu e antes incentivou Helena a ter contato com Manuela. Helena, amiga assídua conquistada a palmo. Manuela sempre mostrou deferência especial com Helena. Angélica não obstou. Na hora certa revelaria que era adotada. Sem dizer quem era a mãe biológica, o Serviço Social a tinha avisado, que não era preciso. O juiz disse que nunca tinha visto aquilo, deixar mãe biológica visitar...
Desde cedo Manuela demonstrou sagacidade e inteligência, além de independência. Era também muito vaidosa, o que fazia Angélica sentir-se esquisita, sem saber como lidar com aquilo. Gostava de cantar, pegava num “microfone”, penteava os longos cabelos muitas vezes ao dia. Só tomava banho frio. Nos fins de semana acompanhava Angélica nas jornadas de evangelização. Chegou a converter muitos com palavras de sabedoria e convicção no amor de Jeová.
Além dos dois que já tinha, Manuel teve mais cinco filhos com outras companheiras. O primeiro filho de Manuel, o Nego, com 15 anos foi pai de um menino, que não reconheceu. A mãe e a criança moram perto de Angélica. Manuel paga as despesas. Manuela ama Neguinho.
Na escola de 1o grau, sob a orientação da comunidade religiosa a que Angélica pertencia, Manuela teve desempenho muito acima da média. Quando fez 14 anos, começou a dizer em alto e bom som que um dia ia ser presidente da República. E quando entrou para o 2o. grau afirmou muitas vezes que ia estudar na Faculdade de Comunicação na UFF, onde estuda Adriana, uma filha do Manuel.

Angélica - aquela que cresceu como peixe na Paraíba e vingou feito gente no Rio de Janeiro - estava dentro da van que capotou por causa da neblina na Ponte Rio-Niterói depois de levar uma fechada na manhã de anteontem, 8 de julho de 2030, matando todos os ocupantes.
A filha Manuela Ramos (31) junto com seus 7 meio-irmãos, mais o irmão Manuel Ramos (70), durante as exéquias, ressaltaram o sentido do valor do trabalho e do cumprimento do dever, de que a vida de Angélica foi exemplo.

AUGUSTO NUNES FILHO PARA O Jornal do Brasil de 10 de julho de 2030

Adendos:

1. O relato acima foi entregue a este jornalista após o enterro, por Simone Isnard (85), para quem Angélica trabalhou como doméstica durante 35 anos. Os dois últimos parágrafos foram acrescentados por mim.

2. Manuela Ramos é governadora eleita do Estado do Rio de Janeiro. Tendo obtido votação maciça das comunidades religiosas das Testemunhas de Jeová, a Governadora Manuela neste momento está em vias de conseguir o apoio da fortíssima bancada evangélica do Estado do Rio de Janeiro. Foi o candidato que teve o maior número de votos de mulheres por amostragem quando da última eleição para deputado em 2028.

3. Correm pelos bastidores notícias de que ACMBisneto, o mais novo senador da República, já sonda a Governadora Manuela para presidente da República na eleição de 2034.

4. Maria do Brasil Ramos, filha de Manuela, logo completará 14 anos. Companheira inseparável da mãe, mostra a mesma desenvoltura no trato com o público que sua mãe, de quem herdou o carisma e a simpatia. Canta e toca guitarra, agradando multidões de adolescentes. Já avisou que tem ambições políticas, de que não abrirá mão quando a hora chegar.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

410 - SAENS PEÑA

Em 1999, um morador de rua, chamado Fumaça, encontrou uma mochila num lixão das redondezas do Rio Comprido, na cidade do Rio de Janeiro. Como Fumaça apesar de mendigo sabia ler, entregou o seguinte material à 19ª delegacia de polícia civil do bairro da Tijuca (RJ). Uma mochila contendo um livro (Mensagem, de Fernando Pessoa); material de papelaria, lápis, caneta, borracha etc; um caderno contendo um depoimento de um jovem chamado Leandro Henriques Franco que ficamos sabendo ter esse nome, pois constava também na mochila uma carteira, sem dinheiro, mas com alguns documentos de identificação.
Meu nome é Sr. Robson de Oliveira Neves, inspetor responsável pela investigação do desaparecimento do jovem Leandro, dado como desaparecido no dia 06 de janeiro do mesmo ano em que foi escrito o relato abaixo.
Estou no caso há um ano, mas como única pista que tenho são as linhas que se seguem, resolvi apelar à imprensa e, agora, divido essa história com a sociedade carioca e espero que, com isso, consiga alguma informação que possa ajudar no caso, trazendo um pouco de conforto e paz ao senhor Jucelino e a dona Palmira, incansáveis na procura pelo filho.

“Eram duas e meia da manhã, pelo que me lembre, quando eu atravessei a Rua Paissandu em direção ao Aterro para pegar esse ônibus. Avistei-o, lá longe, aqueles grandes faróis amarelos e olhei bem o letreiro luminoso que dizia: 410 - SAENS PEÑA. Um motorista negro e mal educado ainda andou uns vinte metros à frente de onde eu estava até parar. Entrei no ônibus dando o dinheiro ao trocador como de costume, passei a roleta e fui me sentar. Apanhei um exemplar de Pessoa que estava lendo recentemente, pois a viagem, apesar de curta, proporcionava uma leitura de páginas agradáveis. Até esse momento parecia estar tudo normal. Como a hora já era tardia, cerca de cinco pessoas encontravam-se nesse ônibus. O primeiro sinal de que algo sinistro aconteceu foi quando numa freada brusca me desliguei completamente da leitura para posar os olhos no motorista. Eu poderia ter me salvado nesse momento se tivesse acreditado no que minha visão demonstrava. Notei a fisionomia furiosa do homem ao volante. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi que o homem era branco de cabelos castanhos encrespados e possuía brilhantes olhos azuis. Uma confusão fracionária de pensamentos passou por minha cabeça:
— Mas o motorista não era negro? — pensei eu, comigo.
Era evidente que minha visão tinha se enganado há alguns minutos atrás... mas não. Resolvi olhar pela janela lateral e ainda pude ver o menino com sua bicicleta contornando a praça da cruz vermelha — esse fora um motivo importante para minha desgraça. Identifiquei imediatamente onde estávamos até então, o que me pareceu absolutamente normal. Como do meu assento possibilitava-me uma visão panorâmica tanto da lateral quanto da frontal, decidi acompanhar com os olhos a direção a seguir.
Estávamos, como todos que conhecem o Rio podem constatar, quase no final da Mem de Sá, na parte com pouca presença de luminárias, o que dava um aspecto medonho àquele lugar. Coisas vieram-me à cabeça que preferi não pensar e aprofundei-me na leitura novamente. Alguns minutos depois, não sei precisar quanto, a campainha tocou e desceram três rapazes. Como eu prestava atenção à passagem daquelas pessoas não percebera ainda onde estava, quando o último deles cruzava minha vista, revelou um motorista loiro de bigodes longos olhando para mim. Nenhum sinal de desespero se apossou do meu corpo, porque novamente minha razão tentava encontrar explicação para tal fato. Olhei pela janela lateral e, dessa vez, não reconheci onde estava, mas, naturalmente por estar envolvido na leitura, não encontrei aquele pedaço de lugar no meu caminho mental (que o tenho por se tratar do caminho da minha casa) e que faço há dois anos. Tudo estava aparentemente normal só que, agora, guardo o livro dentro da mochila, começo a anotar tudo e decido acompanhar a trajetória até o fim da viagem. Os últimos dois passageiros saltam no ponto seguinte, ficando apenas eu como passageiro dentro do ônibus, junto com o trocador e o motorista, que continuava sendo o loiro.
Olhando pelo pára-brisa do veículo, dividia a mesma visão do motorista, que seguia por aquela rua cada vez mais escura e que agora me dava motivos para achar que peguei o ônibus errado. Perguntei ao motorista:
— Esse ônibus vai pra Tijuca? — Ele respondeu com um aceno de cabeça que fiquei na dúvida se era de afirmação.
Nesse momento a campainha toca — mas não havia mais nenhum passageiro! — penso eu.
Um homem, negro, bem corpulento passa em direção à porta de saída. Ele permanece nas escadas até que o carro não mais se movimente. Antes de sair, olha para mim e, com um sorriso que arrepia todo o meu corpo, deixa o ônibus. Começo a ficar assustado, o lugar não parece com nada que eu conheça. Nenhum caminho em todo o Rio de janeiro se parece com esse lugar, e eu conheço o Rio! Pergunto novamente ao motorista se esse é realmente o ônibus correto. Dessa vez ele nada responde. Tocam a campainha novamente e agora um frio gelado toma conta do meu corpo. É uma senhora estranha que passa desta vez. Um grito misturado a um choro é o que sufoco dentro de mim. Alguma coisa me diz que é melhor não pôr para fora, é melhor agir com naturalidade, como todos estão agindo. Penso em saltar do ônibus, mas lá fora parece tão mais assustador que resolvo ficar. Tento me controlar, mas a cada momento que passa é impossível, sinto meu rosto ficar vermelho e inchar e uma lágrima rola pela minha face. Imediatamente ouço risos que estão ao meu lado. São duas meninas vestidas de preto, unhas pintadas, piercings, tatuagens... Essas coisas... Elas olham fundo para mim e não dizem nada, apenas dão gargalhadas, mas é como se eu pudesse ouvir seus pensamentos e eles dizem:
— “Chora nenenzinho, pois ninguém vai te ajudar!”.
Em seguida, as meninas tocam a campainha e descem também. Dessa vez tento segui-las com o olhar, mas é inútil. Ao colocarem os pés fora do ônibus, seus corpos desaparecem na escuridão! Finalmente explodo, porém tentando manter a mente no lugar, pois sinto que se deixar levar-me pela histeria será o meu fim. Falo novamente com o motorista com uma “certa” autoridade:
— Esse ônibus não vai para Saens Peña, não é mesmo?
Nisso o trocador começa a dar risadas. Levanto-me com fúria e vou até ele. Aproveito para olhar lá trás se não há mais ninguém e, para minha incredulidade, a resposta é não! Realmente não há mais ninguém neste ônibus maldito. Grito com o trocador perguntando o que é tão engraçado. Mas ele não pára de gargalhar. Num gesto que surpreende até a mim, minha mão vai encontrar-se com seu queixo, mas ele continua rindo, eu o esmurro novamente, e mais uma vez, e mais, e mais, e mais e cada vez mais, assustado com minha própria violência, fico mais apavorado ainda por ter surrado esse homem que, mesmo assim, não pára de mostrar os dentes. Com tantos golpes eu o derrubo até as escadas da porta traseira e o deixo lá. Com aquele medo violento parto na caça do motorista. Mas, quando chego perto da dianteira do ônibus, não há mais motorista. Corro para onde estava o trocador, mas também não há mais trocador. Agora estou completamente só num ônibus que anda sozinho. Por isso me entrego de joelhos ao desespero e peço perdão pelos meus pecados. Choro aos gritos, mas ainda possuo uma centelha de lucidez. Certo do meu fim iminente, confio na esperança de que alguém encontre essas linhas que escrevo com pressa e com medo. Vou colocar tudo dentro de minha bolsa junto com todos os meus pertences e jogar pela janela agora mesmo. Já é o suficiente. Acho que já fiz entenderem minha situação.
Uma última coisa a quem encontrar essas notas (se forem encontradas), por favor, avise aos meus pais que eu os amo muito. Meus documentos estão na bolsa, mas, mesmo assim, talvez ainda haja tempo: meu nome é... Oh meu Deus, por favor... Apagaram-se as luzes...

Rio de Janeiro, Sexta-feira, quatro de Janeiro de 19...
— Meu Deus...
... Sinto uma sensação sinistra vindo em minha direção: é hora de lançar a bolsa!
Não estou mais sozinho no escuro...”.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Diga-me onde és VIP e te direi quem és.

Branca Lee

Chego pelo portão lateral, aquele que só os habitués sabem onde fica. O porteiro imediatamente me reconhece como VIP, e me dá pronta passagem. Grátis, claro, afinal, VIP de verdade não paga nada.

Atravesso a confusão da entrada, onde um grupo bebe animadamente direto da fonte, e sou prontamente recebida por Juliana, com seus longos braços, que quase tocam o chão. Juliana foi minha primeira amiga ali, a primeira que batizei. Creio eu que nos aproximamos tão rapidamente porque ela consegue ser, ao mesmo tempo, a mais imponente e a mais próxima. Enfim, a hostess perfeita.

Como é bom estar entre amigos de novo. O entra-e-sai-corre-corre-do-dia-a-dia é a desculpa mais verdadeira que tenho para os períodos de tempo verdadeiramente indesculpáveis que passo sem vir aqui, sem encontrar a todos (quem anda conseguindo tempo para fazer tudo o que deveria, quer ou se compromete com, que atire a primeira agenda eletrônica).

Depois de bater um longo papo com Juliana, sigo entrando no ambiente – e quantos conhecidos encontro! Aqui, como em todo o nosso Rio de Janeiro, um apelido (ou ao menos um diminutivo) são tão ou mais importantes do que um sobrenome. Açoita-cavalo, Veludinho, Lixeira, os Coqueiros de Vênus (um daqueles grupos que andam coladinhos, todos vestidos iguais e com o mesmo corte de cabelo) e o sensacional Chiclé são apenas algumas das figuras que encontrei no caminho, até chegar ao imperdível “salão das exibidas”.

Tom Jobim, o freqüentador mais famoso deste recanto privilegiado de nossa cidade, já as batizou como as “Noivas de Deus”. Lindas, exuberantes, vestem-se de cores vibrantes que valorizam suas formas suntuosas, feitas a imagem e semelhança da fêmea perfeita para cada tipo de macho. Algumas tem perfume natural de baunilha, outras passam quase o ano inteiro em flor. Não há como adentrar seu templo e não ficar absolutamente fascinado com tanta beleza: chega a ser ostensivo. Gosto delas, mas que são umas exibidas, isso são.

Corro, o tempo já me faz lembrar de sua existência, ainda tenho muitos amigos a visitar, alguns vindos de longe para me ver: minha melhor amiga, a Rosinha, é uma sapotácea muito alto astral natural das Antilhas. Foi ela quem me fez perceber que tenho uma paixão platônica por um australiano de mais de quarenta metros de altura, branco, lindo, sempre com aquele perfume delicioso de sauna, o Lyptus. Eles me apresentaram vários que só conhecia de nome, como o Cravo e a Canela (que não fazem mais um par, estão separados, uma pena), a Andiroba e o Chá.

O passeio não poderia terminar sem uma conversa sobre música, arte, poesia e ciência, bem ali no chafariz central. E claro, uma conferida na organização da galera japonesa, sempre tão disciplinada, fazendo o maior contraste com os nossos amazônicos que ficam ali ao lado, todo mundo junto e misturado, vendo quem grita mais alto para conseguir seu lugar ao sol.

Os seguranças me avisam de que já estão fechando, mas que posso ficar mais tempo, por que sou VIP. Ganho alguns minutos mais para relaxar, lembrar e esquecer.

Lembro que dizem que toda amizade tem um preço. Pois considero a desta mais do que justa: para fazer parte deste seleto grupo, basta uma doação de cento e vinte reais por ano.

Eu sou amiga do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

segunda-feira, 4 de junho de 2007

UM POUCO MAIS PERTO, POR FAVOR

Marília Nogueira


Sábado à noite. Festa na casa de amigos. Apartamento amplo, decoração planejadamente despojada assim como os figurinos na sala e na varanda. Bem-sucedidos filhos da classe média falam de arte, cinema, música, teatro. Sim, e se acreditam extremamente interessantes. F. está entediada demais para questionar e é o tédio que, silenciosamente, cria a distância ideal para que certas emoções invadam sua mente. No início experimentou uma ligeira, mas confortável, impressão de harmonia – todas aquelas pessoas jovens e bonitas e inteligentes e viajadas e jovens e todos aqueles belos móveis e quadros e aparelhos eletrônicos e digitais e todo aquele whisky e pó e balas e ainda a música e a vista do décimo sexto andar – era tudo tão leve, bonito e exato. F. sentia-se inundar de reverência e de gratidão. Afinal era parte daquilo, não?

A dúvida rapidamente se transformou na temida certeza de que aquele palco não lhe pertencia. A F. caberia aceitar o lugar na platéia que lhe fora determinado e logo aquela verdade incômoda arrastaria consigo um misto de cobiça, aversão e desespero. F. sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Respiração e coração correndo descompassados, peito subindo e descendo rapidamente. Ânsia e choro explodindo na garganta e as pernas pesadas demais para fugir.

Definitivamente não estava habituada a esses pequenos momentos de liberdade não condicionados à razão. Não que fosse insensível. Era capaz de se emocionar com alguns filmes e livros, até mesmo com certa arte contemporânea. Mas havia sempre uma interferência racional, um impulso por lógica e coerência. Na pior das hipóteses era possível permanecer à distância, o que não era exatamente uma escolha consciente, aproximando-se mais de algum moderno instinto de sobrevivência. Assim para continuar vivo, socialmente ao menos, o não aproximar-se seria determinante. Não aproximar-se e não permitir que se aproximem, pois as conseqüências podem ser, e muito provavelmente serão, nada confortáveis. Você vai sofrer e o se transformar em mais um chato qualquer. Não queremos sofrer e, principalmente, não suportamos que nos descubram sem importância, indignos da admiração alheia. Sobretudo é preciso ser reconhecido. Talvez essa necessidade de aprovação e reconhecimento supere a necessidade de amor ou mesmo certas inevitabilidades biológicas do corpo. No entanto o sofrimento pode ser tolerado, até bem vindo, se em um passado distante e superado. A superação engrandecendo o sujeito. Infelizmente o risco de se tornar amargo, triste ou simplesmente melancólico é suficiente para inibir boa parte dos impulsos de aproximação nas relações atuais.

F. estava próxima dessa idéia, mas não conseguira chegar ao raciocínio. Por nenhum motivo especial, aliás, o que mais desejava naquele momento era formar qualquer pensamento, articular qualquer coisa vagamente racional. Ao invés disso o que obteve foi uma imagem muito rápida: os convidados da festa se atiravam da sacada, um a um, sorridentes. Teve uma breve sensação de alívio, a imagem se desfez e finalmente vieram palavras. Uma frase inteira que parecia sair diretamente da garganta ou originada ali da própria língua sem permissão da mente, que ficara pra trás há muito tempo.

A música estava alta. F. não escutou bem aquela voz que era, aparentemente, a sua. Felizmente já não tinha como voltar. Agarrou-se às sensações e abandonou a festa para nunca mais ter medo de chegar um pouco mais perto do outro e, sobretudo, de si mesma.