quarta-feira, 25 de julho de 2007

Prazer, Camila... (um exercício de adaptação)

Oi pessoal!Na falta de tempo pra procurar contos conhecidos que tenham adaptações interessantes, coloco aqui um continho meu que mais tarde virou um curta-metragem. o link para assistir o curta é http://www.youtube.com/watch?v=3yxvmIhtxPI e o conto vocês conferem abaixo. Quero ler as críticas e comentário depois, hein!Bjs!


PRAZER, CAMILA...

Capítulos 3 e 5. Exercícios da página 73 a 78. Cortar cabelo, marcar dentista, desmarcar aula de espanhol… Matemática Financeira – Capítulo 3: Aplicações…Não terminei os relatórios da primeira quinzena! Amanhã é dia 17! Estudo até uma hora no máximo, durmo até as seis, não, cinco e meia. Chego as sete no trabalho e tenho duas horas e meia pra terminar os relatórios. Acho que dá. Página 58. Aplicações dos…Duas, três, quatro, cinco e meia. Quatro horas e meia de sono. Vou ficar cheia de olheira! Tudo bem, tudo bem. Mais duas semanas as provas acabaram e férias da faculdade… Isso se eu não ficar de prova final em Estatísitica. Preciso tirar oito. Oito! Página 58, página 58! Concentra, Camila, concentra. Não consegui estudar uma linha ainda, meu Deus! Vou deixar o cabelo pra semana que vem. Não posso perder tempo com cabelo essa semana…. Mas tá tão depontado… Peço pra Lia cortar as pontinhas pra mim. Bom que eu não gasto dinheiro… Tem as prestações do celular e o vestido pro casamento da Ana e o maldito biquini bordado. Mas o João gostou… Grande coisa o João. Agora são seis meses pagando o biquini e nem tempo de ir a praia tem. Tempo, tempo. Eu tenho é que estudar…Que sono… Que merda estudar a noite. Que merda trabalhar. Ser promovida sem ganhar aumento. E trabalhando mais! Só comigo acontece essas coisas. Pára de reclamar, Camila. Estuda. Daqui a pouco é uma da manhã. Vamos lá. São só cinco páginas e uns exercícios bobos. Depois tomo um leite quente e durmo. Até as cinco e meia. Página 58. Aplicações dos Cálculos de Matriz no estudo das variações do Câmbio. Venci a primeira linha! Venci a primeira linha! Primeiro caso…Tem alguém batendo na porta… Não acredito. Alguém batendo na porta.
- Que é?
“Desisto.”
- Cacau, posso entrar?
“Faço cola das fórmulas …”
- Já entrou, né, pai
“…e seja o que Deus quiser.”
- Queria te apresentar uma pessoa.
“Se eu conseguir chegar mais cedo…”
- Hmmm.
- É a Rosana.
“Só faltava essa, vai começar a me apresentar as piranhas agora…”
- Rô, essa é a Cacau.
“Mas seu eu chegar mais cedo….”
- Sua irmã.
“…minha irmã!?”
- Oi.
- Ela tem a sua idade, não é legal?
“Legal?”
- E tem um filhinho de cinco aninhos! Seu sobrinho!
“Filhinho, cinco aninhos, sobrinho, meu? Minha idade? Minha irmã? 20, 19, 18, 17, 16. Dezesseis. Grávida com dezesseis. Minha irmã! Minha irmã!? Como assim? De onde saiu essa maluca? É todo mundo louco nessa casa! O que que eu tô fazendo aqui?”
- Cacau?
“Respira…Respira. Levantando a cabeça, devagar…”
- Tá surda, menina?
- Não, pai.
“Não se parece com ele… Isso é bom ou ruim?”
- Prazer. Meu nome é Camila.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Carlos, um não-qualquer

No meio do caminho tu estavas, Drummond.
Então, encontrei-me.
A Quadrilha começou a fazer sentido.
Descobri que não era João, nem Maria;
Parecia-me com J. Pinto Fernandes,
Mas também não era ele.

Peguei com as mãos todo o sentimento do mundo
Colocando-o em minhas costas e,
Passeando pelas ruas do Rio de Janeiro,
Como um mineiro perdido,
Orando em meio à multidão dessa cidade,
Chorei e sorri muitas vezes em tua companhia.

Não, nunca fui mineiro, mas pareço-me assim por tua causa,
Meu amigo.
Ajudaste, a mim e a muitos, com tuas palavras e teu espírito circunspecto.
Até sexo aprendi no teu jeito de fazer poesia.
Aprender sexo com um sexagenário! — Foste meu avô poeta que nunca tive.

Numa manhã de setembro, do dia 19,
Ela me beijou o membro,
Era o meu aniversário.

Também já fui gauche.
Porém, confiante do coração,
Ensinaste-me a ser vivo e como isso dói,
E como a poesia é sofrida e como vicia essa cachaça.

Nunca fui à Itabira, mas é como se tivesse nascido lá.
Talvez... um dia nos encontraremos naquelas ruas.
Porque, aqui no Rio, não raro vou até Copacabana:
Para pedir conselho ou dar-te um beijo
No silêncio das altas horas marítimas.

domingo, 22 de julho de 2007

CARLITOS

Varre o vento violento
Varandas vazias de silêncio
Na tarde sacrificada ao momento.
Partes correndo aos meus olhos
Tão incrédulos
Quanto adolescentes
(como assim?)
Abandonas o teu rebanho ao luar?
Devastados e trôpegos e ébrios
Entreolham-se todos
"E agora José?"
Mas agorinha mesmo eu lia com ele...

Como te perdoar se me deixas órfão
Eu que como tu
"Tenho apenas duas mãos"
E tão vivo o desejo de saber-te?
E me deixo dormir ao amanhecer
"Na noite mais noite que a noite"
Terei que decifrar-me sozinho?
Estou preso a ti neste cantar
Infindável, presos a vida e a este
"Tempo de homens partidos."
Vestidos de luto
Guarda-roupas
Folhas secas e musgos
Grito surdo.

A voz, a flor, o sonho
Teus e meus
Irrompem no desassossego quieto
Imóvel, esfíngico,torto e belo
Sob o sol outonal e último
Sob minha pena sedenta
Breve a pelejar com palavras,
Razões e equívocos.
Tolo que sou não percebo
Quão pobre estou a
Debater-me entre versos
Na dolorosa e necessária
"Procura da poesia"...
Não aquela a que louros
Busquem-me o orgulho,
Não, não o lógico,
Não o indizível
Mas, se de minha pena
Brotasse um, apenas um,
Um botão apenas de poesia
Meus olhos, então, mar seriam
E nele pousaria,entre oferendas
De nuvens e valsas,
Minhas mãos
Limpas
Nuas.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Memória de Miss Panasonic

A memória de Miss Panasonic

- Meu pai me deu dois conselhos sobre a vida sexual. O primeiro era dar uma mijada profilática depois de ter relação. O outro conselho foi: - Nunca escreva a uma mulher.

Este segundo conselho viera de um colega de trabalho quando o pai morava na Colômbia. Tempos de juventude. Deve ter sido de muita valia para ambos, pai e filho. Colombianos sabem das coisas... Colombianas serão perigosas? Mulheres são perigosas! E ingleses na Colômbia podem até parecer incautos, mas nem por isso menos perigosos.

Nem recado na secretária eletrônica ele deixava. Que preferia não deixar...

Não registrar recado na memória de uma secretária eletrônica era dose. E o que tinha Miss Panasonic a ver com aquilo? Ah, essa não podia passar em branco.

Foi o start para ela pensar na revanche. Começou como uma raivinha miúda, uma doce raivinha. (Uma vingancinha podia cair bem.)

Primeiro foi lá com a máquina de retrato da amiga. Fez que ele mesmo fotografasse a orquídea gigante, mandou-lhe a foto pelo computador, linda foto, hein? Depois comprou uma máquina, era aniversário, gastou os dólares dobrados com cuidado dentro da frasqueira que quase não usava mais. Só podia tirar 4 fotos por vez: a máquina não tinha cartão de memória. O carregador de pilhas ficava pra comprar na próxima.

Durante a semana preparava o carregador. Na bolsa azul, junto com os produtos de maquiagem, punha a máquina no fundo. Pensar nos 4 retratos que ia tirar a deixava excitada.

Começou tímida, com cuidados e aflições. Escondia a máquina logo (e se ele visse?) Aos poucos foi perdendo o medo. Saboreava a hora em que ele estaria no computador, no telefone, no banheiro - para fotografar. Do chão ao teto, de 4 em 4, fotografou tudo dentro da casa: cozinha, banheiro, de dia, de noite, sala, pôr-do-sol, externas, internas (uma que tinha gostado foi a da lua, no teto do banheiro à noite). Depois sempre escondia a câmera.

A hora melhor era quando ele tomava banho, aí tinha um tempo previsto de demora. Ia pro escritório e fotografava t.u.d.o: retratos das filhas, o computador, a cadeira, até o telefone. Curtiu muito quando fotografou aquele retratinho dele em bebê, uns 2 anos, sentado na areia de Copacabana, cabelo encaracolado, pachorrento. Depois revelou a foto, pôs ela em sua mesa de cabeceira, num mini-porta-retrato antiguinho para retratos ovais. Parecia encomendado! Que gracinha. (Escondia o retrato quando ele vinha em sua casa.)

Fotografou a cama de todos os ângulos, enquanto ele fazia a laranjada de manhã. Que glória! A cama desfeita, a cama feita, de lado, de cima, do outro lado. Roupas pelo chão, sapatos jogados.

Naquela noite tinham bebido demais. Ela acordou para ir ao banheiro, quando voltou rolou, o sono não veio. Pegou a máquina e tirou 4 retratos dele dormindo.

Quando pôs as fotos na tela do computador em casa foi que viu que ele estava nu. Barriga pra cima, em pelo, sobre a cama, de pernas cruzadas. Verdade, foi sem querer.

Guardou as fotos no Picasa, não na pasta Casa, onde estavam as dezenas das outras, mas na pasta Escondidos.

É na pasta Escondidos que ficou a memória da raiva, registrada e classificada.

Revelada em foto, reciclada na vida.




Simone Isnard