Diga-me onde és VIP e te direi quem és.
Branca Lee
Chego pelo portão lateral, aquele que só os habitués sabem onde fica. O porteiro imediatamente me reconhece como VIP, e me dá pronta passagem. Grátis, claro, afinal, VIP de verdade não paga nada.
Atravesso a confusão da entrada, onde um grupo bebe animadamente direto da fonte, e sou prontamente recebida por Juliana, com seus longos braços, que quase tocam o chão. Juliana foi minha primeira amiga ali, a primeira que batizei. Creio eu que nos aproximamos tão rapidamente porque ela consegue ser, ao mesmo tempo, a mais imponente e a mais próxima. Enfim, a hostess perfeita.
Como é bom estar entre amigos de novo. O entra-e-sai-corre-corre-do-dia-a-dia é a desculpa mais verdadeira que tenho para os períodos de tempo verdadeiramente indesculpáveis que passo sem vir aqui, sem encontrar a todos (quem anda conseguindo tempo para fazer tudo o que deveria, quer ou se compromete com, que atire a primeira agenda eletrônica).
Depois de bater um longo papo com Juliana, sigo entrando no ambiente – e quantos conhecidos encontro! Aqui, como em todo o nosso Rio de Janeiro, um apelido (ou ao menos um diminutivo) são tão ou mais importantes do que um sobrenome. Açoita-cavalo, Veludinho, Lixeira, os Coqueiros de Vênus (um daqueles grupos que andam coladinhos, todos vestidos iguais e com o mesmo corte de cabelo) e o sensacional Chiclé são apenas algumas das figuras que encontrei no caminho, até chegar ao imperdível “salão das exibidas”.
Tom Jobim, o freqüentador mais famoso deste recanto privilegiado de nossa cidade, já as batizou como as “Noivas de Deus”. Lindas, exuberantes, vestem-se de cores vibrantes que valorizam suas formas suntuosas, feitas a imagem e semelhança da fêmea perfeita para cada tipo de macho. Algumas tem perfume natural de baunilha, outras passam quase o ano inteiro em flor. Não há como adentrar seu templo e não ficar absolutamente fascinado com tanta beleza: chega a ser ostensivo. Gosto delas, mas que são umas exibidas, isso são.
Corro, o tempo já me faz lembrar de sua existência, ainda tenho muitos amigos a visitar, alguns vindos de longe para me ver: minha melhor amiga, a Rosinha, é uma sapotácea muito alto astral natural das Antilhas. Foi ela quem me fez perceber que tenho uma paixão platônica por um australiano de mais de quarenta metros de altura, branco, lindo, sempre com aquele perfume delicioso de sauna, o Lyptus. Eles me apresentaram vários que só conhecia de nome, como o Cravo e a Canela (que não fazem mais um par, estão separados, uma pena), a Andiroba e o Chá.
O passeio não poderia terminar sem uma conversa sobre música, arte, poesia e ciência, bem ali no chafariz central. E claro, uma conferida na organização da galera japonesa, sempre tão disciplinada, fazendo o maior contraste com os nossos amazônicos que ficam ali ao lado, todo mundo junto e misturado, vendo quem grita mais alto para conseguir seu lugar ao sol.
Os seguranças me avisam de que já estão fechando, mas que posso ficar mais tempo, por que sou VIP. Ganho alguns minutos mais para relaxar, lembrar e esquecer.
Lembro que dizem que toda amizade tem um preço. Pois considero a desta mais do que justa: para fazer parte deste seleto grupo, basta uma doação de cento e vinte reais por ano.
Eu sou amiga do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
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Um comentário:
Fiquei tentando descobrir ao longo do texto de qual parte do Rio que se tratava, mas não consegui até ler o final. Uma delícia montar o quebra-cabeça de detalhes que compõe a obra. Sapotácea, só a Branca...
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