Simone Isnard
Angélica Ramos Filha (n. em Jaboatão, PE, em 1956 - falecida em Niterói, RJ, em 2030)
Foi na Baía da Traição, litoral da Paraíba, que cresceu Angélica. A reserva indígena ficava na beira do rio, e meio km abaixo ia dar no mar. Do rio, tanto quanto da terra, vinha o alimento. Por isso na feira ninguém enganava Angélica. Dizer que estava fresco o peixe que não estava, Angélica sabia: tinha crescido como peixe.
Na reserva dos índios podia morar branco, mulato e até preto – desde que casasse com índio. A avó índia, a quem chamava “mãe”, a criou. Tinha pulso firme sobre todas as crianças. Sobre os filhos adultos, oito, que criou sozinha, é que não tinha mais força. Todos brigaram com ela um dia. E saíram pelo mundo a fazer besteira. De alguns não ouviu mais falar. Outros voltaram, arrependidos, para pedir o colo certo, saborear a comida, o conselho de pouca palavra. Um porto seguro na vida.
Besteira de filho homem era desgraça de duas caras: uma era a bebida; a outra bacurinho. Só de filho dos filhos homens criou meia dúzia. As moças embarrigavam e deixavam o embrulho na porta de manhã cedo, pra ela criar, que os criava bem.
Um que um dia voltou foi a mãe de Angélica. Com 14 anos fugiu da reserva pra ganhar o mundo. Ganhou ao invés Angélica, que depositou nos braços da mãe. Partiu em seguida pra outra. Que deu em outro bebê, o Manuel, bem escurinho esse, menos de quatro anos depois. Sumiu no mundo e ninguém mais deitou os olhos sobre ela. A avó soube no coração que só veria a filha lá no fim dos tempos. Deixou pra lá.
Já Angélica, quando tinha 20 anos, correu atrás de saber. Tinha informação de que a mãe tinha ido pra Natal e trabalhado lá, cuidou de apurar. Queria tanto notícias dela. Com o tempo aceitou que morrera.
ANGÉLICA RAMOS FILHA – este é o nome no registro de nascimento. Nascida em Jaboatão, cercanias de Recife, em 25 de outubro de 1956. Já Manuel, o irmão mais novo, cresceu sem registro, que a avó fez depois.
Aos 14 anos Angélica saiu da reserva e foi trabalhar numa casa de família no litoral. O horror da exploração doméstica e a marca de nascer mulher e pobre foram lições de classe que aprendeu na Paraíba.
O Rio de Janeiro cresceu no sonho, que realizou em 1975, quando desembarcou em Copacabana. Era semi-analfabeta, mas a oferta de trabalho no Sul e a rede de domésticas e de porteiros garantia o emprego certo.
Enorme o orgulho que sentiu quando tirou a carteira profissional, assinada não no primeiro emprego, como cozinheira, mas no segundo, quando passou a babá. A patroa acabara de ganhar o segundo bebê. Viu que havia escola noturna na Praça do Lido, pediu folga depois de 19 horas para freqüentar o primeiro grau noturno. Foi à noite também que aprendeu corte e costura no Sesc de Copacabana.
Nos anos 80 Angélica divertiu-se muito nos bailes e forrós que aconteciam no subúrbio e também em Copacabana (na Princesa Isabel tinha a boate Jaboatão, que fazia a festa dos porteiros e domésticas). Havia o turismo religioso também, e Angélica foi a Aparecida em excursão algumas vezes. Na bagagem de volta trouxe imagens de gesso de Nossa Senhora, que presenteou com alegria.
Primeiro alugou um quarto para morar nos fins de semana. O sonho da casa própria realizou quando pôde comprar em São Gonçalo dois terrenos perto do valão (não podia adivinhar que o valão enchia quando a chuva não dava vazão à água). Construiu a primeira para si. A segunda, mais tarde, seria para o irmão Manuel. Os ralos eram estrategicamente tapados quando chovia, para não inundar a casa. Mas inundou, claro, muitas vezes.
Quando conheceu o Jurandir, não sabia quão mulherengo ele era e quem eram as amigas com quem trocava confidências de intimidades. Jurandir, que colecionava canários, que fazia churrasco nos fins de semana, que biritava sempre um pouco além, dormiu com todas as suas amigas. Foi tudo tão rápido que ela mesma não se deu conta. Foram-se o Jurandir e todas as amigas.
Perdeu também dois filhos, o primeiro no parto por imperícia médica do INSS de São Gonçalo. O segundo, depois de uma reconciliação temporária, por causa da sífilis, adquirida de Jurandir, que infetou o bebê.
Perdeu tudo Angélica. Sobraram-lhe as duas casas próprias. Mais o emprego de doméstica - e a fibra, feita na vida.
Nunca mais a abandonou a idéia de adotar uma criança. Tinha até tentado aquela menina, foi mal na hora. Sem marido sabia que ia dar problema.
Não é que de repente essa Helena queria dar-lhe o bebê? Logo agora que tinha em casa os dois sobrinhos adolescentes, filhos do irmão Manuel, morando com ela a ocupá-la e preocupá-la? O juiz dissera que a mãe teria de dar o bebê de papel passado. Helena acedeu, queria se livrar da criança a todo custo. Que nunca mais teria direitos sobre a criança. Que poderia não vê-la nunca mais. Nada importava. Estava passando fome, e por um tipo de distúrbio alimentar qualquer durante a gravidez alimentava-se de pão e banana. Regados a xícaras de café. Angélica dava-lhe dinheiro e comida e esteve presente na hora do parto. Os papéis da adoção estavam todos em ordem.
MANUELA RAMOS nasceu em São Gonçalo no dia 10 de janeiro de 1999. No registro de nascimento consta que Angélica Ramos Filha é a mãe e que o pai chama-se Manuel Ramos.
Angélica a criou com o esforço do seu trabalho de doméstica no Rio e com a ajuda da comunidade das Testemunhas de Jeová de São Gonçalo, a que pertencia. Cresceu saudável e forte. Angélica nunca impediu e antes incentivou Helena a ter contato com Manuela. Helena, amiga assídua conquistada a palmo. Manuela sempre mostrou deferência especial com Helena. Angélica não obstou. Na hora certa revelaria que era adotada. Sem dizer quem era a mãe biológica, o Serviço Social a tinha avisado, que não era preciso. O juiz disse que nunca tinha visto aquilo, deixar mãe biológica visitar...
Desde cedo Manuela demonstrou sagacidade e inteligência, além de independência. Era também muito vaidosa, o que fazia Angélica sentir-se esquisita, sem saber como lidar com aquilo. Gostava de cantar, pegava num “microfone”, penteava os longos cabelos muitas vezes ao dia. Só tomava banho frio. Nos fins de semana acompanhava Angélica nas jornadas de evangelização. Chegou a converter muitos com palavras de sabedoria e convicção no amor de Jeová.
Além dos dois que já tinha, Manuel teve mais cinco filhos com outras companheiras. O primeiro filho de Manuel, o Nego, com 15 anos foi pai de um menino, que não reconheceu. A mãe e a criança moram perto de Angélica. Manuel paga as despesas. Manuela ama Neguinho.
Na escola de 1o grau, sob a orientação da comunidade religiosa a que Angélica pertencia, Manuela teve desempenho muito acima da média. Quando fez 14 anos, começou a dizer em alto e bom som que um dia ia ser presidente da República. E quando entrou para o 2o. grau afirmou muitas vezes que ia estudar na Faculdade de Comunicação na UFF, onde estuda Adriana, uma filha do Manuel.
Angélica - aquela que cresceu como peixe na Paraíba e vingou feito gente no Rio de Janeiro - estava dentro da van que capotou por causa da neblina na Ponte Rio-Niterói depois de levar uma fechada na manhã de anteontem, 8 de julho de 2030, matando todos os ocupantes.
A filha Manuela Ramos (31) junto com seus 7 meio-irmãos, mais o irmão Manuel Ramos (70), durante as exéquias, ressaltaram o sentido do valor do trabalho e do cumprimento do dever, de que a vida de Angélica foi exemplo.
AUGUSTO NUNES FILHO PARA O Jornal do Brasil de 10 de julho de 2030
Adendos:
1. O relato acima foi entregue a este jornalista após o enterro, por Simone Isnard (85), para quem Angélica trabalhou como doméstica durante 35 anos. Os dois últimos parágrafos foram acrescentados por mim.
2. Manuela Ramos é governadora eleita do Estado do Rio de Janeiro. Tendo obtido votação maciça das comunidades religiosas das Testemunhas de Jeová, a Governadora Manuela neste momento está em vias de conseguir o apoio da fortíssima bancada evangélica do Estado do Rio de Janeiro. Foi o candidato que teve o maior número de votos de mulheres por amostragem quando da última eleição para deputado em 2028.
3. Correm pelos bastidores notícias de que ACMBisneto, o mais novo senador da República, já sonda a Governadora Manuela para presidente da República na eleição de 2034.
4. Maria do Brasil Ramos, filha de Manuela, logo completará 14 anos. Companheira inseparável da mãe, mostra a mesma desenvoltura no trato com o público que sua mãe, de quem herdou o carisma e a simpatia. Canta e toca guitarra, agradando multidões de adolescentes. Já avisou que tem ambições políticas, de que não abrirá mão quando a hora chegar.
Foi na Baía da Traição, litoral da Paraíba, que cresceu Angélica. A reserva indígena ficava na beira do rio, e meio km abaixo ia dar no mar. Do rio, tanto quanto da terra, vinha o alimento. Por isso na feira ninguém enganava Angélica. Dizer que estava fresco o peixe que não estava, Angélica sabia: tinha crescido como peixe.
Na reserva dos índios podia morar branco, mulato e até preto – desde que casasse com índio. A avó índia, a quem chamava “mãe”, a criou. Tinha pulso firme sobre todas as crianças. Sobre os filhos adultos, oito, que criou sozinha, é que não tinha mais força. Todos brigaram com ela um dia. E saíram pelo mundo a fazer besteira. De alguns não ouviu mais falar. Outros voltaram, arrependidos, para pedir o colo certo, saborear a comida, o conselho de pouca palavra. Um porto seguro na vida.
Besteira de filho homem era desgraça de duas caras: uma era a bebida; a outra bacurinho. Só de filho dos filhos homens criou meia dúzia. As moças embarrigavam e deixavam o embrulho na porta de manhã cedo, pra ela criar, que os criava bem.
Um que um dia voltou foi a mãe de Angélica. Com 14 anos fugiu da reserva pra ganhar o mundo. Ganhou ao invés Angélica, que depositou nos braços da mãe. Partiu em seguida pra outra. Que deu em outro bebê, o Manuel, bem escurinho esse, menos de quatro anos depois. Sumiu no mundo e ninguém mais deitou os olhos sobre ela. A avó soube no coração que só veria a filha lá no fim dos tempos. Deixou pra lá.
Já Angélica, quando tinha 20 anos, correu atrás de saber. Tinha informação de que a mãe tinha ido pra Natal e trabalhado lá, cuidou de apurar. Queria tanto notícias dela. Com o tempo aceitou que morrera.
ANGÉLICA RAMOS FILHA – este é o nome no registro de nascimento. Nascida em Jaboatão, cercanias de Recife, em 25 de outubro de 1956. Já Manuel, o irmão mais novo, cresceu sem registro, que a avó fez depois.
Aos 14 anos Angélica saiu da reserva e foi trabalhar numa casa de família no litoral. O horror da exploração doméstica e a marca de nascer mulher e pobre foram lições de classe que aprendeu na Paraíba.
O Rio de Janeiro cresceu no sonho, que realizou em 1975, quando desembarcou em Copacabana. Era semi-analfabeta, mas a oferta de trabalho no Sul e a rede de domésticas e de porteiros garantia o emprego certo.
Enorme o orgulho que sentiu quando tirou a carteira profissional, assinada não no primeiro emprego, como cozinheira, mas no segundo, quando passou a babá. A patroa acabara de ganhar o segundo bebê. Viu que havia escola noturna na Praça do Lido, pediu folga depois de 19 horas para freqüentar o primeiro grau noturno. Foi à noite também que aprendeu corte e costura no Sesc de Copacabana.
Nos anos 80 Angélica divertiu-se muito nos bailes e forrós que aconteciam no subúrbio e também em Copacabana (na Princesa Isabel tinha a boate Jaboatão, que fazia a festa dos porteiros e domésticas). Havia o turismo religioso também, e Angélica foi a Aparecida em excursão algumas vezes. Na bagagem de volta trouxe imagens de gesso de Nossa Senhora, que presenteou com alegria.
Primeiro alugou um quarto para morar nos fins de semana. O sonho da casa própria realizou quando pôde comprar em São Gonçalo dois terrenos perto do valão (não podia adivinhar que o valão enchia quando a chuva não dava vazão à água). Construiu a primeira para si. A segunda, mais tarde, seria para o irmão Manuel. Os ralos eram estrategicamente tapados quando chovia, para não inundar a casa. Mas inundou, claro, muitas vezes.
Quando conheceu o Jurandir, não sabia quão mulherengo ele era e quem eram as amigas com quem trocava confidências de intimidades. Jurandir, que colecionava canários, que fazia churrasco nos fins de semana, que biritava sempre um pouco além, dormiu com todas as suas amigas. Foi tudo tão rápido que ela mesma não se deu conta. Foram-se o Jurandir e todas as amigas.
Perdeu também dois filhos, o primeiro no parto por imperícia médica do INSS de São Gonçalo. O segundo, depois de uma reconciliação temporária, por causa da sífilis, adquirida de Jurandir, que infetou o bebê.
Perdeu tudo Angélica. Sobraram-lhe as duas casas próprias. Mais o emprego de doméstica - e a fibra, feita na vida.
Nunca mais a abandonou a idéia de adotar uma criança. Tinha até tentado aquela menina, foi mal na hora. Sem marido sabia que ia dar problema.
Não é que de repente essa Helena queria dar-lhe o bebê? Logo agora que tinha em casa os dois sobrinhos adolescentes, filhos do irmão Manuel, morando com ela a ocupá-la e preocupá-la? O juiz dissera que a mãe teria de dar o bebê de papel passado. Helena acedeu, queria se livrar da criança a todo custo. Que nunca mais teria direitos sobre a criança. Que poderia não vê-la nunca mais. Nada importava. Estava passando fome, e por um tipo de distúrbio alimentar qualquer durante a gravidez alimentava-se de pão e banana. Regados a xícaras de café. Angélica dava-lhe dinheiro e comida e esteve presente na hora do parto. Os papéis da adoção estavam todos em ordem.
MANUELA RAMOS nasceu em São Gonçalo no dia 10 de janeiro de 1999. No registro de nascimento consta que Angélica Ramos Filha é a mãe e que o pai chama-se Manuel Ramos.
Angélica a criou com o esforço do seu trabalho de doméstica no Rio e com a ajuda da comunidade das Testemunhas de Jeová de São Gonçalo, a que pertencia. Cresceu saudável e forte. Angélica nunca impediu e antes incentivou Helena a ter contato com Manuela. Helena, amiga assídua conquistada a palmo. Manuela sempre mostrou deferência especial com Helena. Angélica não obstou. Na hora certa revelaria que era adotada. Sem dizer quem era a mãe biológica, o Serviço Social a tinha avisado, que não era preciso. O juiz disse que nunca tinha visto aquilo, deixar mãe biológica visitar...
Desde cedo Manuela demonstrou sagacidade e inteligência, além de independência. Era também muito vaidosa, o que fazia Angélica sentir-se esquisita, sem saber como lidar com aquilo. Gostava de cantar, pegava num “microfone”, penteava os longos cabelos muitas vezes ao dia. Só tomava banho frio. Nos fins de semana acompanhava Angélica nas jornadas de evangelização. Chegou a converter muitos com palavras de sabedoria e convicção no amor de Jeová.
Além dos dois que já tinha, Manuel teve mais cinco filhos com outras companheiras. O primeiro filho de Manuel, o Nego, com 15 anos foi pai de um menino, que não reconheceu. A mãe e a criança moram perto de Angélica. Manuel paga as despesas. Manuela ama Neguinho.
Na escola de 1o grau, sob a orientação da comunidade religiosa a que Angélica pertencia, Manuela teve desempenho muito acima da média. Quando fez 14 anos, começou a dizer em alto e bom som que um dia ia ser presidente da República. E quando entrou para o 2o. grau afirmou muitas vezes que ia estudar na Faculdade de Comunicação na UFF, onde estuda Adriana, uma filha do Manuel.
Angélica - aquela que cresceu como peixe na Paraíba e vingou feito gente no Rio de Janeiro - estava dentro da van que capotou por causa da neblina na Ponte Rio-Niterói depois de levar uma fechada na manhã de anteontem, 8 de julho de 2030, matando todos os ocupantes.
A filha Manuela Ramos (31) junto com seus 7 meio-irmãos, mais o irmão Manuel Ramos (70), durante as exéquias, ressaltaram o sentido do valor do trabalho e do cumprimento do dever, de que a vida de Angélica foi exemplo.
AUGUSTO NUNES FILHO PARA O Jornal do Brasil de 10 de julho de 2030
Adendos:
1. O relato acima foi entregue a este jornalista após o enterro, por Simone Isnard (85), para quem Angélica trabalhou como doméstica durante 35 anos. Os dois últimos parágrafos foram acrescentados por mim.
2. Manuela Ramos é governadora eleita do Estado do Rio de Janeiro. Tendo obtido votação maciça das comunidades religiosas das Testemunhas de Jeová, a Governadora Manuela neste momento está em vias de conseguir o apoio da fortíssima bancada evangélica do Estado do Rio de Janeiro. Foi o candidato que teve o maior número de votos de mulheres por amostragem quando da última eleição para deputado em 2028.
3. Correm pelos bastidores notícias de que ACMBisneto, o mais novo senador da República, já sonda a Governadora Manuela para presidente da República na eleição de 2034.
4. Maria do Brasil Ramos, filha de Manuela, logo completará 14 anos. Companheira inseparável da mãe, mostra a mesma desenvoltura no trato com o público que sua mãe, de quem herdou o carisma e a simpatia. Canta e toca guitarra, agradando multidões de adolescentes. Já avisou que tem ambições políticas, de que não abrirá mão quando a hora chegar.
Um comentário:
O que me chamou a atenção neste texto da Simone foi justamente o caráter inventivo da biografia. Esse dado de não saber onde termina o real e se inicia o ficcional. Os registros vão variando, desde o mais confessional até o caráter jornalístico, sempre tirando o tapete dos pés do leitor.
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