sábado, 20 de outubro de 2007

A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO

EXERCÍCIO DE ESCRITA BASEADO NO CONTO DE MACHADO DE ASSIS:
“ MISSA DO GALO”
POR: RITA ALENCAR
ESPECIALIZAÇÃO / PUC-RIO /SET. 2007
PROFª DANIELA VERSIANI

“A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO”

Da única noite que tive só para mim, guardo sobre a dobradura do cetim e as rendas do lenço branco as aventuras do jovem D’Artagnan de Dumas e ao qual recorro sempre que estou me perdendo de mim mesma, sempre que estou a fingir demais ser aquilo que não quero ser.
Nesta noite, como naquela, tenho as veias a pulsar, uma inquietação no peito e os olhos querendo ver mais do que as luzes têm para mostrar... Naquela noite eu me vi pela primeira vez, assim como o lago de Narciso que descobre no fundo dos olhos do mancebo a sua própria beleza refletida e se encanta, também eu me apaixonei pelo que vi refletido naqueles olhos de D’Artagnan, olhos que iluminaram as trevas de minha solidão e que me ensinaram o caminho de volta ao sal da vida. Hoje, nesta noite, como em tantas outras, revivo minhas memórias na delicada missão de reinventar-me para não morrer.

Em nome da segurança dos bens, casei-me com o Távora, não que seja mau esposo, não de modo algum, não como um Menezes, isto não mesmo! Távora é direito, cumpridor de seus deveres e acertos, mas falta-lhe um não sei quê de sonho, de imaginação... Outro dia tivemos uma conversação:
_ Távora meu bem, não achas que deveríamos fazer uma viagem, não para longe, Paquetá talvez...
_ Concinha, já te alertei da importância de pouparmos para os dias vindouros, nunca se sabe!...
_ Mas Távora tu só trabalhas, como consegues?
_ É fácil, é só não ficar de caraminholas na cabeça, ora pois!
_ Francamente Távora, tu és demais correto, não pensas que o tempo passa, que a juventude passa e que logo estaremos velhos para aproveitar as aventuras da vida?
_ Qual o quê Concinha, se Deus quiser logo estaremos bem velhinhos, aí sim descansaremos aonde tu quiseres, em Paquetá ou em Paris, mas ricos, Concinha , ricos.

Távora mal acorda e já mete-se nos colarinhos engomados à assoviar cânticos indecifráveis pela copa, enquanto estou a socorrer mamãe de seus freqüentes ataques de tosse matinal.
_ Mamãe, a senhora precisa ver o Dr. Montezuma, ele saberá curá-la, mas precisa querer...
_ Minha filha, não tenho mais jeito não, estou quase a partir, o Veiga mesmo disse-me esta noite, anda até a preparar-se para a minha chegada!
_ Mamãe, deixe de tolices, não gosto que fale assim!
_ Mas minha filha, é o teu pai, não deves duvidar dele, olha que isso é pecado...
_ Nem mais uma palavra, a senhora irá comigo hoje mesmo ao Dr. Montezuma!

O consultório do Dr. Montezuma está instalado num sobrado da Rua do Ouvidor, de forma que mamãe e eu, decidimos sair logo de manhã cedinho a fim de não nos atrasarmos para a consulta. Antes de sair lembrei-me do meu doce D’Artagnan , não sei bem porquê, acho que foi ao pousar dos olhos sobre o canapé...Tolice!
_São coisas que só devo relembrar na quietude da noite, nunca assim a luz do dia, ainda mais que logo me vêm esses calores fora de hora...
_Vamos minha filha que as horas tardam!

Dr. Montezuma era o único ser no mundo capaz de encontrar um caminho seguro para convencer mamãe de alguma coisa, até mesmo para tomar seu elixir de gosto intragável. Sendo assim dei-me por satisfeita e convidei mamãe para uma xícara de chá na Confeitaria Colombo.
_O quê estás a olhar Conceição? Pareces uma estátua de tão pálida...
_ Não é nada minha mãe, logo passa...
Naquela manhã um turbilhão de sensações explorou-me todo o corpo, calores explodiram pelos poros da pele, incontroláveis, loucos os olhos buscaram, embaçados pela turva lágrima antiga, os olhos daquele que me descobriu, que me deflorou a alma e os sentidos...
_Como vai Dona Conceição, há quanto tempo não é mesmo? Dona Inácia como vai a senhora?
_Não muito bem meu jovem, mas... nós nos conhecemos, hein?
_Mamãe como pode ter se esquecido do Sr. Nogueira, hóspede nosso há alguns anos atrás, cinco anos Sr. Nogueira?...
_Sim senhora ,cinco anos, soube que casou-se de novo...
_Não quer sentar-se conosco Sr. Nogueira?
_Sim, por favor, sente-se, conte-nos as novidades de Mangaratiba.
_Muito obrigado, sentarei-me por alguns instantes pois estou a trabalho, não posso alongar-me muito, mas gostaria de visitá-las se for conveniente é claro.
_Bem, o Távora não há de importar-se com sua visita, visto que é um velho amigo da família, não é Conceição? Não é Conceição?
_Desculpe Sr. Nogueira, acho que não me sinto muito bem hoje , pode ser o calor...
_A Srª quer que as ajude no caminho de volta?

Neste ponto já não conseguia ouvir mais nada, um torpor tomou conta da minha mente e assim, mais que de repente acho que desmaiei nos braços do meu doce D’Artagnan. Quando acordei achava-me recostada em minha cama tendo ao meu lado aquele que muitas noites esteve ali apenas em minha imaginação.
_Graças a Deus Dona Conceição, que susto tomamos eu e sua mãe, a coitada foi ao quarto recolher-se de tão agoniada...
_Desculpe Sr. Nogueira, não tinha a intenção de...
_Dona Conceição, não sabe como me preocupei com a senhora, não se desculpe por favor, era o mínimo que poderia fazer, afinal pude retribuir-lhe um pouco por tudo que a senhora fez por mim...
_Mas eu não fiz nada...
_Fez sim senhora, naquela noite...
_Sr. Nogueira!
_Desculpe-me se estou sendo indelicado...
_Não, não, continue por favor!
_ Dona Conceição desde aquela noite da Missa do Galo que eu acordo no varar da madrugada e ponho-me a lembrar de nossas conversas, lembro-me, por exemplo, até de nossos silêncios...
_Sr. Nogueira, fale baixo, mamãe pode ouvir!
_Sim claro, mas como estava a dizer, jamais puder deixar de lembrar como a senhora estava encantadora naquela noite, seria capaz mesmo de enfrentar o Sr. Menezes por sua causa.
_Mas Sr. Nogueira , o senhor não entende, eu estou casada ...
_Dona Conceição, com todo respeito que eu tenho pela senhora e pela memória do falecido Sr. Menezes, hoje eu sou homem feito e sei muito bem o quê aconteceu naquela noite da Missa do Galo!
_Minha Nossa Senhora , o quê eu faço agora?!!
_Nada, apenas ouça-me com muita atenção, sei que a senhora não ama o Sr. Távora pois leio isto nos seus olhos, não negue por favor...
_Sr. Nogueira... Como negar??

Olhando-me no fundo dos olhos mergulhou sem amarras metendo-se por entre as nuvens de minha inútil resistência levando-me a lugares jamais suspeitados , jamais ultrapassados...
Minha alma flutuava num bailado suave e alegre, ciranda e valsa, céu de luzes e azul profundo dos mares, indo e vindo como as ondas em noite de luar, luar de lua cheia, vento morno de verão a varrer os medos e os nunca-mais...

_Dona Conceição a senhora quer ser a minha mulher?
_Sr. Nogueira eu...eu nunca deixei de ser, desde aquela noite!

Nesta noite preparo-me para fugir, não há outro jeito, mamãe há de me perdoar, mas mando buscá-la depois, pobre Távora... Há de encontrar uma boa moça disposta a envelhecer antes do tempo ao seu lado! Tenho que ser breve senão faltarão-me as forças...Nada levarei que não possa caber numa valise de mão, nada levarei que não permita-me levantar vôo como ave que tarda no ninho, apenas dois regalos estarão comigo: um volume editado pelo Jornal do Comércio dos “Três Mosqueteiros” de Dumas e um par de chinelinhas pretas de alcova.

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Um comentário:

Rodrigo Micheli disse...

Sua personagem, Rita, sem dúvida transpõem o tempo e prevalece às mulheres suas irmãs daquele momento. Lembrou-me uma tal Emma Bovary que um dia conheci. Mulheres assim ficam para sempre.