segunda-feira, 11 de junho de 2007

410 - SAENS PEÑA

Em 1999, um morador de rua, chamado Fumaça, encontrou uma mochila num lixão das redondezas do Rio Comprido, na cidade do Rio de Janeiro. Como Fumaça apesar de mendigo sabia ler, entregou o seguinte material à 19ª delegacia de polícia civil do bairro da Tijuca (RJ). Uma mochila contendo um livro (Mensagem, de Fernando Pessoa); material de papelaria, lápis, caneta, borracha etc; um caderno contendo um depoimento de um jovem chamado Leandro Henriques Franco que ficamos sabendo ter esse nome, pois constava também na mochila uma carteira, sem dinheiro, mas com alguns documentos de identificação.
Meu nome é Sr. Robson de Oliveira Neves, inspetor responsável pela investigação do desaparecimento do jovem Leandro, dado como desaparecido no dia 06 de janeiro do mesmo ano em que foi escrito o relato abaixo.
Estou no caso há um ano, mas como única pista que tenho são as linhas que se seguem, resolvi apelar à imprensa e, agora, divido essa história com a sociedade carioca e espero que, com isso, consiga alguma informação que possa ajudar no caso, trazendo um pouco de conforto e paz ao senhor Jucelino e a dona Palmira, incansáveis na procura pelo filho.

“Eram duas e meia da manhã, pelo que me lembre, quando eu atravessei a Rua Paissandu em direção ao Aterro para pegar esse ônibus. Avistei-o, lá longe, aqueles grandes faróis amarelos e olhei bem o letreiro luminoso que dizia: 410 - SAENS PEÑA. Um motorista negro e mal educado ainda andou uns vinte metros à frente de onde eu estava até parar. Entrei no ônibus dando o dinheiro ao trocador como de costume, passei a roleta e fui me sentar. Apanhei um exemplar de Pessoa que estava lendo recentemente, pois a viagem, apesar de curta, proporcionava uma leitura de páginas agradáveis. Até esse momento parecia estar tudo normal. Como a hora já era tardia, cerca de cinco pessoas encontravam-se nesse ônibus. O primeiro sinal de que algo sinistro aconteceu foi quando numa freada brusca me desliguei completamente da leitura para posar os olhos no motorista. Eu poderia ter me salvado nesse momento se tivesse acreditado no que minha visão demonstrava. Notei a fisionomia furiosa do homem ao volante. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi que o homem era branco de cabelos castanhos encrespados e possuía brilhantes olhos azuis. Uma confusão fracionária de pensamentos passou por minha cabeça:
— Mas o motorista não era negro? — pensei eu, comigo.
Era evidente que minha visão tinha se enganado há alguns minutos atrás... mas não. Resolvi olhar pela janela lateral e ainda pude ver o menino com sua bicicleta contornando a praça da cruz vermelha — esse fora um motivo importante para minha desgraça. Identifiquei imediatamente onde estávamos até então, o que me pareceu absolutamente normal. Como do meu assento possibilitava-me uma visão panorâmica tanto da lateral quanto da frontal, decidi acompanhar com os olhos a direção a seguir.
Estávamos, como todos que conhecem o Rio podem constatar, quase no final da Mem de Sá, na parte com pouca presença de luminárias, o que dava um aspecto medonho àquele lugar. Coisas vieram-me à cabeça que preferi não pensar e aprofundei-me na leitura novamente. Alguns minutos depois, não sei precisar quanto, a campainha tocou e desceram três rapazes. Como eu prestava atenção à passagem daquelas pessoas não percebera ainda onde estava, quando o último deles cruzava minha vista, revelou um motorista loiro de bigodes longos olhando para mim. Nenhum sinal de desespero se apossou do meu corpo, porque novamente minha razão tentava encontrar explicação para tal fato. Olhei pela janela lateral e, dessa vez, não reconheci onde estava, mas, naturalmente por estar envolvido na leitura, não encontrei aquele pedaço de lugar no meu caminho mental (que o tenho por se tratar do caminho da minha casa) e que faço há dois anos. Tudo estava aparentemente normal só que, agora, guardo o livro dentro da mochila, começo a anotar tudo e decido acompanhar a trajetória até o fim da viagem. Os últimos dois passageiros saltam no ponto seguinte, ficando apenas eu como passageiro dentro do ônibus, junto com o trocador e o motorista, que continuava sendo o loiro.
Olhando pelo pára-brisa do veículo, dividia a mesma visão do motorista, que seguia por aquela rua cada vez mais escura e que agora me dava motivos para achar que peguei o ônibus errado. Perguntei ao motorista:
— Esse ônibus vai pra Tijuca? — Ele respondeu com um aceno de cabeça que fiquei na dúvida se era de afirmação.
Nesse momento a campainha toca — mas não havia mais nenhum passageiro! — penso eu.
Um homem, negro, bem corpulento passa em direção à porta de saída. Ele permanece nas escadas até que o carro não mais se movimente. Antes de sair, olha para mim e, com um sorriso que arrepia todo o meu corpo, deixa o ônibus. Começo a ficar assustado, o lugar não parece com nada que eu conheça. Nenhum caminho em todo o Rio de janeiro se parece com esse lugar, e eu conheço o Rio! Pergunto novamente ao motorista se esse é realmente o ônibus correto. Dessa vez ele nada responde. Tocam a campainha novamente e agora um frio gelado toma conta do meu corpo. É uma senhora estranha que passa desta vez. Um grito misturado a um choro é o que sufoco dentro de mim. Alguma coisa me diz que é melhor não pôr para fora, é melhor agir com naturalidade, como todos estão agindo. Penso em saltar do ônibus, mas lá fora parece tão mais assustador que resolvo ficar. Tento me controlar, mas a cada momento que passa é impossível, sinto meu rosto ficar vermelho e inchar e uma lágrima rola pela minha face. Imediatamente ouço risos que estão ao meu lado. São duas meninas vestidas de preto, unhas pintadas, piercings, tatuagens... Essas coisas... Elas olham fundo para mim e não dizem nada, apenas dão gargalhadas, mas é como se eu pudesse ouvir seus pensamentos e eles dizem:
— “Chora nenenzinho, pois ninguém vai te ajudar!”.
Em seguida, as meninas tocam a campainha e descem também. Dessa vez tento segui-las com o olhar, mas é inútil. Ao colocarem os pés fora do ônibus, seus corpos desaparecem na escuridão! Finalmente explodo, porém tentando manter a mente no lugar, pois sinto que se deixar levar-me pela histeria será o meu fim. Falo novamente com o motorista com uma “certa” autoridade:
— Esse ônibus não vai para Saens Peña, não é mesmo?
Nisso o trocador começa a dar risadas. Levanto-me com fúria e vou até ele. Aproveito para olhar lá trás se não há mais ninguém e, para minha incredulidade, a resposta é não! Realmente não há mais ninguém neste ônibus maldito. Grito com o trocador perguntando o que é tão engraçado. Mas ele não pára de gargalhar. Num gesto que surpreende até a mim, minha mão vai encontrar-se com seu queixo, mas ele continua rindo, eu o esmurro novamente, e mais uma vez, e mais, e mais, e mais e cada vez mais, assustado com minha própria violência, fico mais apavorado ainda por ter surrado esse homem que, mesmo assim, não pára de mostrar os dentes. Com tantos golpes eu o derrubo até as escadas da porta traseira e o deixo lá. Com aquele medo violento parto na caça do motorista. Mas, quando chego perto da dianteira do ônibus, não há mais motorista. Corro para onde estava o trocador, mas também não há mais trocador. Agora estou completamente só num ônibus que anda sozinho. Por isso me entrego de joelhos ao desespero e peço perdão pelos meus pecados. Choro aos gritos, mas ainda possuo uma centelha de lucidez. Certo do meu fim iminente, confio na esperança de que alguém encontre essas linhas que escrevo com pressa e com medo. Vou colocar tudo dentro de minha bolsa junto com todos os meus pertences e jogar pela janela agora mesmo. Já é o suficiente. Acho que já fiz entenderem minha situação.
Uma última coisa a quem encontrar essas notas (se forem encontradas), por favor, avise aos meus pais que eu os amo muito. Meus documentos estão na bolsa, mas, mesmo assim, talvez ainda haja tempo: meu nome é... Oh meu Deus, por favor... Apagaram-se as luzes...

Rio de Janeiro, Sexta-feira, quatro de Janeiro de 19...
— Meu Deus...
... Sinto uma sensação sinistra vindo em minha direção: é hora de lançar a bolsa!
Não estou mais sozinho no escuro...”.

Um comentário:

MARÍLIA N. disse...

Oi Rodrigo! Minhas impressões: A princípio algo me incomodou e achei que eram transições de narrador. Mas relendo descobri que toda essa apresentação antes da "história" é que incomodava, me parecia desnecessária, um suporte qualquer para seu conto fantástico. Gostei do conto.