segunda-feira, 4 de junho de 2007

UM POUCO MAIS PERTO, POR FAVOR

Marília Nogueira


Sábado à noite. Festa na casa de amigos. Apartamento amplo, decoração planejadamente despojada assim como os figurinos na sala e na varanda. Bem-sucedidos filhos da classe média falam de arte, cinema, música, teatro. Sim, e se acreditam extremamente interessantes. F. está entediada demais para questionar e é o tédio que, silenciosamente, cria a distância ideal para que certas emoções invadam sua mente. No início experimentou uma ligeira, mas confortável, impressão de harmonia – todas aquelas pessoas jovens e bonitas e inteligentes e viajadas e jovens e todos aqueles belos móveis e quadros e aparelhos eletrônicos e digitais e todo aquele whisky e pó e balas e ainda a música e a vista do décimo sexto andar – era tudo tão leve, bonito e exato. F. sentia-se inundar de reverência e de gratidão. Afinal era parte daquilo, não?

A dúvida rapidamente se transformou na temida certeza de que aquele palco não lhe pertencia. A F. caberia aceitar o lugar na platéia que lhe fora determinado e logo aquela verdade incômoda arrastaria consigo um misto de cobiça, aversão e desespero. F. sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Respiração e coração correndo descompassados, peito subindo e descendo rapidamente. Ânsia e choro explodindo na garganta e as pernas pesadas demais para fugir.

Definitivamente não estava habituada a esses pequenos momentos de liberdade não condicionados à razão. Não que fosse insensível. Era capaz de se emocionar com alguns filmes e livros, até mesmo com certa arte contemporânea. Mas havia sempre uma interferência racional, um impulso por lógica e coerência. Na pior das hipóteses era possível permanecer à distância, o que não era exatamente uma escolha consciente, aproximando-se mais de algum moderno instinto de sobrevivência. Assim para continuar vivo, socialmente ao menos, o não aproximar-se seria determinante. Não aproximar-se e não permitir que se aproximem, pois as conseqüências podem ser, e muito provavelmente serão, nada confortáveis. Você vai sofrer e o se transformar em mais um chato qualquer. Não queremos sofrer e, principalmente, não suportamos que nos descubram sem importância, indignos da admiração alheia. Sobretudo é preciso ser reconhecido. Talvez essa necessidade de aprovação e reconhecimento supere a necessidade de amor ou mesmo certas inevitabilidades biológicas do corpo. No entanto o sofrimento pode ser tolerado, até bem vindo, se em um passado distante e superado. A superação engrandecendo o sujeito. Infelizmente o risco de se tornar amargo, triste ou simplesmente melancólico é suficiente para inibir boa parte dos impulsos de aproximação nas relações atuais.

F. estava próxima dessa idéia, mas não conseguira chegar ao raciocínio. Por nenhum motivo especial, aliás, o que mais desejava naquele momento era formar qualquer pensamento, articular qualquer coisa vagamente racional. Ao invés disso o que obteve foi uma imagem muito rápida: os convidados da festa se atiravam da sacada, um a um, sorridentes. Teve uma breve sensação de alívio, a imagem se desfez e finalmente vieram palavras. Uma frase inteira que parecia sair diretamente da garganta ou originada ali da própria língua sem permissão da mente, que ficara pra trás há muito tempo.

A música estava alta. F. não escutou bem aquela voz que era, aparentemente, a sua. Felizmente já não tinha como voltar. Agarrou-se às sensações e abandonou a festa para nunca mais ter medo de chegar um pouco mais perto do outro e, sobretudo, de si mesma.

3 comentários:

Anônimo disse...

Nosso blog está muito fofo e nao poderia começar melhor. Marilia, seu texto é ótimo! Beijos com saudades porque nao poderei ir nas próximas aulas. Mariana

Rodrigo Micheli disse...

Sim, parabéns para o nosso blog. Vamos preencher de histórias bem contadas e mal intencionadas esse espaço de liberdade e experimentação.
P.S.: Hoje, eu não me conheço!

Simone Isnard disse...

Taí, gostei! do tal do blog. É a minha primeira vez... Estou ainda com uma timidez de iniciante. Simone