segunda-feira, 20 de agosto de 2007

ESPELHO DE ALICE

ESPELHO DE ALICE


Um dia tive um sonho
Cavalo solto, crinas ao vento
Luz de luar, lua de sangrar
A guiar-me trôpegos os pés
Bosques meus, tendas minhas

Escudo de Perseu oblíquo
Noite travestida de sol
Bocas em notas noturnas
Espelho invertido de Alice

Quem vem me buscar?
Seqüestrei-me do sonho
Crime inafiançável, hediondo
Forasteiro de além-Pátria

Busquei-me entre espelhos
Sem me encontrar em nenhum,
Estilhaços de mente-cuore
Cinzas de amor destratado

E já me tardo na dor
Vazio de bocas e vozes
Bar aberto - copos vazios
Peitos outrora plenos e meus
Hoje negro e frio acepipe.

sábado, 18 de agosto de 2007

Por um credo literário possível

Creio em um narrador não onisciente, nem tão poderoso assim. Padeço de uma fé comovente nas sagradas escrituras. Por isso rezo toda noite escura da alma pelo encontro com esse narrador que crê na literatura como desvelamento de si mesmo. Um narrador que se perturbe com sua própria criação e acolha a surpresa na sua escritura, dialogue com ela e vivencie na carne de suas palavras o mistério do encontro com sua sombra desconhecida. Que a palavra urdida nesse doloroso ofício-sacrifício seja salvadora, transformadora... revelação. E que ao final de sua criação seu criador se perceba cria de sua própria criatura.

Creio nessa narração que se constrói no momento exato da escrita, pré-lógica, corajosa, contingente. Não que ela prescinda da construção ou se entregue a um automatismo romântico mediúnico, mas que se confronte com sua própria face. Que não seja pecado negar a si mesma mais que três vezes. E que ela deságüe em oceanos desconhecidos, praias desertas, recantos paradisíacos ou, quem sabe, continentes inexplorados. Sim, que a literatura seja a herdeira dessa nossa vocação lusa de navegadores a dedicar suas histórias pessoais a descoberta de terras além mar. Que essa viagem se dobre para dentro e para fora, simultaneamente, ao encontro de símbolos, tradições, culturas, misturas, identidades híbridas e em processo, tudo isso que temos em nós mesmos.

Creio na comunhão com esse narrador, que se depara consigo mesmo, que é leitor de si, durante o processo da escrita. Esse, que não teme contradições, incoerências e desconstruções ao longo de sua narrativa e perpassando seu discurso. Que grata surpresa seria forjar do barro uma personagem e, mais adiante, poder acolher algum ensinamento seu. E o encontro com sua multiplicidade de faces, diante da morte desse seu velho conhecido sujeito, possa alimentar sua boca que fala a língua da alteridade. Que esta fala cresça então mais forte e robusta, para que o outro possa ser sentido como mesmo, carne de sua própria carne.

Creio na escritura como salvação, ritualística e purgadora de todos os demônios do eu.

PERIGOSO MORIBUNDO

ao meu amigo Jorge Albuquerque

Meu amigo, meu amigo, meu amigo, meu amigo...
Já não sei se somos tu e eu loucos
ou se prisioneiros em um campo nazista.
Ou serei eu então criminisa e bandida,
pestilenta, leprosa, perigosa... banida.

Meu crime é, isso sim, essa vil sanidade
de não irromper qual um desvairado,
drogado, pirado, contraventor, infrator,
me insurgir contra a lei que regula a tua morte
naquele lugar que sequer tem um nome
e ao qual eles chamam
economica-mente:
C-T-I.

A sigla repele o afago em teu rosto.
O gesto algemado, assassino perigoso.
A sigla esfria o calor em minhas mãos.
O corpo gelado na câmara de gás.
A sigla proíbe a presença humana.
O corretivo do louco, a camisa de força.
A sigla aprisiona o horário de visita.
O ir e vir do criminoso, impedido.


Queria saber de um disfarce, um ardil,
para ir até ti e quieta,
ali.
Iria buscar a ponta do fio
que mantém você indefeso e preso
às máquinas da tortura infernal,
máquinas da solidão radical.
Que sina impingida aos homens
homens chamados moribundos,
palavra, tabu, feito um crime.
Seguiria a percorrer este fio a cada palmo
em argumentações necessariamente racionalíssimas.
E com os doutores da vida e da morte
desembaraçar-te-ia das teias que te enredam
nos discursos poderosos da ciência e da saúde
que ordenam e coordenam
a tua morte e também
a tua vida.