Faltavam dez minutos para as onze horas da noite quando Tito saiu da aula de canto em Botafogo. A ressaca do dia anterior, ainda lhe causava aquele estado de semiconsciência; próprio de quem, depois de vários copos, bebe mesmo é no gargalo. Mas nada disso perturbava Tito. Poderia-se dizer que sua têmpera era inabalável, e de fato, por trás daquela couraça boemia e cafajeste, estava um verdadeiro leão de aventuras insaciáveis. Apesar de nenhuma perturbação aparente, Tito estava aflito. Não como os desesperados, noviços da imensidão noturna, simplesmente havia algo que ele ainda não resolvera até então, e decidiu que seria feito naquele dia.
Onze horas! Anunciava seu swatch 007 com bipe elegante que, além disso, denunciava tecnologia e sofisticação. Sim, Tito era um homem de posses; mais do que isso, sabia-se valer disso. Combinava sua riqueza à situação que vivia. Contudo, alguma coisa lhe anuviava o pensamento e precisava tomar uma decisão instantânea. Pela primeira vez, ao longo do dia, perguntou a si mesmo se era quinta ou sexta-feira. — Não importava! — Acabou se decidindo, afinal estava no Rio de Janeiro; onde todo dia é dia. Acostumado ao pensamento rápido, dirigiu-se até o rio sul foi até uma livraria e comprou alguns livros de poesia. Passando em frente a um espelho, enquanto se olhava bonito, aquilo que o consumia, de repente clareava em resposta em seu pensamento. Seu reflexo sorria no espaço vazio, enquanto o Tito já deixava o shopping center, pois um plano já estava todo arquitetado na cabeça.
Meia-noite, certo de que não iria mais para casa naquele dia, Tito entrou alegremente em uma farmácia. E ao deixá-la, em seu bolso, contava dezenove preservativos!
Vou ligar para uma putinha. — Era tudo que se dizia baixinho, sem mencionar
palavra, só com um sorriso. Lembrou-se de uma dessas diversas noites em que se divertia, que uma bela prostituta, dera-lhe seu telefone celular caso ele quisesse repetir o que tão maravilhosamente havia feito num desses encontros amorosos. Procurou o papel amassado em sua carteira e lá estava, escrito em letras de forma: um nome, Keith, e oito dígitos. Tito não pode conter o riso lendo esse nome e lembrando o quanto o nome Keith fica bem em uma dessas meninas. Pensou dessa forma, que todas as profissionais do sexo deveriam adotar esse mesmo codinome, pois convenhamos, Keith é muito putinha!
Por alguma razão que não sei explicar. Tito foi até uma banca e comprou um cartão telefônico, sem querer usar o seu celular. Cada um com suas loucuras! Mas se algum de nós pudéssemos aconselhá-lo diríamos ser quase impossível encontrar um orelhão funcionando direito na cidade que já foi maravilhosa, apesar dos esforços periódicos da Telemar para colocá-los operantes. Já na primeira tentativa, dito e feito; a mensagem em luz verde dizendo: AGUARDE... As reticências querem dizer (Tito não o sabia), ETERNAMENTE! Nessa hora, e já passava de uma; Tito pensou em desistir e ir para casa. Porém o espírito aventureiro não o permitia, insistiu. Foi para o outro lado da rua, onde duas cabines eram melhores chances do que uma. Segunda tentativa. Uma voz do outro lado diz alô e eis o dialogo que se segue:
Keith?
É ela, quem está falando? — um pouco impaciente.
É o Tito — pequeno tempo para ser reconhecido e acrescentando logo em seguida. — da mangueira, se lembra aquele dia? Fomos para o Copacabana Palace, eu filmei você enquanto fazia xixi na hidro.
Cara, e aí maluco, beleza?
Então, e hoje, qual vai ser? — Tito partiu para agressão, pois via os créditos do cartão telefônico indo embora. E de repente, numa resposta inesperada, impensada em qualquer tempo por qualquer ser humano, nem mesmo nos anais da literatura universal, Keith solta uma pérola como jamais foi feita:
Estou de férias no trabalho! Casei com um holandês e vamos passar o carnaval em Portugal. Desculpa, mas só volto a trabalhar em março que é quando o meu marido viaja sozinho e eu voto pra Atlântica. — Tétrico e sem respirar, Tito não sabia o que dizer após essa enxurrada. E tudo que conseguiu foi ver os créditos do cartão acabando, enquanto Keith do outro lado dizia “alô, Tito, você ainda está aí?”.
Após colocar o fone de volta no gancho, Tito ainda não se recuperara, mesmo ele, em seu raciocínio rápido foi pego muito de surpresa. Até que seus olhos cruzaram com um pequeno papel colado na lateral interna do telefone público, dizendo: A CHUPADA MAIS GOSTOSA DO RIO DE JANEIRO, STHEPHANY, BOQUINHA DE ANJO, 9999 – 9999.
Tito, subitamente, votava-se para si mesmo como gostava de fazer e sempre lhe acontecia nessas ocasiões, e disse:
— Será?
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