quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Memória de Miss Panasonic

A memória de Miss Panasonic

- Meu pai me deu dois conselhos sobre a vida sexual. O primeiro era dar uma mijada profilática depois de ter relação. O outro conselho foi: - Nunca escreva a uma mulher.

Este segundo conselho viera de um colega de trabalho quando o pai morava na Colômbia. Tempos de juventude. Deve ter sido de muita valia para ambos, pai e filho. Colombianos sabem das coisas... Colombianas serão perigosas? Mulheres são perigosas! E ingleses na Colômbia podem até parecer incautos, mas nem por isso menos perigosos.

Nem recado na secretária eletrônica ele deixava. Que preferia não deixar...

Não registrar recado na memória de uma secretária eletrônica era dose. E o que tinha Miss Panasonic a ver com aquilo? Ah, essa não podia passar em branco.

Foi o start para ela pensar na revanche. Começou como uma raivinha miúda, uma doce raivinha. (Uma vingancinha podia cair bem.)

Primeiro foi lá com a máquina de retrato da amiga. Fez que ele mesmo fotografasse a orquídea gigante, mandou-lhe a foto pelo computador, linda foto, hein? Depois comprou uma máquina, era aniversário, gastou os dólares dobrados com cuidado dentro da frasqueira que quase não usava mais. Só podia tirar 4 fotos por vez: a máquina não tinha cartão de memória. O carregador de pilhas ficava pra comprar na próxima.

Durante a semana preparava o carregador. Na bolsa azul, junto com os produtos de maquiagem, punha a máquina no fundo. Pensar nos 4 retratos que ia tirar a deixava excitada.

Começou tímida, com cuidados e aflições. Escondia a máquina logo (e se ele visse?) Aos poucos foi perdendo o medo. Saboreava a hora em que ele estaria no computador, no telefone, no banheiro - para fotografar. Do chão ao teto, de 4 em 4, fotografou tudo dentro da casa: cozinha, banheiro, de dia, de noite, sala, pôr-do-sol, externas, internas (uma que tinha gostado foi a da lua, no teto do banheiro à noite). Depois sempre escondia a câmera.

A hora melhor era quando ele tomava banho, aí tinha um tempo previsto de demora. Ia pro escritório e fotografava t.u.d.o: retratos das filhas, o computador, a cadeira, até o telefone. Curtiu muito quando fotografou aquele retratinho dele em bebê, uns 2 anos, sentado na areia de Copacabana, cabelo encaracolado, pachorrento. Depois revelou a foto, pôs ela em sua mesa de cabeceira, num mini-porta-retrato antiguinho para retratos ovais. Parecia encomendado! Que gracinha. (Escondia o retrato quando ele vinha em sua casa.)

Fotografou a cama de todos os ângulos, enquanto ele fazia a laranjada de manhã. Que glória! A cama desfeita, a cama feita, de lado, de cima, do outro lado. Roupas pelo chão, sapatos jogados.

Naquela noite tinham bebido demais. Ela acordou para ir ao banheiro, quando voltou rolou, o sono não veio. Pegou a máquina e tirou 4 retratos dele dormindo.

Quando pôs as fotos na tela do computador em casa foi que viu que ele estava nu. Barriga pra cima, em pelo, sobre a cama, de pernas cruzadas. Verdade, foi sem querer.

Guardou as fotos no Picasa, não na pasta Casa, onde estavam as dezenas das outras, mas na pasta Escondidos.

É na pasta Escondidos que ficou a memória da raiva, registrada e classificada.

Revelada em foto, reciclada na vida.




Simone Isnard

Um comentário:

Rodrigo Micheli disse...

Simone, por favor, não pare de escrever nunca mais. É o que tenho para lhe dizer.