quarta-feira, 27 de junho de 2007

SALVAR-SE NARRANDO

Karen Cordeiro

Queremos aqui sondar a economia dos afetos que se apreende das relações entre o eu narrador que conduz a história e os “outros” personagens do conto Feliz Aniversário, de Clarice Lispector. O quanto este eu narrador conhece das razões e sentimentos dos personagens apresentados? Em que lugar (social, espacial e existencial) ele se coloca dentro do conto? Quais são as saídas existenciais que ele irá apresentar para eles? E em que medida ele se emociona e vivencia a história? Sempre trabalharemos com a idéia de um sujeito narrador que não se confunde com o eu autor, mas é antes e também mais um personagem. Seguiremos também com a suposição da existência de um inconsciente do texto, que poderá ser pecebido na desconstrução dos seus discursos.

Desde o início do conto podemos perceber que o eu narrador já se encontra espacialmente na cena da narrativa_“o marido não veio”_ de certa forma se incluindo na festa, se afirmando como mais um personagem. Ele não nega sua inscrição dentro da composição existencial e social que é apresentada como família. Mas percebemos também que somente até certo momento no conto ele é onisciente, conhecendo as razões e sentimentos de quase todos os personagens que se inscrevem dentro destes laços de família, como veremos adiante. Porém, em determinado momento, justamente através dos personagens que lhe parecem de algum modo enigmáticos e insondáveis, aqueles que não estão aparentemente atados pelos laços de família, o narrador viverá uma revelação, terá um momento de epifania.

Sobre as razões dos personagens, este eu narrador onisciente parece conhecer todas, não reservando muito espaço para movimentos e escolhas existenciais. A maioria não recebe sequer um nome, apenas suas posições referenciais dentro da estrutura familiar através de seus laços de parentesco. São sempre seres “em relação a outros”, jamais eles mesmos. Sobre um dos seis filhos da aniversariante se dirá que mora em Olaria, que mandara a mulher. Quase sem possibilidade de nomeação, ele é “o marido” da nora que mora em Olaria e que “não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos”. Sem nome, sem presença física, ele é apresentado como um covarde, que submete seus filhos e esposa, todavia sem romper com a estrutura familiar (“mas mandara a mulher para que nem todos os laços fossem cortados”). Não merece nenhum afeto por parte do eu narrador, que observa as reações de sua esposa: “mostrar que não precisava de nenhum deles”, “com cara fechada”, “emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posiçaõ de ultrajada”. A nora de Olaria e os filhos do casal surgem com o interdito de não mostrar suas identidades, vistas e sentidas como inadequações. Ela tem um “drapeado que disfarça a barriga sem cinta”, não podendo exibir talvez uma liberdade corporal. As duas meninas, “já de peito nascendo”, não podem vivenciar sua sexulidade, sendo infantilizadas por babados. E o filho menino deve assumir uma postura madura demais para sua tenra idade, sentindo o peso de vestes adultas, acovardado com essa missão imposta pelo pai autoritário que não veio.

Outros membros da família vão sendo apresentados pelo eu narrador sempre da mesma forma: quase sempre sem nomes, incomodados, angustiados, oprimidos, não podendo vivenciar suas identidades e com falas que não parecem autênticas. Ficamos curiosos durante grande parte da narrativa por que motivo a estes personagens não é dada a autonomia para recusar a participação neste teatro que é a festa de aniversário da “velha”, da “mãe”, que também só pode ser nomeada pela vizinha. Observamos que todos estão mobilizados em seus papéis dentro desta encenação de família por uma série de adereços, ornamentos e objetos que, envolvendo este corpo social, aparecem como metáforas dos laços opressores de família: “vestido drapeado”, “babados”, “gravata”, “presilha em torno do pescoço”.

O espaço físico também parece dotado de certa substância viva, numa espécie de delírio alucinatório do eu narrador, onde observamos paredes se apertarem, “cadeiras unidas em fila” aprisionando alguns personagem dentro da encenação, “balões sugados pelo teto”, negando espaço ao escape, “encostara as cadeiras na parede”. Todo o espaço físico cerca a mobilidade existencial dos personagens, que não conseguem desatar-se destes laços familiares demasiadamente apertados. O espaço cênico não apresenta assim nenhuma possibilidade de liberdade a seus atores.

Interessante perceber como a dona da casa prepara este espaço da festa como o cenário de um velório. Cabe a esta filha mais velha, enquanto mulher, a preparação deste ritual religioso. Tudo é preparado de forma laboriosa, pois depois do “expediente”, de “todo seu trabalho”, jaz solitário e silencioso o corpo do defunto, que “desde às duas horas estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia”, já apresentando sinais de rigidez cadavérica, “tesa na sala silenciosa”, a espera dos convidados para esta feliz festa de aniversário-velório. A filha não se esquece de borrifar “com um pouco de água de colônia” a velha, para disfarçar o cheiro da decomposição do seu corpo, “seu cheiro de guardado”. Enquanto isso a defunta-aniversariante, na sua “angústia muda” de se ver velada viva, observa o “vôo de uma mosca em torno do bolo”, seu corpo “branco, imaculado” deitado sobre a mesa-caixão.

O ritual de velório-morte é, contudo, subitamente, transmutado numa espécie de sacramento eucarístico. A velha assassina seu próprio corpo, “deu a talhada com punho de assassina”, o corpo desse Cristo cruxificado pela sua própria família, libertando finalmente seu espírito. A libertação é imediatamente sentida pela nora de Ipanema, que segreda “escandalizada” ou agradavelmente surpeendida”, “um pouco horrorizada”, dizendo: “Que força!” E cada facada no corpo-bolo é a afirmação da vida. Seu corpo “caía em ruínas” e era comido por todos “a cada pazinha”. Mas a aniversariante devorava “seu último bocado”, livre e viva. Eis o mistério da comunhão. O eu narrador comunga agora de todos os sentimentos e pensamentos da velha. Revela, então, que ela desprezava sua família, “oh, o desprezo pela vida que falhava, Como?! Como tendo sido tão forte”. Ela cospe no chão, num gesto de desprezo aos fracos e de elogio a vida, ao amor e a alegria.

Entretanto o eu narrador, em vários momentos, parece desconhecer os sentimentos, as razões e sentimentos da aniversariante. Ela aparece como enigma, ausente, “ninguém poderia adivinhar o que ela pensava”, “a aniversariante era apenas o que parecia ser”, pois “parecia oca” e seus “músculos do rosto não a representam mais”. Neste momento observamos o tabu da velhice, quando os personagens se revelam amedrontados com a possibilidade da morte corporificada na idade avançada da aniversariante.

Mas é exatamente neste momento em que o eu narrador se vê igualmente angustiado pela presença da morte, que ele pede ajuda: E Cordélia? E não a acha, à princípio, porque ela efetivamente não se inscreve neste espaço existencial. Cordélia está “ausente”, “sorrindo”, “suportando sozinha o seu segredo”. Está livre Cordélia, num universo paralelo e “desperta esbaforida”, apenas tangenciando este espaço-prisão por um breve “relance”. Cordélia pertence ao mundo dos vivos. É a “infeliz nora que sem remédio, amava talvez pela última vez”. E neste instante vem a revelação epifânica, “porque a verdade era um relance”, quando a velha com “seu punho mudo e severo sobre a mesa dizia”: “É preciso que se saiba que a vida é curta. Que a vida é curta. Que a vida é curta.”

Enfim, a velha se transfigurara num oráculo para o eu narrador e para Cordélia. “Seu mistério era a morte”. Decifra-me ou te devoro. E Cordélia sobrevivera. Decifrara na “velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante”, abandonando seu marido para viver seu amor, rompendo com violência este laço familiar, “enfim, agarrar a sua verdadeira chance de viver”.

ANGÉLICA - cresceu como peixe, vingou feito gente

Simone Isnard
Angélica Ramos Filha (n. em Jaboatão, PE, em 1956 - falecida em Niterói, RJ, em 2030)

Foi na Baía da Traição, litoral da Paraíba, que cresceu Angélica. A reserva indígena ficava na beira do rio, e meio km abaixo ia dar no mar. Do rio, tanto quanto da terra, vinha o alimento. Por isso na feira ninguém enganava Angélica. Dizer que estava fresco o peixe que não estava, Angélica sabia: tinha crescido como peixe.

Na reserva dos índios podia morar branco, mulato e até preto – desde que casasse com índio. A avó índia, a quem chamava “mãe”, a criou. Tinha pulso firme sobre todas as crianças. Sobre os filhos adultos, oito, que criou sozinha, é que não tinha mais força. Todos brigaram com ela um dia. E saíram pelo mundo a fazer besteira. De alguns não ouviu mais falar. Outros voltaram, arrependidos, para pedir o colo certo, saborear a comida, o conselho de pouca palavra. Um porto seguro na vida.
Besteira de filho homem era desgraça de duas caras: uma era a bebida; a outra bacurinho. Só de filho dos filhos homens criou meia dúzia. As moças embarrigavam e deixavam o embrulho na porta de manhã cedo, pra ela criar, que os criava bem.
Um que um dia voltou foi a mãe de Angélica. Com 14 anos fugiu da reserva pra ganhar o mundo. Ganhou ao invés Angélica, que depositou nos braços da mãe. Partiu em seguida pra outra. Que deu em outro bebê, o Manuel, bem escurinho esse, menos de quatro anos depois. Sumiu no mundo e ninguém mais deitou os olhos sobre ela. A avó soube no coração que só veria a filha lá no fim dos tempos. Deixou pra lá.
Já Angélica, quando tinha 20 anos, correu atrás de saber. Tinha informação de que a mãe tinha ido pra Natal e trabalhado lá, cuidou de apurar. Queria tanto notícias dela. Com o tempo aceitou que morrera.

ANGÉLICA RAMOS FILHA – este é o nome no registro de nascimento. Nascida em Jaboatão, cercanias de Recife, em 25 de outubro de 1956. Já Manuel, o irmão mais novo, cresceu sem registro, que a avó fez depois.
Aos 14 anos Angélica saiu da reserva e foi trabalhar numa casa de família no litoral. O horror da exploração doméstica e a marca de nascer mulher e pobre foram lições de classe que aprendeu na Paraíba.
O Rio de Janeiro cresceu no sonho, que realizou em 1975, quando desembarcou em Copacabana. Era semi-analfabeta, mas a oferta de trabalho no Sul e a rede de domésticas e de porteiros garantia o emprego certo.
Enorme o orgulho que sentiu quando tirou a carteira profissional, assinada não no primeiro emprego, como cozinheira, mas no segundo, quando passou a babá. A patroa acabara de ganhar o segundo bebê. Viu que havia escola noturna na Praça do Lido, pediu folga depois de 19 horas para freqüentar o primeiro grau noturno. Foi à noite também que aprendeu corte e costura no Sesc de Copacabana.
Nos anos 80 Angélica divertiu-se muito nos bailes e forrós que aconteciam no subúrbio e também em Copacabana (na Princesa Isabel tinha a boate Jaboatão, que fazia a festa dos porteiros e domésticas). Havia o turismo religioso também, e Angélica foi a Aparecida em excursão algumas vezes. Na bagagem de volta trouxe imagens de gesso de Nossa Senhora, que presenteou com alegria.
Primeiro alugou um quarto para morar nos fins de semana. O sonho da casa própria realizou quando pôde comprar em São Gonçalo dois terrenos perto do valão (não podia adivinhar que o valão enchia quando a chuva não dava vazão à água). Construiu a primeira para si. A segunda, mais tarde, seria para o irmão Manuel. Os ralos eram estrategicamente tapados quando chovia, para não inundar a casa. Mas inundou, claro, muitas vezes.
Quando conheceu o Jurandir, não sabia quão mulherengo ele era e quem eram as amigas com quem trocava confidências de intimidades. Jurandir, que colecionava canários, que fazia churrasco nos fins de semana, que biritava sempre um pouco além, dormiu com todas as suas amigas. Foi tudo tão rápido que ela mesma não se deu conta. Foram-se o Jurandir e todas as amigas.
Perdeu também dois filhos, o primeiro no parto por imperícia médica do INSS de São Gonçalo. O segundo, depois de uma reconciliação temporária, por causa da sífilis, adquirida de Jurandir, que infetou o bebê.
Perdeu tudo Angélica. Sobraram-lhe as duas casas próprias. Mais o emprego de doméstica - e a fibra, feita na vida.
Nunca mais a abandonou a idéia de adotar uma criança. Tinha até tentado aquela menina, foi mal na hora. Sem marido sabia que ia dar problema.
Não é que de repente essa Helena queria dar-lhe o bebê? Logo agora que tinha em casa os dois sobrinhos adolescentes, filhos do irmão Manuel, morando com ela a ocupá-la e preocupá-la? O juiz dissera que a mãe teria de dar o bebê de papel passado. Helena acedeu, queria se livrar da criança a todo custo. Que nunca mais teria direitos sobre a criança. Que poderia não vê-la nunca mais. Nada importava. Estava passando fome, e por um tipo de distúrbio alimentar qualquer durante a gravidez alimentava-se de pão e banana. Regados a xícaras de café. Angélica dava-lhe dinheiro e comida e esteve presente na hora do parto. Os papéis da adoção estavam todos em ordem.

MANUELA RAMOS nasceu em São Gonçalo no dia 10 de janeiro de 1999. No registro de nascimento consta que Angélica Ramos Filha é a mãe e que o pai chama-se Manuel Ramos.
Angélica a criou com o esforço do seu trabalho de doméstica no Rio e com a ajuda da comunidade das Testemunhas de Jeová de São Gonçalo, a que pertencia. Cresceu saudável e forte. Angélica nunca impediu e antes incentivou Helena a ter contato com Manuela. Helena, amiga assídua conquistada a palmo. Manuela sempre mostrou deferência especial com Helena. Angélica não obstou. Na hora certa revelaria que era adotada. Sem dizer quem era a mãe biológica, o Serviço Social a tinha avisado, que não era preciso. O juiz disse que nunca tinha visto aquilo, deixar mãe biológica visitar...
Desde cedo Manuela demonstrou sagacidade e inteligência, além de independência. Era também muito vaidosa, o que fazia Angélica sentir-se esquisita, sem saber como lidar com aquilo. Gostava de cantar, pegava num “microfone”, penteava os longos cabelos muitas vezes ao dia. Só tomava banho frio. Nos fins de semana acompanhava Angélica nas jornadas de evangelização. Chegou a converter muitos com palavras de sabedoria e convicção no amor de Jeová.
Além dos dois que já tinha, Manuel teve mais cinco filhos com outras companheiras. O primeiro filho de Manuel, o Nego, com 15 anos foi pai de um menino, que não reconheceu. A mãe e a criança moram perto de Angélica. Manuel paga as despesas. Manuela ama Neguinho.
Na escola de 1o grau, sob a orientação da comunidade religiosa a que Angélica pertencia, Manuela teve desempenho muito acima da média. Quando fez 14 anos, começou a dizer em alto e bom som que um dia ia ser presidente da República. E quando entrou para o 2o. grau afirmou muitas vezes que ia estudar na Faculdade de Comunicação na UFF, onde estuda Adriana, uma filha do Manuel.

Angélica - aquela que cresceu como peixe na Paraíba e vingou feito gente no Rio de Janeiro - estava dentro da van que capotou por causa da neblina na Ponte Rio-Niterói depois de levar uma fechada na manhã de anteontem, 8 de julho de 2030, matando todos os ocupantes.
A filha Manuela Ramos (31) junto com seus 7 meio-irmãos, mais o irmão Manuel Ramos (70), durante as exéquias, ressaltaram o sentido do valor do trabalho e do cumprimento do dever, de que a vida de Angélica foi exemplo.

AUGUSTO NUNES FILHO PARA O Jornal do Brasil de 10 de julho de 2030

Adendos:

1. O relato acima foi entregue a este jornalista após o enterro, por Simone Isnard (85), para quem Angélica trabalhou como doméstica durante 35 anos. Os dois últimos parágrafos foram acrescentados por mim.

2. Manuela Ramos é governadora eleita do Estado do Rio de Janeiro. Tendo obtido votação maciça das comunidades religiosas das Testemunhas de Jeová, a Governadora Manuela neste momento está em vias de conseguir o apoio da fortíssima bancada evangélica do Estado do Rio de Janeiro. Foi o candidato que teve o maior número de votos de mulheres por amostragem quando da última eleição para deputado em 2028.

3. Correm pelos bastidores notícias de que ACMBisneto, o mais novo senador da República, já sonda a Governadora Manuela para presidente da República na eleição de 2034.

4. Maria do Brasil Ramos, filha de Manuela, logo completará 14 anos. Companheira inseparável da mãe, mostra a mesma desenvoltura no trato com o público que sua mãe, de quem herdou o carisma e a simpatia. Canta e toca guitarra, agradando multidões de adolescentes. Já avisou que tem ambições políticas, de que não abrirá mão quando a hora chegar.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

410 - SAENS PEÑA

Em 1999, um morador de rua, chamado Fumaça, encontrou uma mochila num lixão das redondezas do Rio Comprido, na cidade do Rio de Janeiro. Como Fumaça apesar de mendigo sabia ler, entregou o seguinte material à 19ª delegacia de polícia civil do bairro da Tijuca (RJ). Uma mochila contendo um livro (Mensagem, de Fernando Pessoa); material de papelaria, lápis, caneta, borracha etc; um caderno contendo um depoimento de um jovem chamado Leandro Henriques Franco que ficamos sabendo ter esse nome, pois constava também na mochila uma carteira, sem dinheiro, mas com alguns documentos de identificação.
Meu nome é Sr. Robson de Oliveira Neves, inspetor responsável pela investigação do desaparecimento do jovem Leandro, dado como desaparecido no dia 06 de janeiro do mesmo ano em que foi escrito o relato abaixo.
Estou no caso há um ano, mas como única pista que tenho são as linhas que se seguem, resolvi apelar à imprensa e, agora, divido essa história com a sociedade carioca e espero que, com isso, consiga alguma informação que possa ajudar no caso, trazendo um pouco de conforto e paz ao senhor Jucelino e a dona Palmira, incansáveis na procura pelo filho.

“Eram duas e meia da manhã, pelo que me lembre, quando eu atravessei a Rua Paissandu em direção ao Aterro para pegar esse ônibus. Avistei-o, lá longe, aqueles grandes faróis amarelos e olhei bem o letreiro luminoso que dizia: 410 - SAENS PEÑA. Um motorista negro e mal educado ainda andou uns vinte metros à frente de onde eu estava até parar. Entrei no ônibus dando o dinheiro ao trocador como de costume, passei a roleta e fui me sentar. Apanhei um exemplar de Pessoa que estava lendo recentemente, pois a viagem, apesar de curta, proporcionava uma leitura de páginas agradáveis. Até esse momento parecia estar tudo normal. Como a hora já era tardia, cerca de cinco pessoas encontravam-se nesse ônibus. O primeiro sinal de que algo sinistro aconteceu foi quando numa freada brusca me desliguei completamente da leitura para posar os olhos no motorista. Eu poderia ter me salvado nesse momento se tivesse acreditado no que minha visão demonstrava. Notei a fisionomia furiosa do homem ao volante. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi que o homem era branco de cabelos castanhos encrespados e possuía brilhantes olhos azuis. Uma confusão fracionária de pensamentos passou por minha cabeça:
— Mas o motorista não era negro? — pensei eu, comigo.
Era evidente que minha visão tinha se enganado há alguns minutos atrás... mas não. Resolvi olhar pela janela lateral e ainda pude ver o menino com sua bicicleta contornando a praça da cruz vermelha — esse fora um motivo importante para minha desgraça. Identifiquei imediatamente onde estávamos até então, o que me pareceu absolutamente normal. Como do meu assento possibilitava-me uma visão panorâmica tanto da lateral quanto da frontal, decidi acompanhar com os olhos a direção a seguir.
Estávamos, como todos que conhecem o Rio podem constatar, quase no final da Mem de Sá, na parte com pouca presença de luminárias, o que dava um aspecto medonho àquele lugar. Coisas vieram-me à cabeça que preferi não pensar e aprofundei-me na leitura novamente. Alguns minutos depois, não sei precisar quanto, a campainha tocou e desceram três rapazes. Como eu prestava atenção à passagem daquelas pessoas não percebera ainda onde estava, quando o último deles cruzava minha vista, revelou um motorista loiro de bigodes longos olhando para mim. Nenhum sinal de desespero se apossou do meu corpo, porque novamente minha razão tentava encontrar explicação para tal fato. Olhei pela janela lateral e, dessa vez, não reconheci onde estava, mas, naturalmente por estar envolvido na leitura, não encontrei aquele pedaço de lugar no meu caminho mental (que o tenho por se tratar do caminho da minha casa) e que faço há dois anos. Tudo estava aparentemente normal só que, agora, guardo o livro dentro da mochila, começo a anotar tudo e decido acompanhar a trajetória até o fim da viagem. Os últimos dois passageiros saltam no ponto seguinte, ficando apenas eu como passageiro dentro do ônibus, junto com o trocador e o motorista, que continuava sendo o loiro.
Olhando pelo pára-brisa do veículo, dividia a mesma visão do motorista, que seguia por aquela rua cada vez mais escura e que agora me dava motivos para achar que peguei o ônibus errado. Perguntei ao motorista:
— Esse ônibus vai pra Tijuca? — Ele respondeu com um aceno de cabeça que fiquei na dúvida se era de afirmação.
Nesse momento a campainha toca — mas não havia mais nenhum passageiro! — penso eu.
Um homem, negro, bem corpulento passa em direção à porta de saída. Ele permanece nas escadas até que o carro não mais se movimente. Antes de sair, olha para mim e, com um sorriso que arrepia todo o meu corpo, deixa o ônibus. Começo a ficar assustado, o lugar não parece com nada que eu conheça. Nenhum caminho em todo o Rio de janeiro se parece com esse lugar, e eu conheço o Rio! Pergunto novamente ao motorista se esse é realmente o ônibus correto. Dessa vez ele nada responde. Tocam a campainha novamente e agora um frio gelado toma conta do meu corpo. É uma senhora estranha que passa desta vez. Um grito misturado a um choro é o que sufoco dentro de mim. Alguma coisa me diz que é melhor não pôr para fora, é melhor agir com naturalidade, como todos estão agindo. Penso em saltar do ônibus, mas lá fora parece tão mais assustador que resolvo ficar. Tento me controlar, mas a cada momento que passa é impossível, sinto meu rosto ficar vermelho e inchar e uma lágrima rola pela minha face. Imediatamente ouço risos que estão ao meu lado. São duas meninas vestidas de preto, unhas pintadas, piercings, tatuagens... Essas coisas... Elas olham fundo para mim e não dizem nada, apenas dão gargalhadas, mas é como se eu pudesse ouvir seus pensamentos e eles dizem:
— “Chora nenenzinho, pois ninguém vai te ajudar!”.
Em seguida, as meninas tocam a campainha e descem também. Dessa vez tento segui-las com o olhar, mas é inútil. Ao colocarem os pés fora do ônibus, seus corpos desaparecem na escuridão! Finalmente explodo, porém tentando manter a mente no lugar, pois sinto que se deixar levar-me pela histeria será o meu fim. Falo novamente com o motorista com uma “certa” autoridade:
— Esse ônibus não vai para Saens Peña, não é mesmo?
Nisso o trocador começa a dar risadas. Levanto-me com fúria e vou até ele. Aproveito para olhar lá trás se não há mais ninguém e, para minha incredulidade, a resposta é não! Realmente não há mais ninguém neste ônibus maldito. Grito com o trocador perguntando o que é tão engraçado. Mas ele não pára de gargalhar. Num gesto que surpreende até a mim, minha mão vai encontrar-se com seu queixo, mas ele continua rindo, eu o esmurro novamente, e mais uma vez, e mais, e mais, e mais e cada vez mais, assustado com minha própria violência, fico mais apavorado ainda por ter surrado esse homem que, mesmo assim, não pára de mostrar os dentes. Com tantos golpes eu o derrubo até as escadas da porta traseira e o deixo lá. Com aquele medo violento parto na caça do motorista. Mas, quando chego perto da dianteira do ônibus, não há mais motorista. Corro para onde estava o trocador, mas também não há mais trocador. Agora estou completamente só num ônibus que anda sozinho. Por isso me entrego de joelhos ao desespero e peço perdão pelos meus pecados. Choro aos gritos, mas ainda possuo uma centelha de lucidez. Certo do meu fim iminente, confio na esperança de que alguém encontre essas linhas que escrevo com pressa e com medo. Vou colocar tudo dentro de minha bolsa junto com todos os meus pertences e jogar pela janela agora mesmo. Já é o suficiente. Acho que já fiz entenderem minha situação.
Uma última coisa a quem encontrar essas notas (se forem encontradas), por favor, avise aos meus pais que eu os amo muito. Meus documentos estão na bolsa, mas, mesmo assim, talvez ainda haja tempo: meu nome é... Oh meu Deus, por favor... Apagaram-se as luzes...

Rio de Janeiro, Sexta-feira, quatro de Janeiro de 19...
— Meu Deus...
... Sinto uma sensação sinistra vindo em minha direção: é hora de lançar a bolsa!
Não estou mais sozinho no escuro...”.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Diga-me onde és VIP e te direi quem és.

Branca Lee

Chego pelo portão lateral, aquele que só os habitués sabem onde fica. O porteiro imediatamente me reconhece como VIP, e me dá pronta passagem. Grátis, claro, afinal, VIP de verdade não paga nada.

Atravesso a confusão da entrada, onde um grupo bebe animadamente direto da fonte, e sou prontamente recebida por Juliana, com seus longos braços, que quase tocam o chão. Juliana foi minha primeira amiga ali, a primeira que batizei. Creio eu que nos aproximamos tão rapidamente porque ela consegue ser, ao mesmo tempo, a mais imponente e a mais próxima. Enfim, a hostess perfeita.

Como é bom estar entre amigos de novo. O entra-e-sai-corre-corre-do-dia-a-dia é a desculpa mais verdadeira que tenho para os períodos de tempo verdadeiramente indesculpáveis que passo sem vir aqui, sem encontrar a todos (quem anda conseguindo tempo para fazer tudo o que deveria, quer ou se compromete com, que atire a primeira agenda eletrônica).

Depois de bater um longo papo com Juliana, sigo entrando no ambiente – e quantos conhecidos encontro! Aqui, como em todo o nosso Rio de Janeiro, um apelido (ou ao menos um diminutivo) são tão ou mais importantes do que um sobrenome. Açoita-cavalo, Veludinho, Lixeira, os Coqueiros de Vênus (um daqueles grupos que andam coladinhos, todos vestidos iguais e com o mesmo corte de cabelo) e o sensacional Chiclé são apenas algumas das figuras que encontrei no caminho, até chegar ao imperdível “salão das exibidas”.

Tom Jobim, o freqüentador mais famoso deste recanto privilegiado de nossa cidade, já as batizou como as “Noivas de Deus”. Lindas, exuberantes, vestem-se de cores vibrantes que valorizam suas formas suntuosas, feitas a imagem e semelhança da fêmea perfeita para cada tipo de macho. Algumas tem perfume natural de baunilha, outras passam quase o ano inteiro em flor. Não há como adentrar seu templo e não ficar absolutamente fascinado com tanta beleza: chega a ser ostensivo. Gosto delas, mas que são umas exibidas, isso são.

Corro, o tempo já me faz lembrar de sua existência, ainda tenho muitos amigos a visitar, alguns vindos de longe para me ver: minha melhor amiga, a Rosinha, é uma sapotácea muito alto astral natural das Antilhas. Foi ela quem me fez perceber que tenho uma paixão platônica por um australiano de mais de quarenta metros de altura, branco, lindo, sempre com aquele perfume delicioso de sauna, o Lyptus. Eles me apresentaram vários que só conhecia de nome, como o Cravo e a Canela (que não fazem mais um par, estão separados, uma pena), a Andiroba e o Chá.

O passeio não poderia terminar sem uma conversa sobre música, arte, poesia e ciência, bem ali no chafariz central. E claro, uma conferida na organização da galera japonesa, sempre tão disciplinada, fazendo o maior contraste com os nossos amazônicos que ficam ali ao lado, todo mundo junto e misturado, vendo quem grita mais alto para conseguir seu lugar ao sol.

Os seguranças me avisam de que já estão fechando, mas que posso ficar mais tempo, por que sou VIP. Ganho alguns minutos mais para relaxar, lembrar e esquecer.

Lembro que dizem que toda amizade tem um preço. Pois considero a desta mais do que justa: para fazer parte deste seleto grupo, basta uma doação de cento e vinte reais por ano.

Eu sou amiga do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

segunda-feira, 4 de junho de 2007

UM POUCO MAIS PERTO, POR FAVOR

Marília Nogueira


Sábado à noite. Festa na casa de amigos. Apartamento amplo, decoração planejadamente despojada assim como os figurinos na sala e na varanda. Bem-sucedidos filhos da classe média falam de arte, cinema, música, teatro. Sim, e se acreditam extremamente interessantes. F. está entediada demais para questionar e é o tédio que, silenciosamente, cria a distância ideal para que certas emoções invadam sua mente. No início experimentou uma ligeira, mas confortável, impressão de harmonia – todas aquelas pessoas jovens e bonitas e inteligentes e viajadas e jovens e todos aqueles belos móveis e quadros e aparelhos eletrônicos e digitais e todo aquele whisky e pó e balas e ainda a música e a vista do décimo sexto andar – era tudo tão leve, bonito e exato. F. sentia-se inundar de reverência e de gratidão. Afinal era parte daquilo, não?

A dúvida rapidamente se transformou na temida certeza de que aquele palco não lhe pertencia. A F. caberia aceitar o lugar na platéia que lhe fora determinado e logo aquela verdade incômoda arrastaria consigo um misto de cobiça, aversão e desespero. F. sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Respiração e coração correndo descompassados, peito subindo e descendo rapidamente. Ânsia e choro explodindo na garganta e as pernas pesadas demais para fugir.

Definitivamente não estava habituada a esses pequenos momentos de liberdade não condicionados à razão. Não que fosse insensível. Era capaz de se emocionar com alguns filmes e livros, até mesmo com certa arte contemporânea. Mas havia sempre uma interferência racional, um impulso por lógica e coerência. Na pior das hipóteses era possível permanecer à distância, o que não era exatamente uma escolha consciente, aproximando-se mais de algum moderno instinto de sobrevivência. Assim para continuar vivo, socialmente ao menos, o não aproximar-se seria determinante. Não aproximar-se e não permitir que se aproximem, pois as conseqüências podem ser, e muito provavelmente serão, nada confortáveis. Você vai sofrer e o se transformar em mais um chato qualquer. Não queremos sofrer e, principalmente, não suportamos que nos descubram sem importância, indignos da admiração alheia. Sobretudo é preciso ser reconhecido. Talvez essa necessidade de aprovação e reconhecimento supere a necessidade de amor ou mesmo certas inevitabilidades biológicas do corpo. No entanto o sofrimento pode ser tolerado, até bem vindo, se em um passado distante e superado. A superação engrandecendo o sujeito. Infelizmente o risco de se tornar amargo, triste ou simplesmente melancólico é suficiente para inibir boa parte dos impulsos de aproximação nas relações atuais.

F. estava próxima dessa idéia, mas não conseguira chegar ao raciocínio. Por nenhum motivo especial, aliás, o que mais desejava naquele momento era formar qualquer pensamento, articular qualquer coisa vagamente racional. Ao invés disso o que obteve foi uma imagem muito rápida: os convidados da festa se atiravam da sacada, um a um, sorridentes. Teve uma breve sensação de alívio, a imagem se desfez e finalmente vieram palavras. Uma frase inteira que parecia sair diretamente da garganta ou originada ali da própria língua sem permissão da mente, que ficara pra trás há muito tempo.

A música estava alta. F. não escutou bem aquela voz que era, aparentemente, a sua. Felizmente já não tinha como voltar. Agarrou-se às sensações e abandonou a festa para nunca mais ter medo de chegar um pouco mais perto do outro e, sobretudo, de si mesma.