MISSA DO GALO Simone Isnard
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu 48, ela um pouco mais. Era uma tarde de novembro. Havendo-a conhecido semanas antes no sítio de sua irmã, no Recreio dos Bandeirantes, forçou passagem para que eu a recebesse em minha própria casa; isso feito, tendo ela ido embora, fiquei muitos anos sem entender a que veio.
Ligara-me na véspera às 11 da noite. Irritada, que tinha telefonado várias vezes antes. Trabalhando num hotel, eu chegava mesmo tarde. Ah, queria me convidar para ir ao bingo. Saco!
Dias antes insistira em me visitar, ir a minha casa para um café. Mas eu tenho a faxineira... Não tinha importância. Que ia assim mesmo.
Carmem veio. E chegou com fúria espanhola. Café? - Tomaria mais tarde... Sabia que queria livrar-me dela. Fez como um gesto de autoridade, a dizer que tomaria o café quando bem entendesse. Nervosa, suava na testa, olhava fixo para mim.
Discorreu sobre a sua vida e mais longamente ainda a da irmã, terapeuta de família, como se eu tivesse o máximo interesse. Perguntou sobre minhas irmãs: – Vocês se ajudam, assim entre vocês...? Levando-a até a varanda, debrucei-me na grade e silenciei olhando a vista. De caso pensado. Visões externas ventilam as idéias, quem sabe o pensamento se espraia, se dispersa. E ela ia embora de vez.
Não foi. Retornava ao mesmo assunto, queria era falar do homem: o Teseu, aquele que me levara ao sítio. Eu desconversava. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros. Para isso viera. Aí virei bicho e resolvi: - Agora mesmo é que não vou dizer nada!
Os retratos sobre a arca da sala, a faxineira zanzando e batendo porta. Que mais ela queria saber? Por que não ia logo embora?
E falava e falava do Teseu sem parar. Só parou para o café. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família. Que era bom pai, bom cunhado. Que as mulheres corriam atrás dele, telefonavam. Que ele tinha energia demais... Que era construtivo com a família. Que quem ama cuida! E avisou: se eu ficasse com ele seria só a parte de baixo... Ah, xarope de mulher.
Lá no sítio, na varanda do casarão mineiro, ele me dera um beijo, onde estavam todos?, um beijo até longo, que raio de sumiço foi esse de todos ao mesmo tempo. Me lembro que cuidei pra que não estivessem olhando. As portas azuis fechadas. Será que estavam espreitando pelas frestas, escutando? Ih, neura, gente doida. Todos colados em nós e de repente somem.
Os retratos com as filhas, abraçadas a ele, sobre as prateleiras. Bonitos dentes, falei. Ah, comentário interessante.
O almoço com a galera à mesa, ele numa cabeceira, a ex na outra, o circo da família armado. De repente ele diz:
- O meu empregado falou pra ela (apontando pra mim) que em Minas se mata cobra à bala! Virgem, eu pensei. Tiroteio na mesa! Fugir pra onde, debaixo da mesa? Abaixa a cabeça que alguém vai morrer aqui e agora. Olha a bala perdida....
Levantando-se na outra cabeceira, Hera ergueu-se na forma de um dinossauro cuspindo fogo pela boca, olhos tentaculares:
- E o empregado, hein, tinha apanhado a Carmem no horário na rodoviária? Tudo certim?
Eu quase sentia a respiração de Carmem, colada em mim.
O parabéns cantado com bolo, soprando velinha, labaréu de fogo saindo pelas narinas de Hera. Horror. E depois um: Pra Beatriz tudo ou nada! Tudo! Ra-tim-bum! Cruzei os braços sem querer. Devo ter arregalado muito os olhos, impossível disfarçar o meu espanto.
Depois do café a zanzação na varanda, a minha saída-de-praia tinha sumido, nunca mais encontrei, será que pegaram foi pra fazer macumba contra mim? E a agendinha de capa de plástico azul jogada sobre a mesa. Alguém tirou da minha bolsa. Por que mexeram na minha bolsa? Quem mexeu aqui?! Falta de respeito!
Peguei um gancho em uma conversa sobre terapia de família e lasquei divertida:
- Com certeza ele (o Teseu) precisa de psiquiatra de plantão 24 horas por dia!
Recadinho esperto... Uma gaiola partiu em busca de um pássaro, é de Kafka isso, não?
Ah pra quê! A dinossauro-terapeuta desandou a cuspir fogo pra todo lado. Levantou as patas para o alto, soltou um rugido e deu uma rabanada que tirou a mesa do lugar, cadeiras até viraram. Quem manda aqui sou eu! Tá pensando o quê?
Recompôs-se, disfarçou a raiva: convidou geral pra ir até a horta ver a plantação de hortaliças. No rastro do rabo flamejante que varria o chão derramadas a raiva, a morte, a gosma fermentada.
Ele, o Teseu machucador que me levou lá, nem sabia que dinossauros herbívoros existem.
Pois continua sem saber. Não viu nada, não percebeu nada. Não sacou o teatro, nem ouviu além do que quis ouvir.
Quando me queixei, não quis saber. Quando falei que ia embora, não se tocou.
Foi por acaso que vi o seu Escort vermelho parado na rua em frente ao Planetário na manhã de natal. Lembrei-me de que me contara que quando as filhas eram pequenas vestiu-se uma vez de Papai Noel. Chegava da farra, cheio de bebida. Foi logo reconhecido, claro, era o paizão. O pavão. O galo da missa do galo.
Pássaros, galos, pavões, galináceos demandam liberdade para voar.
Durante a missa de Natal, a figura de um dinossauro alado com chifres de plástico azul interpôs-se entre mim e o padre; rodopiava pela nave, sainha vermelha rodada, o rabo, enorme, chocalho de cascavel na ponta, na cabeça um gorro de Papai Noel. Subia e descia, exibindo com galhardia o rabão obsceno. Na esteira, uma poeira de Netuno, névoa de estrelas, me turvava a vista. Eu caí numa espécie de sonho magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos.
Dinossauro... Minotauro... centauro... missa do galo... missa do falo...
O animal encolhia, ganhava pernas e penas, metamorfoseava-se em outros, agora um pavão, agora uma galinha, agora era uma cobra de belo desenho geométrico, boca aberta. Como uma faísca coruscante, avançou para a imagem toda branca de Nossa Senhora e tentava morder-lhe os pés, no colo o bebê aconchegado, sugestivo desenho de útero em forma de pêra. Era agora uma corda faiscante moribunda desaparecendo em estertores ondulantes.
Silêncio. Garças brancas partiram da base da imagem, as patas compridas setas atiradas em todas as direções, dardos inflamados contra o inimigo.
A conversa ia morrendo. Chegamos a ficar por algum tempo – não posso dizer quanto – inteiramente caladas. Quando Carmem foi embora naquele fim de tarde, tinha um ar de triunfo perverso, de quem cumprira o dever, doesse a quem doesse. Farfalhou as saias, bateu o salto dos sapatos no calcanhar: missão ibérica cumprida. Ordem no galinheiro, el toro estava domado.
Passados 12 anos, completado outro ciclo de Júpiter, eu ainda não compreendera totalmente os fatos. Era o aniversário de 60 anos da Beatriz, iam celebrar num restaurante. Eu disse a Teseu machucador que enviasse a Carmem um alô de minha parte. Até me deleitei com a provocação. Ah como queria estar lá para ler-lhe a face, os pensamentos. Tive que contentar-me apenas com um: - Dei o seu recado.
- E aí?
- E aí nada!...
terça-feira, 23 de outubro de 2007
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3 comentários:
Esclareço ao leitor que as partes em negrito foram extraídas do conto Missa do Galo do Machado. (a autora)
Fantástico... quantas imagens, mitologia misturada com sincretismo, com crítica de costumes, nossa... é vertiginoso. Tive realmente uma sensação de vertigem, diluidora, ouvindo a música dionisíaca que o conto canta. E é muito instigante, não entrega nada de bandeja, até o fim.
Peço desculpas, Simone, pois fico maravilhado nessa poeira cósmica femina, que é o seu universo literário. O fascínio deixa-me suspenso no idílio e penso que, se não está fazendo troça dos homens, meus companheiros; está dizendo sobre assunto particularíssimo do aspecto feminino. Enfim, misture-me as suas palavras, mas preciso voltar à elas para outra vez menino, tornar-me Phoenix-Masculinus.
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