MISSA DO GALO Simone Isnard
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu 48, ela um pouco mais. Era uma tarde de novembro. Havendo-a conhecido semanas antes no sítio de sua irmã, no Recreio dos Bandeirantes, forçou passagem para que eu a recebesse em minha própria casa; isso feito, tendo ela ido embora, fiquei muitos anos sem entender a que veio.
Ligara-me na véspera às 11 da noite. Irritada, que tinha telefonado várias vezes antes. Trabalhando num hotel, eu chegava mesmo tarde. Ah, queria me convidar para ir ao bingo. Saco!
Dias antes insistira em me visitar, ir a minha casa para um café. Mas eu tenho a faxineira... Não tinha importância. Que ia assim mesmo.
Carmem veio. E chegou com fúria espanhola. Café? - Tomaria mais tarde... Sabia que queria livrar-me dela. Fez como um gesto de autoridade, a dizer que tomaria o café quando bem entendesse. Nervosa, suava na testa, olhava fixo para mim.
Discorreu sobre a sua vida e mais longamente ainda a da irmã, terapeuta de família, como se eu tivesse o máximo interesse. Perguntou sobre minhas irmãs: – Vocês se ajudam, assim entre vocês...? Levando-a até a varanda, debrucei-me na grade e silenciei olhando a vista. De caso pensado. Visões externas ventilam as idéias, quem sabe o pensamento se espraia, se dispersa. E ela ia embora de vez.
Não foi. Retornava ao mesmo assunto, queria era falar do homem: o Teseu, aquele que me levara ao sítio. Eu desconversava. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros. Para isso viera. Aí virei bicho e resolvi: - Agora mesmo é que não vou dizer nada!
Os retratos sobre a arca da sala, a faxineira zanzando e batendo porta. Que mais ela queria saber? Por que não ia logo embora?
E falava e falava do Teseu sem parar. Só parou para o café. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família. Que era bom pai, bom cunhado. Que as mulheres corriam atrás dele, telefonavam. Que ele tinha energia demais... Que era construtivo com a família. Que quem ama cuida! E avisou: se eu ficasse com ele seria só a parte de baixo... Ah, xarope de mulher.
Lá no sítio, na varanda do casarão mineiro, ele me dera um beijo, onde estavam todos?, um beijo até longo, que raio de sumiço foi esse de todos ao mesmo tempo. Me lembro que cuidei pra que não estivessem olhando. As portas azuis fechadas. Será que estavam espreitando pelas frestas, escutando? Ih, neura, gente doida. Todos colados em nós e de repente somem.
Os retratos com as filhas, abraçadas a ele, sobre as prateleiras. Bonitos dentes, falei. Ah, comentário interessante.
O almoço com a galera à mesa, ele numa cabeceira, a ex na outra, o circo da família armado. De repente ele diz:
- O meu empregado falou pra ela (apontando pra mim) que em Minas se mata cobra à bala! Virgem, eu pensei. Tiroteio na mesa! Fugir pra onde, debaixo da mesa? Abaixa a cabeça que alguém vai morrer aqui e agora. Olha a bala perdida....
Levantando-se na outra cabeceira, Hera ergueu-se na forma de um dinossauro cuspindo fogo pela boca, olhos tentaculares:
- E o empregado, hein, tinha apanhado a Carmem no horário na rodoviária? Tudo certim?
Eu quase sentia a respiração de Carmem, colada em mim.
O parabéns cantado com bolo, soprando velinha, labaréu de fogo saindo pelas narinas de Hera. Horror. E depois um: Pra Beatriz tudo ou nada! Tudo! Ra-tim-bum! Cruzei os braços sem querer. Devo ter arregalado muito os olhos, impossível disfarçar o meu espanto.
Depois do café a zanzação na varanda, a minha saída-de-praia tinha sumido, nunca mais encontrei, será que pegaram foi pra fazer macumba contra mim? E a agendinha de capa de plástico azul jogada sobre a mesa. Alguém tirou da minha bolsa. Por que mexeram na minha bolsa? Quem mexeu aqui?! Falta de respeito!
Peguei um gancho em uma conversa sobre terapia de família e lasquei divertida:
- Com certeza ele (o Teseu) precisa de psiquiatra de plantão 24 horas por dia!
Recadinho esperto... Uma gaiola partiu em busca de um pássaro, é de Kafka isso, não?
Ah pra quê! A dinossauro-terapeuta desandou a cuspir fogo pra todo lado. Levantou as patas para o alto, soltou um rugido e deu uma rabanada que tirou a mesa do lugar, cadeiras até viraram. Quem manda aqui sou eu! Tá pensando o quê?
Recompôs-se, disfarçou a raiva: convidou geral pra ir até a horta ver a plantação de hortaliças. No rastro do rabo flamejante que varria o chão derramadas a raiva, a morte, a gosma fermentada.
Ele, o Teseu machucador que me levou lá, nem sabia que dinossauros herbívoros existem.
Pois continua sem saber. Não viu nada, não percebeu nada. Não sacou o teatro, nem ouviu além do que quis ouvir.
Quando me queixei, não quis saber. Quando falei que ia embora, não se tocou.
Foi por acaso que vi o seu Escort vermelho parado na rua em frente ao Planetário na manhã de natal. Lembrei-me de que me contara que quando as filhas eram pequenas vestiu-se uma vez de Papai Noel. Chegava da farra, cheio de bebida. Foi logo reconhecido, claro, era o paizão. O pavão. O galo da missa do galo.
Pássaros, galos, pavões, galináceos demandam liberdade para voar.
Durante a missa de Natal, a figura de um dinossauro alado com chifres de plástico azul interpôs-se entre mim e o padre; rodopiava pela nave, sainha vermelha rodada, o rabo, enorme, chocalho de cascavel na ponta, na cabeça um gorro de Papai Noel. Subia e descia, exibindo com galhardia o rabão obsceno. Na esteira, uma poeira de Netuno, névoa de estrelas, me turvava a vista. Eu caí numa espécie de sonho magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos.
Dinossauro... Minotauro... centauro... missa do galo... missa do falo...
O animal encolhia, ganhava pernas e penas, metamorfoseava-se em outros, agora um pavão, agora uma galinha, agora era uma cobra de belo desenho geométrico, boca aberta. Como uma faísca coruscante, avançou para a imagem toda branca de Nossa Senhora e tentava morder-lhe os pés, no colo o bebê aconchegado, sugestivo desenho de útero em forma de pêra. Era agora uma corda faiscante moribunda desaparecendo em estertores ondulantes.
Silêncio. Garças brancas partiram da base da imagem, as patas compridas setas atiradas em todas as direções, dardos inflamados contra o inimigo.
A conversa ia morrendo. Chegamos a ficar por algum tempo – não posso dizer quanto – inteiramente caladas. Quando Carmem foi embora naquele fim de tarde, tinha um ar de triunfo perverso, de quem cumprira o dever, doesse a quem doesse. Farfalhou as saias, bateu o salto dos sapatos no calcanhar: missão ibérica cumprida. Ordem no galinheiro, el toro estava domado.
Passados 12 anos, completado outro ciclo de Júpiter, eu ainda não compreendera totalmente os fatos. Era o aniversário de 60 anos da Beatriz, iam celebrar num restaurante. Eu disse a Teseu machucador que enviasse a Carmem um alô de minha parte. Até me deleitei com a provocação. Ah como queria estar lá para ler-lhe a face, os pensamentos. Tive que contentar-me apenas com um: - Dei o seu recado.
- E aí?
- E aí nada!...
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Homenagem de Simone a Drummond
Entre
Entre
o já foi e o não será,
o já passou e o deus dará,
viaja em Carlos Drummond
o amor:
o ganho não previsto, o script não revisto,
insight de erro em acerto inventado.
O prêmio subterâneo e coruscante
responde ao desejo do expectante.
Anytime is time.
The very time of death
is a time to be born. *
Amor começa tarde.
No meio ali
entre o já foi e o não será.
Simone Isnard
* Versos de Drummond: “Qualquer tempo é tempo. / A hora mesma da morte / é hora de nascer”.
Entre
o já foi e o não será,
o já passou e o deus dará,
viaja em Carlos Drummond
o amor:
o ganho não previsto, o script não revisto,
insight de erro em acerto inventado.
O prêmio subterâneo e coruscante
responde ao desejo do expectante.
Anytime is time.
The very time of death
is a time to be born. *
Amor começa tarde.
No meio ali
entre o já foi e o não será.
Simone Isnard
* Versos de Drummond: “Qualquer tempo é tempo. / A hora mesma da morte / é hora de nascer”.
sábado, 20 de outubro de 2007
TROPA DE ELITE, TODOS NÓS
Nizia Vilaça em seu ensaio Estética da cueldade e do luxo na comunicação contemporânea, se pergunta se a crueldade e a violência pode estar nas mídias pela estetização da violência. Pensando o recente debate sobre o longa metragem Tropa de Elite, do diretor José Padilha, e as reações acaloradas despertadas em vários segmentos da sociedade, passando pelos debates acadêmicos, salas de aula, cartas de leitores em jornais, até blogs e espaços privados, chama atenção o clima de agressividade e disputa suscitado pelas interpretações sobre o filme (ou pelo filme?). Embates violentos, assumindo posicionamentos autoritários, mesmo quando o que supostamente se diz pretender é discutir o caráter fascista da obra. Será que não estaremos vivendo uma cultura bandida como sublinha Otávio Frias Filho, onde tudo que a sociedade diz abominar é glamourizado no plano da representação simbólica. Então talvez, como propõe Patrícia Mello nos relatos de Acqua toffana, “no Brasil um crime só merece atenção se for uma obra de arte. Queremos os canibais, os perversos, os hiperviolentos, os científicos, queremos os melhores”. Não será, como aponta Luiz Eduardo Soares, no artigo Uma interpretação do Brasil para contextualizar a violência, que a ira individualista vem substituindo a violência heróica das obras clássicas, estas sim representativas de uma reação profunda ao desrespeito da honra pública, através de uma crueldade que se generaliza como elaboração artístico midiática e que encontram seu solo na destruição de valores que não sejam o do capital?
Somando-se a estas análises, devemos lembrar também que a abundância do caráter realista, cercado por imagens e simulacros, observado nas recentes produções do cinema nacional, é o retrato desta sociedade hiperindividualista, onde as representações ocuparam o espaço do real. Reduzidos “a um espaço público profundamente conturbado pelos aparelhos tecno-telemáticos e pela nova estrutura do acontecimento e da espectralidade que produzem”, como sugere Derrida, talvez jamais soubemos tão pouco a diferença entre o real e o ficcional.
Trilhando este mesmo raciocínio, não poderiam estar deslocados para o espaço das representações simbólicas também o erotismo, a libido e as pulsões em geral? Não seriam então estas as razões do frisson coletivo gerado em torno do personagem e narrador de Tropa de Elite, o Capitão Nascimento, um hiperviolento sedutor, que vem promovendo a fetichização da instituição do BOPE? Exemplos recentes desta operação simbólica são as lingeries e mini fardinhas do BOPE vendidas em sex shops desta nossa cidade, típico fenômeno de merchandising espontâneo. Pensando também os comentários de Benjamim acerca do livro Fleus do Mal de Baudelaire, que compreendendo as razões do tédio dominante na vida moderna, estabelece uma cumplicidade com o leitor (espectador?) hipócrita diante da derrocada dos grandes valores e das grandes esperanças que ainda acalentavam os românticos. Também Bataille associa a violência ao erotismo, denominando de "reino de heterogêneo" aqueles instantes explosivos, de pavor e fascínio, em que desmoronam as categorias que garantem ao sujeito o relacionamento familiar consigo mesmo e com o mundo, segundo as análises de Peixoto Jr em Descentramento e transgresões: a experiência de Bataille, cujo pensamento vale destacar:
Independentemente de Sade, a excitação sexual do criminoso não escapou aos observadores. Ninguém contudo, antes dele, tinha alcançado o mecanismo geral que associa os reflexos, como a ereção e a ejaculação, à transgressão da lei. (Bataille, 1987)
Voltando ao filme Tropa de Elite, podemos destacar a estetização de uma violência que possui uma fortíssima carga erótica em cenas que misturam embates entre bandidos e policiais, ao som pulsante de um baile funk com enquadramentos de mulheres dançando suadas e altamente sensuais, junto a bandidos que exibem falicamente suas metralhadoras. É o desejo de voyer do cineasta e do público de participar desta experiência dionisíaca, a qual eles não têm acesso, e que é bruscamente interrompida pela polícia e, logo depois, pelo BOPE, chefiados pelo moralista e perverso Capitão Nascimento. Não é a toa que Birman afirma ser a individualidade perversa caracterizada pelo moralismo, que não obstante seus atos escabrosos, submete-se à moral vigente, freqüentemente de maneira servil, como tão bem podemos observar neste personagem na sua relação com seus superiores na hierarquia policial. O personagem Capitão Nascimento exibe esta virilidade perversa estetizada pelas posturas corporais, suas falas debochadas e autoritárias nas sessões de treinamento-tortura a que são submetidos os aspirantes à instituição, e que podemos encontrar ecoando em vozes da cidade, como: “Você é um fanfarrão 02, um fanfarrão”; “Nunca serão, nunca serão”.
O personagem, assim como o espectador, é também um viciado nas altas cargas de adrenalina que sua atividade proporciona, chegando a viver uma espécie de crise de abstinência, quando vive um impasse frente a condição imposta pela esposa exigindo seu desligamento da instituição, exibindo típicas manifestações de dependência química, encenadas com suores, tremores, explosões verbais violentas, e não apenas um suposto dilema existencial, como sugere o próprio personagem. Sim, o policial e o espectador se parecem também com os mauricinhos drogados, viciados em violência e perversidade. Uma sociedade doente que dificilmente encontrará sua cura estetizando seus desejos de perversidade erótica e voyerismo nas suas representações simbólicas, mas ao contrário, apenas desencadeará mais violência nos discursos assimilados e incorporados pelos espectadores, agora autorizados a reproduzi-los sob a máscara da moralidade e da ordem públicas.
A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO
EXERCÍCIO DE ESCRITA BASEADO NO CONTO DE MACHADO DE ASSIS:
“ MISSA DO GALO”
POR: RITA ALENCAR
ESPECIALIZAÇÃO / PUC-RIO /SET. 2007
PROFª DANIELA VERSIANI
“A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO”
Da única noite que tive só para mim, guardo sobre a dobradura do cetim e as rendas do lenço branco as aventuras do jovem D’Artagnan de Dumas e ao qual recorro sempre que estou me perdendo de mim mesma, sempre que estou a fingir demais ser aquilo que não quero ser.
Nesta noite, como naquela, tenho as veias a pulsar, uma inquietação no peito e os olhos querendo ver mais do que as luzes têm para mostrar... Naquela noite eu me vi pela primeira vez, assim como o lago de Narciso que descobre no fundo dos olhos do mancebo a sua própria beleza refletida e se encanta, também eu me apaixonei pelo que vi refletido naqueles olhos de D’Artagnan, olhos que iluminaram as trevas de minha solidão e que me ensinaram o caminho de volta ao sal da vida. Hoje, nesta noite, como em tantas outras, revivo minhas memórias na delicada missão de reinventar-me para não morrer.
Em nome da segurança dos bens, casei-me com o Távora, não que seja mau esposo, não de modo algum, não como um Menezes, isto não mesmo! Távora é direito, cumpridor de seus deveres e acertos, mas falta-lhe um não sei quê de sonho, de imaginação... Outro dia tivemos uma conversação:
_ Távora meu bem, não achas que deveríamos fazer uma viagem, não para longe, Paquetá talvez...
_ Concinha, já te alertei da importância de pouparmos para os dias vindouros, nunca se sabe!...
_ Mas Távora tu só trabalhas, como consegues?
_ É fácil, é só não ficar de caraminholas na cabeça, ora pois!
_ Francamente Távora, tu és demais correto, não pensas que o tempo passa, que a juventude passa e que logo estaremos velhos para aproveitar as aventuras da vida?
_ Qual o quê Concinha, se Deus quiser logo estaremos bem velhinhos, aí sim descansaremos aonde tu quiseres, em Paquetá ou em Paris, mas ricos, Concinha , ricos.
Távora mal acorda e já mete-se nos colarinhos engomados à assoviar cânticos indecifráveis pela copa, enquanto estou a socorrer mamãe de seus freqüentes ataques de tosse matinal.
_ Mamãe, a senhora precisa ver o Dr. Montezuma, ele saberá curá-la, mas precisa querer...
_ Minha filha, não tenho mais jeito não, estou quase a partir, o Veiga mesmo disse-me esta noite, anda até a preparar-se para a minha chegada!
_ Mamãe, deixe de tolices, não gosto que fale assim!
_ Mas minha filha, é o teu pai, não deves duvidar dele, olha que isso é pecado...
_ Nem mais uma palavra, a senhora irá comigo hoje mesmo ao Dr. Montezuma!
O consultório do Dr. Montezuma está instalado num sobrado da Rua do Ouvidor, de forma que mamãe e eu, decidimos sair logo de manhã cedinho a fim de não nos atrasarmos para a consulta. Antes de sair lembrei-me do meu doce D’Artagnan , não sei bem porquê, acho que foi ao pousar dos olhos sobre o canapé...Tolice!
_São coisas que só devo relembrar na quietude da noite, nunca assim a luz do dia, ainda mais que logo me vêm esses calores fora de hora...
_Vamos minha filha que as horas tardam!
Dr. Montezuma era o único ser no mundo capaz de encontrar um caminho seguro para convencer mamãe de alguma coisa, até mesmo para tomar seu elixir de gosto intragável. Sendo assim dei-me por satisfeita e convidei mamãe para uma xícara de chá na Confeitaria Colombo.
_O quê estás a olhar Conceição? Pareces uma estátua de tão pálida...
_ Não é nada minha mãe, logo passa...
Naquela manhã um turbilhão de sensações explorou-me todo o corpo, calores explodiram pelos poros da pele, incontroláveis, loucos os olhos buscaram, embaçados pela turva lágrima antiga, os olhos daquele que me descobriu, que me deflorou a alma e os sentidos...
_Como vai Dona Conceição, há quanto tempo não é mesmo? Dona Inácia como vai a senhora?
_Não muito bem meu jovem, mas... nós nos conhecemos, hein?
_Mamãe como pode ter se esquecido do Sr. Nogueira, hóspede nosso há alguns anos atrás, cinco anos Sr. Nogueira?...
_Sim senhora ,cinco anos, soube que casou-se de novo...
_Não quer sentar-se conosco Sr. Nogueira?
_Sim, por favor, sente-se, conte-nos as novidades de Mangaratiba.
_Muito obrigado, sentarei-me por alguns instantes pois estou a trabalho, não posso alongar-me muito, mas gostaria de visitá-las se for conveniente é claro.
_Bem, o Távora não há de importar-se com sua visita, visto que é um velho amigo da família, não é Conceição? Não é Conceição?
_Desculpe Sr. Nogueira, acho que não me sinto muito bem hoje , pode ser o calor...
_A Srª quer que as ajude no caminho de volta?
Neste ponto já não conseguia ouvir mais nada, um torpor tomou conta da minha mente e assim, mais que de repente acho que desmaiei nos braços do meu doce D’Artagnan. Quando acordei achava-me recostada em minha cama tendo ao meu lado aquele que muitas noites esteve ali apenas em minha imaginação.
_Graças a Deus Dona Conceição, que susto tomamos eu e sua mãe, a coitada foi ao quarto recolher-se de tão agoniada...
_Desculpe Sr. Nogueira, não tinha a intenção de...
_Dona Conceição, não sabe como me preocupei com a senhora, não se desculpe por favor, era o mínimo que poderia fazer, afinal pude retribuir-lhe um pouco por tudo que a senhora fez por mim...
_Mas eu não fiz nada...
_Fez sim senhora, naquela noite...
_Sr. Nogueira!
_Desculpe-me se estou sendo indelicado...
_Não, não, continue por favor!
_ Dona Conceição desde aquela noite da Missa do Galo que eu acordo no varar da madrugada e ponho-me a lembrar de nossas conversas, lembro-me, por exemplo, até de nossos silêncios...
_Sr. Nogueira, fale baixo, mamãe pode ouvir!
_Sim claro, mas como estava a dizer, jamais puder deixar de lembrar como a senhora estava encantadora naquela noite, seria capaz mesmo de enfrentar o Sr. Menezes por sua causa.
_Mas Sr. Nogueira , o senhor não entende, eu estou casada ...
_Dona Conceição, com todo respeito que eu tenho pela senhora e pela memória do falecido Sr. Menezes, hoje eu sou homem feito e sei muito bem o quê aconteceu naquela noite da Missa do Galo!
_Minha Nossa Senhora , o quê eu faço agora?!!
_Nada, apenas ouça-me com muita atenção, sei que a senhora não ama o Sr. Távora pois leio isto nos seus olhos, não negue por favor...
_Sr. Nogueira... Como negar??
Olhando-me no fundo dos olhos mergulhou sem amarras metendo-se por entre as nuvens de minha inútil resistência levando-me a lugares jamais suspeitados , jamais ultrapassados...
Minha alma flutuava num bailado suave e alegre, ciranda e valsa, céu de luzes e azul profundo dos mares, indo e vindo como as ondas em noite de luar, luar de lua cheia, vento morno de verão a varrer os medos e os nunca-mais...
_Dona Conceição a senhora quer ser a minha mulher?
_Sr. Nogueira eu...eu nunca deixei de ser, desde aquela noite!
Nesta noite preparo-me para fugir, não há outro jeito, mamãe há de me perdoar, mas mando buscá-la depois, pobre Távora... Há de encontrar uma boa moça disposta a envelhecer antes do tempo ao seu lado! Tenho que ser breve senão faltarão-me as forças...Nada levarei que não possa caber numa valise de mão, nada levarei que não permita-me levantar vôo como ave que tarda no ninho, apenas dois regalos estarão comigo: um volume editado pelo Jornal do Comércio dos “Três Mosqueteiros” de Dumas e um par de chinelinhas pretas de alcova.
*********************
“ MISSA DO GALO”
POR: RITA ALENCAR
ESPECIALIZAÇÃO / PUC-RIO /SET. 2007
PROFª DANIELA VERSIANI
“A LONGA NOITE DA MISSA DO GALO”
Da única noite que tive só para mim, guardo sobre a dobradura do cetim e as rendas do lenço branco as aventuras do jovem D’Artagnan de Dumas e ao qual recorro sempre que estou me perdendo de mim mesma, sempre que estou a fingir demais ser aquilo que não quero ser.
Nesta noite, como naquela, tenho as veias a pulsar, uma inquietação no peito e os olhos querendo ver mais do que as luzes têm para mostrar... Naquela noite eu me vi pela primeira vez, assim como o lago de Narciso que descobre no fundo dos olhos do mancebo a sua própria beleza refletida e se encanta, também eu me apaixonei pelo que vi refletido naqueles olhos de D’Artagnan, olhos que iluminaram as trevas de minha solidão e que me ensinaram o caminho de volta ao sal da vida. Hoje, nesta noite, como em tantas outras, revivo minhas memórias na delicada missão de reinventar-me para não morrer.
Em nome da segurança dos bens, casei-me com o Távora, não que seja mau esposo, não de modo algum, não como um Menezes, isto não mesmo! Távora é direito, cumpridor de seus deveres e acertos, mas falta-lhe um não sei quê de sonho, de imaginação... Outro dia tivemos uma conversação:
_ Távora meu bem, não achas que deveríamos fazer uma viagem, não para longe, Paquetá talvez...
_ Concinha, já te alertei da importância de pouparmos para os dias vindouros, nunca se sabe!...
_ Mas Távora tu só trabalhas, como consegues?
_ É fácil, é só não ficar de caraminholas na cabeça, ora pois!
_ Francamente Távora, tu és demais correto, não pensas que o tempo passa, que a juventude passa e que logo estaremos velhos para aproveitar as aventuras da vida?
_ Qual o quê Concinha, se Deus quiser logo estaremos bem velhinhos, aí sim descansaremos aonde tu quiseres, em Paquetá ou em Paris, mas ricos, Concinha , ricos.
Távora mal acorda e já mete-se nos colarinhos engomados à assoviar cânticos indecifráveis pela copa, enquanto estou a socorrer mamãe de seus freqüentes ataques de tosse matinal.
_ Mamãe, a senhora precisa ver o Dr. Montezuma, ele saberá curá-la, mas precisa querer...
_ Minha filha, não tenho mais jeito não, estou quase a partir, o Veiga mesmo disse-me esta noite, anda até a preparar-se para a minha chegada!
_ Mamãe, deixe de tolices, não gosto que fale assim!
_ Mas minha filha, é o teu pai, não deves duvidar dele, olha que isso é pecado...
_ Nem mais uma palavra, a senhora irá comigo hoje mesmo ao Dr. Montezuma!
O consultório do Dr. Montezuma está instalado num sobrado da Rua do Ouvidor, de forma que mamãe e eu, decidimos sair logo de manhã cedinho a fim de não nos atrasarmos para a consulta. Antes de sair lembrei-me do meu doce D’Artagnan , não sei bem porquê, acho que foi ao pousar dos olhos sobre o canapé...Tolice!
_São coisas que só devo relembrar na quietude da noite, nunca assim a luz do dia, ainda mais que logo me vêm esses calores fora de hora...
_Vamos minha filha que as horas tardam!
Dr. Montezuma era o único ser no mundo capaz de encontrar um caminho seguro para convencer mamãe de alguma coisa, até mesmo para tomar seu elixir de gosto intragável. Sendo assim dei-me por satisfeita e convidei mamãe para uma xícara de chá na Confeitaria Colombo.
_O quê estás a olhar Conceição? Pareces uma estátua de tão pálida...
_ Não é nada minha mãe, logo passa...
Naquela manhã um turbilhão de sensações explorou-me todo o corpo, calores explodiram pelos poros da pele, incontroláveis, loucos os olhos buscaram, embaçados pela turva lágrima antiga, os olhos daquele que me descobriu, que me deflorou a alma e os sentidos...
_Como vai Dona Conceição, há quanto tempo não é mesmo? Dona Inácia como vai a senhora?
_Não muito bem meu jovem, mas... nós nos conhecemos, hein?
_Mamãe como pode ter se esquecido do Sr. Nogueira, hóspede nosso há alguns anos atrás, cinco anos Sr. Nogueira?...
_Sim senhora ,cinco anos, soube que casou-se de novo...
_Não quer sentar-se conosco Sr. Nogueira?
_Sim, por favor, sente-se, conte-nos as novidades de Mangaratiba.
_Muito obrigado, sentarei-me por alguns instantes pois estou a trabalho, não posso alongar-me muito, mas gostaria de visitá-las se for conveniente é claro.
_Bem, o Távora não há de importar-se com sua visita, visto que é um velho amigo da família, não é Conceição? Não é Conceição?
_Desculpe Sr. Nogueira, acho que não me sinto muito bem hoje , pode ser o calor...
_A Srª quer que as ajude no caminho de volta?
Neste ponto já não conseguia ouvir mais nada, um torpor tomou conta da minha mente e assim, mais que de repente acho que desmaiei nos braços do meu doce D’Artagnan. Quando acordei achava-me recostada em minha cama tendo ao meu lado aquele que muitas noites esteve ali apenas em minha imaginação.
_Graças a Deus Dona Conceição, que susto tomamos eu e sua mãe, a coitada foi ao quarto recolher-se de tão agoniada...
_Desculpe Sr. Nogueira, não tinha a intenção de...
_Dona Conceição, não sabe como me preocupei com a senhora, não se desculpe por favor, era o mínimo que poderia fazer, afinal pude retribuir-lhe um pouco por tudo que a senhora fez por mim...
_Mas eu não fiz nada...
_Fez sim senhora, naquela noite...
_Sr. Nogueira!
_Desculpe-me se estou sendo indelicado...
_Não, não, continue por favor!
_ Dona Conceição desde aquela noite da Missa do Galo que eu acordo no varar da madrugada e ponho-me a lembrar de nossas conversas, lembro-me, por exemplo, até de nossos silêncios...
_Sr. Nogueira, fale baixo, mamãe pode ouvir!
_Sim claro, mas como estava a dizer, jamais puder deixar de lembrar como a senhora estava encantadora naquela noite, seria capaz mesmo de enfrentar o Sr. Menezes por sua causa.
_Mas Sr. Nogueira , o senhor não entende, eu estou casada ...
_Dona Conceição, com todo respeito que eu tenho pela senhora e pela memória do falecido Sr. Menezes, hoje eu sou homem feito e sei muito bem o quê aconteceu naquela noite da Missa do Galo!
_Minha Nossa Senhora , o quê eu faço agora?!!
_Nada, apenas ouça-me com muita atenção, sei que a senhora não ama o Sr. Távora pois leio isto nos seus olhos, não negue por favor...
_Sr. Nogueira... Como negar??
Olhando-me no fundo dos olhos mergulhou sem amarras metendo-se por entre as nuvens de minha inútil resistência levando-me a lugares jamais suspeitados , jamais ultrapassados...
Minha alma flutuava num bailado suave e alegre, ciranda e valsa, céu de luzes e azul profundo dos mares, indo e vindo como as ondas em noite de luar, luar de lua cheia, vento morno de verão a varrer os medos e os nunca-mais...
_Dona Conceição a senhora quer ser a minha mulher?
_Sr. Nogueira eu...eu nunca deixei de ser, desde aquela noite!
Nesta noite preparo-me para fugir, não há outro jeito, mamãe há de me perdoar, mas mando buscá-la depois, pobre Távora... Há de encontrar uma boa moça disposta a envelhecer antes do tempo ao seu lado! Tenho que ser breve senão faltarão-me as forças...Nada levarei que não possa caber numa valise de mão, nada levarei que não permita-me levantar vôo como ave que tarda no ninho, apenas dois regalos estarão comigo: um volume editado pelo Jornal do Comércio dos “Três Mosqueteiros” de Dumas e um par de chinelinhas pretas de alcova.
*********************
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Sobre a matéria Que país é esse ou como ficar deprimida com números e livros da professora Giovanna Dealtry
Precisamos parar de achar que assunto sério é assunto chato.
Entendo que o brasileiro passa por tantas dificuldades que fica mesmo fora de propósito, em um momento de relaxamento e diversão, falarmos de assuntos de natureza político-social-econômica. Mas precisamos nos lembrar, principalmente aqueles que pensam o país que, na vida, questões como política, sociedade e economia estarão sempre presentes e nos influenciando de maneira direta.
Aproveitando o incitamento da estimulante matéria da Giovanna, minhas palavras são um aumento na provocação, ou melhor, no desafio, para que todos dêem, no mínimo algumas linhas de seu parecer sobre o assunto abordado por ela. E, por que não, ousarmos mais longe? Os espaços estão abertos, há muitos lugares para colocarmos nossas opiniões. Convoco vocês, amigos acadêmicos, para dar voz às suas palavras.
A responsabilidade é nossa e mesmo se não for, devemos chamá-la para si. Somos privilegiados por podermos pensar nesse país; devemos aos que não podem ou não conseguem o auxílio e ou as mudanças. O tempo de espera das “políticas públicas” (palavra sem sentido) já passou. A política é nossa, a mudança começa conosco. Na sala de aula, no aprendizado constante, na luta do dia-a-dia que cada um tem para estabelecer suas próprias metas. Mas não podemos ser egoístas. Temos o ideário de tantos que já estudamos e conhecemos, experiências frutíferas de nossas vidas. Precisamos doar isso ao mundo. Não nos calemos quando o assunto necessita reflexão e o outro nos assusta com piadas para deixar-nos mudos.
Posso, nesse momento, estar sendo até utópico no meu discurso, mas que seja. Analise o que eu digo, refute minha ideologia, não me importo. Mostre-me outro caminho, junte-se comigo em prol do bem comum, mas faça. Não podemos ser mais apenas os senhores do nosso castelo. Eu me cansei, não quero ser senhor de nada. Desejo estar no meio do furacão e ver as ciências e as artes dançando um tango argentino.
O resto só não pode ser silêncio.
... Só para ficar registrado, não sei quantos livros eu já li esse ano, mas foram mais de dois, com certeza, e neste momento estou lendo Obras Completas de Luciano.
Entendo que o brasileiro passa por tantas dificuldades que fica mesmo fora de propósito, em um momento de relaxamento e diversão, falarmos de assuntos de natureza político-social-econômica. Mas precisamos nos lembrar, principalmente aqueles que pensam o país que, na vida, questões como política, sociedade e economia estarão sempre presentes e nos influenciando de maneira direta.
Aproveitando o incitamento da estimulante matéria da Giovanna, minhas palavras são um aumento na provocação, ou melhor, no desafio, para que todos dêem, no mínimo algumas linhas de seu parecer sobre o assunto abordado por ela. E, por que não, ousarmos mais longe? Os espaços estão abertos, há muitos lugares para colocarmos nossas opiniões. Convoco vocês, amigos acadêmicos, para dar voz às suas palavras.
A responsabilidade é nossa e mesmo se não for, devemos chamá-la para si. Somos privilegiados por podermos pensar nesse país; devemos aos que não podem ou não conseguem o auxílio e ou as mudanças. O tempo de espera das “políticas públicas” (palavra sem sentido) já passou. A política é nossa, a mudança começa conosco. Na sala de aula, no aprendizado constante, na luta do dia-a-dia que cada um tem para estabelecer suas próprias metas. Mas não podemos ser egoístas. Temos o ideário de tantos que já estudamos e conhecemos, experiências frutíferas de nossas vidas. Precisamos doar isso ao mundo. Não nos calemos quando o assunto necessita reflexão e o outro nos assusta com piadas para deixar-nos mudos.
Posso, nesse momento, estar sendo até utópico no meu discurso, mas que seja. Analise o que eu digo, refute minha ideologia, não me importo. Mostre-me outro caminho, junte-se comigo em prol do bem comum, mas faça. Não podemos ser mais apenas os senhores do nosso castelo. Eu me cansei, não quero ser senhor de nada. Desejo estar no meio do furacão e ver as ciências e as artes dançando um tango argentino.
O resto só não pode ser silêncio.
... Só para ficar registrado, não sei quantos livros eu já li esse ano, mas foram mais de dois, com certeza, e neste momento estou lendo Obras Completas de Luciano.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
MISSA DO GALO
“Costumes velhos. Às dez horas da noite
toda gente estava nos quartos;
às dez e meia a casa dormia.”
Machado de Assis
É mais uma noite de sábado. Me enfado. Tudo deve transcorrer como de costume, não sei. Porém ouvi dizer que lá fora muitos estarão juntos na igreja, logo depois da meia noite, na tal missa do galo. Ah! Havia me esquecido, é Natal. Mas é que hoje aqui tudo faz parecer mais um sábado como outro qualquer. Vejo no relógio da sala que já são oito horas. Um trepidar me assusta, ferindo o silêncio da noite. Me estremeço toda. É claro, o escrivão já está na sua hora. Vestiu-se no quarto exalando cheiros e vontades, beijou a esposa na testa e partiu marchando pelo assoalho, pisando seus passos resolutos e ritmados pelos corredores. Esse som que machuca a monótona harmonia da noite. Na sala da frente está o jovem primo. Despediu-se dele hoje mais apressado que de costume, talvez. O silêncio segue seus passos até a rua, ocupando novamente seu espaço. E eu também de novo me enfado. Sinto o jovem pesando sobre a poltrona, ele e seus Três Mosqueteiros de Dumas. A sogra do escrivão veio desejar boa noite e lhe pergunta o que fará com tanto tempo à espera da missa do galo. Procuro o relógio, já são dez horas! O jovem lê.
Agora é a mulher de roupão que vem interromper a leitura! O que será que ela quer? Então o jovem e a mulher ensaiam um estranho bailado de coreografias verdadeiramente insuspeitas para mim. Rascunham uma história que não estava prevista para hoje. Movimentos de avanços e recuos pela sala, pelos móveis, pela noite. Sinto uma zonzeira, me atordôo. A dança que não se completa, as línguas que não se falam. As palavras escritas em letras mínimas, o tamanho possível para a caligrafia da mulher... a miopia do jovem... a história que não pôde ser escrita, cheia de rasuras, papel amassado, jogado num canto do tempo. Será que um dia alguém escreverá? Talvez, em intermináveis escritas e rasuras e reescritas, no sempre das reticências... não sei. Durmo um longa noite sem palavras. Acordo às vezes com uma irremediável insônia afásica.
Mas há noites em que eu gostaria de demolir as paredes que ergueram-se dentro de mim a minha revelia. Sei que são elas que me sustentam, me estruturam, me organizam, me fazem ser o que sou. Mas por vezes me sinto tão dividida, esquadrinhada, esquartejada, sei lá. Tão inutilmente dividida. Mas e se um dia, mesmo que por um breve instante, desconstruisse minhas entranhas e levantasse véus levemente invisíveis, ou talvez divisórias falsamente espelhadas? Talvez o milagre, o encontro possível, por um breve momento, aconteceria. Então a revelação, epifania de alegria, consumiria o espaço, as almas em alforria.
A velha viraria menina, correndo serelepe para o quartinho das escravas. Se amontoava no chão frio junto a seus corpos quentes e escuros, com elas rindo e cantarolando, agora não mais à socapa, até que a grande escuridão enfim se achegasse. A mulher se assustaria admirada, extática como o próprio Jesus Cristo na cruz. É seu reflexo por trás do jovem o que ela agora enfim pode ver. Encantada e surpresa com tamanha beleza, seu corpo e rosto a emoldurarem-se na parede, se avizinhando à Cleópatra e às outras tantas mulheres, todas em festa, escandalosamente santas. E o jovem? Ah! O jovem... desceria do cavalo magro de D’Artagnan e, num vendaval de certezas e coragem, tomaria a mulher arrebatada nos braços, divina comunhão, tanta verdade. Também o jovem vizinho e sua sombra que pairavam pesadas, não mais espreitavam portas, ameaçando nossas vontades. Tramava agora um ardil e pulava a janela da mulher, em toda noite de Teatro. E, por fim, o escrivão, era tomado de uma inveja tão santa frente aquela visão de felicidade. Queria ele para si o que via, o paraíso muito antes da mordida, o encontro muito além do pecado. Tomava seu cavalo também, corria a galope para o Teatro e de lá nunca mais voltava. Jogava fora todas as chaves, deixava a porta da rua destrancada, aberta para todo o sempre... Salve! Amém. E livres, não mais acorrentadas, as escravas corriam pela noite da cidade e da corte adentro. Iriam ver, aprender e entender, em que dava afinal a tal Missa do Galo.
Mas para isso tudo eu precisava da mão de Deus, para me animar e me dotar de vontade, pois sou apenas essa casa, assobradada, abandonada e assombrada, pelas lembranças de tudo que vi, aqui onde fico, na Rua do Senado.
toda gente estava nos quartos;
às dez e meia a casa dormia.”
Machado de Assis
É mais uma noite de sábado. Me enfado. Tudo deve transcorrer como de costume, não sei. Porém ouvi dizer que lá fora muitos estarão juntos na igreja, logo depois da meia noite, na tal missa do galo. Ah! Havia me esquecido, é Natal. Mas é que hoje aqui tudo faz parecer mais um sábado como outro qualquer. Vejo no relógio da sala que já são oito horas. Um trepidar me assusta, ferindo o silêncio da noite. Me estremeço toda. É claro, o escrivão já está na sua hora. Vestiu-se no quarto exalando cheiros e vontades, beijou a esposa na testa e partiu marchando pelo assoalho, pisando seus passos resolutos e ritmados pelos corredores. Esse som que machuca a monótona harmonia da noite. Na sala da frente está o jovem primo. Despediu-se dele hoje mais apressado que de costume, talvez. O silêncio segue seus passos até a rua, ocupando novamente seu espaço. E eu também de novo me enfado. Sinto o jovem pesando sobre a poltrona, ele e seus Três Mosqueteiros de Dumas. A sogra do escrivão veio desejar boa noite e lhe pergunta o que fará com tanto tempo à espera da missa do galo. Procuro o relógio, já são dez horas! O jovem lê.
Agora é a mulher de roupão que vem interromper a leitura! O que será que ela quer? Então o jovem e a mulher ensaiam um estranho bailado de coreografias verdadeiramente insuspeitas para mim. Rascunham uma história que não estava prevista para hoje. Movimentos de avanços e recuos pela sala, pelos móveis, pela noite. Sinto uma zonzeira, me atordôo. A dança que não se completa, as línguas que não se falam. As palavras escritas em letras mínimas, o tamanho possível para a caligrafia da mulher... a miopia do jovem... a história que não pôde ser escrita, cheia de rasuras, papel amassado, jogado num canto do tempo. Será que um dia alguém escreverá? Talvez, em intermináveis escritas e rasuras e reescritas, no sempre das reticências... não sei. Durmo um longa noite sem palavras. Acordo às vezes com uma irremediável insônia afásica.
Mas há noites em que eu gostaria de demolir as paredes que ergueram-se dentro de mim a minha revelia. Sei que são elas que me sustentam, me estruturam, me organizam, me fazem ser o que sou. Mas por vezes me sinto tão dividida, esquadrinhada, esquartejada, sei lá. Tão inutilmente dividida. Mas e se um dia, mesmo que por um breve instante, desconstruisse minhas entranhas e levantasse véus levemente invisíveis, ou talvez divisórias falsamente espelhadas? Talvez o milagre, o encontro possível, por um breve momento, aconteceria. Então a revelação, epifania de alegria, consumiria o espaço, as almas em alforria.
A velha viraria menina, correndo serelepe para o quartinho das escravas. Se amontoava no chão frio junto a seus corpos quentes e escuros, com elas rindo e cantarolando, agora não mais à socapa, até que a grande escuridão enfim se achegasse. A mulher se assustaria admirada, extática como o próprio Jesus Cristo na cruz. É seu reflexo por trás do jovem o que ela agora enfim pode ver. Encantada e surpresa com tamanha beleza, seu corpo e rosto a emoldurarem-se na parede, se avizinhando à Cleópatra e às outras tantas mulheres, todas em festa, escandalosamente santas. E o jovem? Ah! O jovem... desceria do cavalo magro de D’Artagnan e, num vendaval de certezas e coragem, tomaria a mulher arrebatada nos braços, divina comunhão, tanta verdade. Também o jovem vizinho e sua sombra que pairavam pesadas, não mais espreitavam portas, ameaçando nossas vontades. Tramava agora um ardil e pulava a janela da mulher, em toda noite de Teatro. E, por fim, o escrivão, era tomado de uma inveja tão santa frente aquela visão de felicidade. Queria ele para si o que via, o paraíso muito antes da mordida, o encontro muito além do pecado. Tomava seu cavalo também, corria a galope para o Teatro e de lá nunca mais voltava. Jogava fora todas as chaves, deixava a porta da rua destrancada, aberta para todo o sempre... Salve! Amém. E livres, não mais acorrentadas, as escravas corriam pela noite da cidade e da corte adentro. Iriam ver, aprender e entender, em que dava afinal a tal Missa do Galo.
Mas para isso tudo eu precisava da mão de Deus, para me animar e me dotar de vontade, pois sou apenas essa casa, assobradada, abandonada e assombrada, pelas lembranças de tudo que vi, aqui onde fico, na Rua do Senado.
Assinar:
Comentários (Atom)