quinta-feira, 27 de março de 2008

VIAGEM AO REDOR DOS MEUS LIVROS

MÓDULO: “LEITORES E ESTRATÉGIAS DE LEITURA”
PROF. : ÉRICO BRAGA
ESPECIALIZAÇÃO PUC-RIO 2007 – Rio,20 de Janeiro de 2008
RITA ALENCAR

VIAGEM AO REDOR DOS MEUS LIVROS

Devia ter uns 5 ou 6 anos, naquela época o meu mundo basicamente se resumia à casa de meus avós paternos. Rua Izabel, na bucólica Manaus dos anos 60. A rua era o nosso território livre, pique-pega, queimado, pula corda, brincadeiras até o pôr-do-sol , quando suados e exaustos atendíamos aos apelos incansáveis de nossa avó para o banho e a janta. Isso era o normal, o trivialíssimo cotidiano e não precisávamos mais do que isso, só que no Amazonas chove e chove muito e todo dia. Aliás só há duas estações no ano, a das chuvas que vai de dezembro à junho e a do calorão abafado que vai de junho em diante. Então o que fazer quando não podíamos nos esbaldar na Rua Izabel e sua gloriosas três mangueiras, nos dias de chuva? Bem, além de tomar banho de chuva, havia a opção de ficarmos quietinhos ao pé da cadeira de balanço (que era de macarrão colorido) de vovó Lili, que docilmente nos contava estórias de contos de fada ou lendas do nosso folclore local, enquanto trançava magnificamente entre os dedos ágeis, pequenas maravilhas de crochê. Mas a tarde era longa e a casa (uma construção antiga feita pelos imigrantes Portugueses) não nos dava opções à não ser correr em algazarras felizes, por entre os cômodos. Neste ponto tenho a recordação do primeiro impacto que sofri com a Literatura. Nosso avô Mundico, desembargador aposentado e erudito, gostava de deitar-se ao mormaço das tardes embalando-se na rede de sua biblioteca de corredor, sabíamos que era perigoso passar em disparada pela lateral estreita entre sua rede e a “parede” de livros, mas era excitante também, para nós e para ele de certo, parávamos, tirávamos uma reta e nos largávamos na aventura! Era óbvio que ele estava acordado e participando também da brincadeira, mas era gostoso o sabor do perigo:
_Olha não encosta na rede dele senão ele te pega! Aí você não tem como escapar... O vovô quando pega não larga!
Os grandinhos, mais espertos e treinados passavam fácil, os menores eram sua presas fáceis...Eu então, que era meio lentinha e distraída na maioria das vezes era pega! O mais engraçado era que ele não abria os olhos, reconhecia a gente pelo pulso, pelo cheiro, sei lá, nunca errava, pegava a nossa mão ( a dele era grande, morna e macia) e dizia:
_Agora tem que pagar uma prenda!
E com a outra mão alcançava um livro grande e cheio de figuras. Eram as “Fábulas de Esopo”, uma edição antiga de capa dura de páginas amareladas e um cheiro...bem , o cheiro já é outro assunto, mas eu acho que me deixava pegar pelo vovô só para ver as figuras daquele livro e sentir seu cheiro, cada página virada tinha um aroma, as vezes sentia que era uma espécie de colônia de flores igual a que a vovó Lili usava, outras vezes de tabaco ou rapé, aquela coisa que os antigos colocavam no nariz para espirrar, ou até mesmo ungüento de bálsamo benguê junto com naftalina, não sei, já andei divagando sobre esse assunto, só sei que era mágico, o cheiro, as figuras, o mistério.
Um pouco mais tarde, ainda nos 60, pude presenciar uma cena que só mais tarde, muito mais tarde, pude entender. Era 1969 e a ditadura militar oprimia o país, Manaus era Zona Franca de comércio, a opulência e a modernidade nos afrontavam e confrontavam, Manaus era uma explosão de contrastes e antíteses, bem, mas esse também é outro assunto. A questão era que meu pai, poeta e intelectual tinha, obviamente, entre seus títulos alguns “livros vermelhos” confiados à guarda da insuspeitável vovó Lili. Foi quando houve a “batida na Rua Izabel”, os “homens” entravam nas casas numa espécie de caça às bruxas aos “livros vermelhos”. Foi um corre-corre que só vendo, meus primos mais velhos só falavam uma palavra o tempo todo: “subversivos”. Eu achava que era coisa de adulto e não tava nem aí. Mas o pessoal estava muito nervoso e eu me assustei. Foi então que a vovó deu um gritinho e disse:
_Dê-me aqui esses livros Neto(é o meu pai)!
Que prontamente os entregou para serem delicadamente depositados na cristaleira, lado a lado, cobertos por delicadíssimos paninhos de organdi suíço bordados nas beiradas por crochê que ela mesma havia feito, e por cima deles a sua coleção de porcelana chinesa.
Os homens vieram, olharam, remexeram a biblioteca do corredor, embaixo da cama, fizeram uma cara feia, botaram o dedo em riste e foram embora. E todo mundo voltou a respirar. E os “livros vermelhos” foram salvos pelos paninhos de crochê da vovó Lili.

Outro impacto que sofri com a Literatura foi aos 12 anos, após ter acabado de ler a tragédia “Medeia” de Eurípides, fui levada pelos primos mais velhos (agora já no Rio de Janeiro) para ver a peça “A gota d’água” de Chico Buarque. O ano era 1976 e a temporada era com os grandes Paulo Autran e Bibi Ferreira. Não sabia nada sobre a peça, fui assistindo,assistindo e fui tendo uma espécie de alumbramento literário:
_Como assim?... mas... era a mesma estória de “Medeia”!
Que emoção, que sensação de plenitude! E eu descobri o Teatro, na sua magnitude e esplendor. Descobri que as paixões humanas, como dizia Aristóteles, são as mesmas, indiferentes ao tempo, culturas, etnias ou classes sociais. As tragédias sempre acompanharão os homens, porque na essência somos e sofremos igualmente.

Houve um tempo, muito, muito distante em que sonhei ser uma “escritora-daquelas-bem-famosas”, que viveria de sua escrita (por quê não?) e seria adorada por um séqüito de fãs ardorosos. Então comecei a ler, ler de verdade, “um bom escritor antes de tudo é um ótimo leitor” dizia meu pai. E eu lia, lia tudo que me vinha às mãos, como filha de peixe peixinho é... não encontrei muita dificuldade para conseguir um bom livro. Li com entusiasmo pueril as deliciosas coleções das Edições de Ouro em formato de bolso de “Os meninos da Rua Paulo”, “Tom Sawyer e Huckberry Finn” de Mark Twain , “Pollyana”, “Jane Eyre” de Jane Austen , “O livro da Mitologia Grega”, “Capitães da Areia” de Jorge Amado, o qual causou-me grande estranhamento mas fascinou-me também, e como ninguém é de ferro... as “tirinhas” do Ziraldo e os gibis da “Turma da Mônica” é claro!

Mas a gente cresce, o mundo fica meio confuso e as perguntas se proliferam. Busquei respostas, então, com os poetas. Li Cecília, Shakespeare, Neruda, Drummond, Bandeira, Vinícius... e Machado!(como Machado podia ser tãããããão moderno?!) Bom, fiquei mais confusa ainda, porém complexa, consistente! Pelo menos eu pensava assim.

Depois veio a Universidade, Letras é claro. O ano era 1984 e já estava de volta à Manaus. Universidade Federal do Amazonas. Li “A selva” de Ferreira de Castro, um clássico da Literatura Amazônica, descobri a saga dos seringueiros do começo do século XX , fiquei perplexa e orgulhosa de pertencer àquele povo lendário. Era época de Chico Mendes, dos Povos da Floresta, das matanças de índios nos embates por jazidas de minérios valiosos, das ameaças veladas dos Norte-Americanos, todos de olho-gordo em cima das nossas riquezas... Época do “Boto Tucuxi” de Márcio Souza, conterrâneo ilustre. Tempos tumultuados no Norte... Mas tive o privilégio de conviver com o mestre Milton Hatoum, docente da cadeira de Literatura Francesa, figura cativante e enigmática que nos legou o “Relato de um certo oriente”, sua obra-prima, verdadeira obra de arte sob a forma de Literatura.

Descobri os Portugueses por essa época; Eça de Queiroz e seu “Primo Basílio”, Camilo Castelo Branco com “Amor de perdição”, comprei a coleção completa de capa dura de Luis de Camões e me apaixonei irremediável e definitivamente por Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos ao ler a “Tabacaria”.

E fui colecionando “alumbramentos literários”: “O corvo” de Edgar Alan Pöe, “A insustentável leveza do ser” de M. Kundera, “O amor nos tempos do cólera” de Garcia Márquez , aquele amor improvável que supera o tempo e o esquecimento. E por fim, “Madame Bovary” de Gustave Flaubert, o qual ainda hoje dorme ao meu lado na mesinha de cabeceira, sempre à mão para um momento de urgência contra a mediocridade. Para recompor-me só Ema Bovary e seu determinismo passional!

Enfim, a Literatura tornou-se o meu território de ilusão, sabia já, a esta altura da vida que não seria aquela “escritora famosa” que tinha sonhado quando criança, mas que importava? Eu me deliciava do mesmo jeito, e isso era para sempre. O meu sonho era para ser sonho, nada mais, o resto a vida traz...

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa -“Tabacaria”

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RITA ALENCAR

sábado, 19 de janeiro de 2008

O presente, a cachorra e o menino pit bull

Aqui da varanda do meu apartamento, pela manhã, eu já vi muito menino pit bull passeando com sua cadela pelas areias da praia, da praia da Barra da Tijuca. Mas houve também noites em que eu vi meninos pit bull batendo em outras cachorras, que é como eles chamam as putas, aquelas que fazem ponto nos pontos de ônibus do outro lado da praia, na outra calçada da praia da Barra.
Aqui da varanda da minha insônia eu penso: será que quando ele passeia recolhe a merda que a cadela dele deixa na areia? Será?! Porque se ele pegasse mais na bosta dela, eu sei que ele era outro, tinha mais chance de virar um homem, respeitando o fato de que o mundo vem com bosta e tudo. Mas não. Ele acha que a puta que faz ponto suja mais a Barra dele, que ele quer tão asséptica, que a bosta da cadela dele. Por isso ele anda em bandos, nos coros, nos uivos, gritando pra jogar pedra nela, pra jogar bosta nela, na cachorra que é feita pra apanhar e que é boa de cuspir, na maldita puta que dá pra qualquer um, menos pra ele. Maldita, ele diz!
Ontem minha cadela de quinze anos morreu, aqui, nessa mesma varanda. Passei uma semana inteira limpando a bosta líquida que escorria-lhe pelas patas trêmulas. Banhei-lhe o rabo fétido, com água tépida, por mais de sete dias, pra lhe dar algum conforto. Aquele nojo que ia me limpando por dentro. Ela me olhava tão humana. Deixava que eu participasse de sua morte, que foi ali mesmo, na varanda com cheiro de mar. Não precisava, mas deixava mesmo assim. Fazia isso por mim. E eu ali dissolvida, imersa naquela profusão de fluidos tão mornos, misturados com sangue e fezes, sem saber, eu me paria. A bacia de água morna, com sangue e fezes, a água turva. A bolsa d´água se rompendo e jorrando, escorrendo pelas minhas pernas dela, e a criança nascendo e chorando, ou a cadela morrendo e gritando, com ou sem placenta, com sangue e fezes. Puta-que-o-pariu!
Meu filho viu tudo. Ele já tem dez anos e achei que precisava ver de onde veio.
Na semana seguinte estávamos parados em um sinal e ele viu o carro da frente abrir a janela. Retiravam sacolas com presentes de Natal e davam pra aquela mendiga suja. Aquela que haviam lhe entredito que enfeiava e maculava tanto a paisagem dos cruzamentos das ruas, das ruas da Barra da Tijuca. Mãe, olha só mãe, acho que eles tão dando presentes! Mãe, tô todo emocionado, mãe! Vamos fazer um dia isso mãe? Eu falei pra ele que talvez, que podíamos ver na igreja com o padre Celso se podia ter criança no dia do sopão dos mendigos, aquele que eu nunca fui. Cheguei em casa e pensei que ainda bem que ele não tinha me dado ouvidos quando expliquei que não era bom dar dinheiro em sinal, porque isso era culpa burguesa, que só estimula a marginalidade e a violência, que não adianta nada e blá, blá, blá. Pensei então que talvez alguma coisa ele tinha aprendido vendo a mãe metendo a mão na bosta da cachorra velha que morria. Respirei aliviada imaginando ele mais velho, transando, quem sabe, com uma daquelas putas, que humanizavam tanto as calçadas daquela que seria a sua Barra da Tijuca.
O meu presente de Natal foi sonhar que meu filho um dia vai contar sobre a noite que passou com uma cachorra pro seu amigo menino pit bull. Aquela noite em que estava só, ou deprimido, desesperado, ou corneado, fodido ou desempregado, mas que foi muito bem amado por uma bendita puta chamada Geni.

Conto inspirado na canção “Geni e o Zepelim”, da Ópera do Malandro de Chico Buarque de Hollanda